yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Memórias, ficção e netsuquês

Em A lebre com olhos de âmbar, Edmund de Waal dosa ingredientes como biografia, autobiografia, história, política, guerra, e, claro, ficção, para falar sobre uma vida rodeada de pequenos objetos mágicos, os netsuquês.


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À medida que o tempo passa, não só as barreiras tecnológicas, de comunicação, de tempo e espaço se tornam mais difusas, mas as artes, e neste caso, a literatura, torna quase invisível a separação entre uma proposta e outra, um estilo e outro, diversas maneiras de se expressar. Pode-se pensar que há pouco de literatura em A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal, um best seller que, como todos, junta multidões a seu favor e também contra seu tom comercial. O fato é que qualidade ou a falta dela existem tanto nas obras propositalmente comerciais como naquelas em que o intuito é justamente caminhar pela periferia do mercado.

Quanto há de verdade no livro e na história de Waal? Nunca saberemos, assim como nunca se sabe verdadeiramente quais são as verdades, os coloridos, os exageros, as supressões de qualquer obra que se apresente como verídica ou biográfica. É certo que nas palavras-chave de indexação da obra a palavra “História” aparece três vezes, mas junto a outras características, no caso “arte”, “judeus” e “banqueiros”. A questão é que o livro é mais do que essas três histórias, e o título fala sobre uma coleção de netsuquês, o que na verdade colore de forma bastante literária (e também comercial, ao tocar nossos sentidos) toda a narrativa que lemos.

Pode-se perceber, porém, que, no mínimo, o livro de Waal é “acomodado” para comportar uma boa história que, se não é totalmente ficcional, ao menos tem as características de um bom romance, o que, por sua vez, facilita para que o leitor se apaixone pelas histórias “verdadeiras” ao mesmo tempo em que o ritmo e a sonoridade lhe agradem aos olhos e aos ouvidos.

Muito (talvez quase tudo) do que realmente importa na narrativa e no enredo pode ser comprovado se formos pesquisar a história contada. Isso não só determina nossa confiança no autor e na obra como, para quem é apreciador de livros históricos, é determinante para que a qualidade seja apreciada e para que a reputação do autor seja mantida. Em muitos momentos as cartas e documentos dos personagens são citados, e o autor tem o cuidado de colocar essas passagens entre aspas ou sua fonte é estabelecida (“Meu tio em Londres vem pesquisando informações para mim e localizou 12 páginas de memórias da minha vó Elisabeth sobre sua infância no Palais”, p. 145). Grande parte das características dos personagens, porém, é detalhada de forma única, como apenas uma pessoa poderia fazê-lo conforme sua interpretação ou imaginação (“...um samovar de prata fumega sobre uma grande bandeja de prata...” p. 142)

Edmund de Waal escreve uma obra que possui várias camadas de relação entre ele (que também é narrador e personagem), seus antepassados e os que se relacionam com eles, os netsuquês (que adornam e contornam a narrativa), ora colocando-se no mesmo tempo e espaço, ora afastando-se para comentar desde o presente ao olhar para o passado, ora explicitamente deixando dúvidas e aguçando nossa curiosidade (através da dele) sobre o que de fato aconteceu e de que forma (“Ela me olha com segurança, ciente de como está linda.” P. 153, em uma relação sua com Emmy, no passado, em uma foto). Ainda temos um toque de intertextualidade quando o autor/narrador fala de “seu” Charles (aquele que é motivo de sua pesquisa) e o Charles na obra de Proust, enriquecendo a obra e abrindo um pouco as janelas da ficção, afinal, qualquer bom autor, seja este de romance ou de história, sabe que a vida e o dia a dia contados exatamente como ocorreram não se diferenciarão em nada da vida de cada um de nós, e o que o leitor deseja é a novidade, um pouco de ar fresco.

Até a metade da obra, suas características foram habilmente definidas pelo autor: biografia? Autobiografia? História dos netsuquês? Política? Guerra? Antissemitismo? Romance histórico? Sim. Um pouco de tudo, sem dúvida, e na medida certa para que a obra seja uma mescla de realidade, realidade criada e, antes de tudo, um livro agradável.

Os netsuquês, em grande parte da narrativa, ficam um pouco de lado, dando espaço a outras histórias, que no fundo parecem ser mais importantes, mas que, sozinhas, não possuem o charme para atrair tantos leitores. Assim como um livro apenas sobre a origem dos netsuquês não seria tão agradável de saborear, pois teria obrigatoriamente de ser muito mais técnico e pontualmente histórico.

Mas Edmund de Waal sabe dosar seus ingredientes, e quando o leitor pensa estar mergulhando em histórias paralelas, os netsuquês reaparecem, às vezes apenas mencionados para serem relembrados, outras vezes de forma um pouco mais demorada, afinal o título tem de permanecer válido. O último capítulo da obra fecha a história de maneira primorosa confirmando o que de fato foi atingido pelo autor: um livro multifacetado que pede doses de realismo e mágica igualmente. Neste último momento, de Waal se pergunta sobre o que esteve escrevendo e pesquisando, o que é verdade e o que não, e termina com uma cena belíssima em que os netsuquês tomam vida própria, em uma metáfora para o que ele próprio veio fazendo desde a primeira até a última linha escrita: oscilando entre a verdade, a parcialidade dos fatos e a magia, pois sem ela a vida não tem cores.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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