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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Macbeth: tragédia de sangue, tragédia de culpa

Em tempos de sociopatia, a autodestruição pela culpa não poderia ser mais humana.


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Uma das chamadas Grandes Tragédias de Shakespeare (ao lado de Hamlet, Otelo, Rei Lear e Antônio e Cleópatra), a peça Macbeth é considerada uma obra sobre ambição, traição e culpa. Nada poderia ser mais humano, e nada mais verdadeiro que Shakespeare, que segundo o grande nome no assunto, Harold Bloom, é ninguém menos que “o inventor do humano”. Isso porque se juntarmos as características e os exemplos (tanto positivos quanto negativos) da personalidade do ser humano em suas obras, não parece haver nada que tenha sido esquecido em sua produção. Estamos todos lá, cada um de nós.

Mas nos tempos de “sociopatia” ou “psicopatia” em que vivemos, me parece que o que chama muito a atenção em Macbeth é a falta dessas duas características, uma vez que Macbeth e sua esposa Lady Macbeth são torturados por suas próprias mentes até a paranoia, o tormento e a loucura justamente por não conseguirem viver em paz com as traições e assassinatos que cometeram. A questão toma uma proporção predominante na obra no que diz respeito ao sentimento de culpa uma vez que quem não tem sentimentos – um sociopata, um psicopata – não sofrerá com o resultado de suas ações. Macbeth e Lady Macbeth foram levados a um nível de desgaste mental e espiritual que apenas humanos realmente humanos poderiam sentir.

Houve maldade, ambição desmedida, quebra de paradigmas e quebra de caráter para que suas ações pudessem acontecer? Sim, sem dúvida. Mas se pensarmos no que acontece com os protagonistas – o inferno interior – Macbeth parece ser uma obra não apenas sobre a culpa, mas sobretudo sobre ela. De fato não há a consciência sobre os atos e sobre o nascimento da culpa e do medo nos personagens ao ponto de alguma ação de arrependimento acontecer. Os atos planejados se consumam, nenhum sentimento tem o poder de evitá-los. Mas Shakespeare nos mostra até mesmo o inconsciente de Lady Macbeth vindo à tona em suas falas antes que os assassinatos acontecessem: lembrem-se que ela pede para que seu coração seja ou se torne mais negro. Se este já o fosse totalmente, não haveria por que pedir nada (Lady Macbeth: “...envergonho-me por ser dona de um coração tão claro”); não haveria o medo implícito de que os atos não fossem cometidos; não haveria a necessidade de refletir sobre a possibilidade de fraquejar (quando Lady Macbeth percebe Macbeth hesitando e o incita a seguir o caminho da destruição ao ridicularizá-lo); não haveria sequer – e principalmente – a loucura tomando conta destes dois personagens, sem dúvida humanos ao ponto de se esfacelarem perante o impacto de seus sentimentos.

Os pontos de vista podem ser inúmeros, e a discussão já dura cinco séculos, portanto o que se pode afirmar é que não há uma verdade absoluta e imparcial sobre as personalidades dos personagens em Shakespeare. Essa é a parte da “invenção do humano”: ser relativo e verdadeiro ao mesmo tempo, assim como cada ser humano que já viveu. Nunca é possível finalizar um assunto ou uma proposta de ponto de vista sobre uma de suas peças, justamente porque a verdade humana é tão real que o texto se torna um ser vivo, mutante conforme o estado do leitor, que ora sentirá a realidade sobre um viés, ora sobre outro, assim como na vida real, não muito distante da obra de Shakespeare, e, portanto, não muito distante de Macbeth.

A pergunta que me parece ficar no ar após a leitura (ou após assistir à peça) é: Qual a maior destruição, a maior traição, a maior desgraça? Aquela causada a terceiros através da ação mal intencionada, calculada e destruidora em busca do que se deseja, ou aquela em que um ser humano (verdadeiramente humano, não nos esqueçamos) causa a si próprio por conta desses atos, que como se pode ver, voltam-se contra seus criadores em forma de um veneno autoaplicado e sem vacina que os salve do inferno da culpa, um sentimento oriundo da mente, mas, em última instância, assassino do corpo?


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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