yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Herzog, de Saul Bellow: um mundo em introspecção

Quem está disposto a mergulhar em seu próprio interior?


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A insanidade, um termo por si só incompleto ou incompreensível em sua totalidade, parece circundar o ser humano em todos os momentos de sua existência. Mesmo que – justamente por tentarmos ser sãos – digamos que há uma linha que separa a sanidade da insanidade (e esta pode de fato existir em casos muito raros e de acordo com parâmetros sociais e temporais), o fato é que faz parte da sanidade ser parcialmente insano. Várias culturas tratam do assunto de forma distinta, e, consequentemente, a maneira com que as pessoas de cada uma delas expressam o que pode ser considerado lógico ou ilógico é também particular.

Em Herzog, Saul Bellow nos mostra uma (suposta?) insanidade (parcial? real?) em uma narrativa bastante anglo-saxônica, que não apresenta grandes dramas apelativos, mas sim um pequeno monstro que sorrateiramente cresce e vai se mostrando lentamente até que o leitor – cada um em seu momento – comece a se perguntar se há algo “errado” mesmo ou não. Não existem afirmações chovendo em nossas cabeças, certezas terminando o parágrafo com um ponto final pesado e firme.

Logo de início, Moses Herzog reflete sobre sua insanidade e parece estar certo dela. Mas como qualquer ser dotado de certo equilíbrio, não têm certeza desta tampouco. Já os insanos têm certeza de que são sãos. Mas o que parece importar na obra, como é o que importa na vida, é o processo e não a resposta que nem ele nem nós jamais teremos. E nesse sentido o “ser” dentro do ser humano vai abafando seus impulsos da existência ao seu redor e usando como válvula de escape algo que seja invisível ao mundo externo. Moses escreve cartas imaginárias, que não se concretizam mas que servem como ouvintes de seus próprios pensamentos. São caixas de som que emitem o interior do personagem para ele mesmo, em um processo de dualidade que interioriza o diálogo necessário para não perder totalmente a razão.

Como todo e qualquer monstro que nasce, mais cedo ou mais tarde esse processo passa a se tornar visível, e o mundo começa a questionar o que pode estar havendo em sua mente – e pior, o que pode vir a acontecer fora dela.

Herzog é um personagem em crise, mas uma crise contida que em muitos momentos sentimos poder escapar e vir à tona, com consequências pouco previsíveis. A tensão em seus pensamentos, suas reclamações e indignações endereçadas a diversas pessoas (vivas, mortas, distantes em sua maioria) parecem estar prestes a explodir a cada minuto, e nos momentos em que há algum respiro, não parece haver paz. O caos interno de Herzog é quieto, porém em ebulição; silencioso, porém borbulhante, prestes a ferver ou esfriar.

Mais ao final da obra, quando Herzog está com seu irmão, podemos perceber mais claramente que o mundo indica que o personagem principal está mais desequilibrado do que parece, ou pelo menos é o que a percepção externa indica. Seu irmão o observa, cuidando ao soltar pequenas frases que coloquem um freio em Herzog até que chega a sugerir que ele necessita de tratamento. Na verdade, não há algo drástico no enredo que nos mostre um ser humano fora de controle, assim como a maioria das pessoas que conhecemos parecem estar em condições mentais equilibradas... até não estarem mais, e muitas vezes de repente.

Pode-se dizer que Herzog, nesse sentido, poderia ser uma versão “adulta” de Holden Caufield, de O apanhador no campo de centeio? Certamente Herzog tem mais pelo que lutar, mais com o que se indignar após tantas perdas, mas a depressão quase invisível, fria, se assemelha na falta de paixão descontrolada, própria das loucuras inflamadas. O que também me faz lembrar dos romances Foi apenas um sonho, de Richard Yates, e As horas, de Michael Cunningham, onde personagens se perdem em um ponto que não pode ser detectado até o momento em que já estão perdidos.

Retratos de uma época? De um lugar? De um estilo de retratar o desequilíbrio “equilibrado”? Talvez o desequilíbrio descontrolado seja mais específico e consequentemente mais compreensível a pessoas que tenham vivido cerca do abismo. Já a natureza de traços de desequilíbrio é universal, atingindo quase que a totalidade dos leitores em sua humanidade, independente de estes aceitarem a obra de Saul Bellow de braços abertos ou rejeitá-la por lentidão na narrativa, tédio, pelo peso da vida ou, pior, por similaridade com suas próprias percepções.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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