yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Doctor Jack-o’-Lantern, de Richard Yates

A solidão vivida e evitada sob um microscópio.


1.jpg

Uma das características mais marcantes da narrativa de Richard Yates (talvez a mais importante, em comparação a seus colegas de século XX), seja a mescla entre o fluir natural e despretensioso de sua escrita e a forma ímpar com que os fatos narrados (e subnarrados) chegam a um ápice que não apenas causa uma vertigem de realidade no leitor, como revela a vida de forma realista e assustadora. Um acidente, uma doença, a traição entre amigos ou casais, tudo isso nos pega despercebidos, muitas vezes. Mas Yates tem o poder de assustar por meio de um caminho tortuoso até que o leitor perceba o que houve, o que está de fato acontecendo. Grandes fatos e decisões se originam de pequenas sementes do passado, quase sempre invisíveis então, mas que tempos depois olha-se para trás e lá se pode ver a primeira folha crescendo.

Vincent Sabella, um menino da periferia de Nova Iorque é praticamente jogado aos leões quando entra para um novo colégio, no interior, e torna-se instantaneamente o alvo da chacota e maldade invisível de seus colegas. Vincent é tímido, mal vestido, tem má higiene, não consegue se mesclar ao grupo. Nem sua professora, com todos os seus esforços, pode incluir Vincent em algum dos pequenos grupos de crianças. Mas Vincent não é massacrado como estamos acostumados a ver em filmes e em livros sobre a maldade infantil. Aqui está novamente a sutileza e a sensibilidade de Richard Yates em cena: sua percepção sobre o impacto de fatos ou situações aparentemente invisíveis são o suficiente para marcar a vida e o interior das pessoas. A maneira com que Vincent se defende não chega a ser cruel. O ataque de seus colegas tampouco. Cruel é a vida, sem querer, ao criar a solidão que a maioria dos seres humanos não tem o poder de suportar. Ao menos não sem que alguma marca, cicatriz ou futuro desequilíbrio venha à tona.

Apenas Yates (e talvez nem ele) saibam o que de fato acontece quando a solidão é inevitável. Percebe-se, porém, que um mínimo gesto, que em situações cotidianas se passaria por mais um segundo de vida desperdiçado e esquecido no passado, transforma-se na salvação de uma alma prestes a perder-se devido a um ataque da natureza que ninguém pôde nem poderá jamais evitar.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Julian Barg