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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Brás Cubas: o eterno herói brasileiro nunca foi tão atual

Brás Cubas, motivo de orgulho na literatura, de vergonha no caráter do brasileiro


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Seria o personagem mais emblemático da literatura brasileira mais um caso daqueles em que amamos um herói cheio de defeitos, dentre eles o de ser consciente de todas as suas falhas de caráter, fraquezas humanas e ainda por cima, que faz chacota delas para que possamos conhecê-lo melhor? Brás Cubas, narrador morto de um romance póstumo, só por isso já seria um inovador no campo literário do fim do século XIX. A questão se torna ainda mais complexa se formos analisar e verificar que o tempo “presente” da narrativa é a pós-vida do narrador, que de forma inexplicável escreve um romance mesmo morto e transforma o nosso agora no seu depois.

Vejamos: a narrativa está no tempo presente, mas esse presente já passou, pois o livro (que Brás Cubas deixa claro ser uma obra escrita por ele para nós) já terminou de ser escrito, então é, ao mesmo tempo, passado. E é passado pela segunda vez ao ser o romance sobre a vida que ele viveu antes de morrer (óbvio? Não, afinal ele também vive (ou viveu) uma vida depois de morto, que foi quando nos escreveu o romance).

O prefácio já nos prepara para o que vem pela frente ao revelar, em uma página, a personalidade do personagem que nos conta sua vida. E a pergunta que se pode fazer (e seria uma pergunta muito comum muito tempo depois na literatura) é se de fato podemos acreditar nesse narrador. Sim, porque suas intenções ao revelar detalhes de sua vida e pensamento não são claras. Ao mesmo tempo em que ficamos sabendo de seus amores, percebemos que as bases de seus sentimentos são questionáveis e muito rapidamente a direção de sua vida se modifica. Mesmo quando Brás Cubas nos confessa um profundo pesar por algo, não tarda mais de algumas linhas para que, com uma boa dose de sarcasmo, a vida real seja reconsiderada, colocando em dúvida sua sinceridade.

Seu modo de lidar com o pai, com Marcela, com os amigos, com tudo que o cerca é sempre duvidoso. Ao mesmo tempo, sua sinceridade é gritante, como, por exemplo, quando deixa claro que não tem um mínimo de pesar por Quincas Borba, e inclusive lhe tem nojo e desdém. Essa sinceridade sobre sua falsidade é o que pode confundir o leitor. Afinal, se Brás Cubas não tem vergonha de sua falta de caráter, por que mentiria sobre seus bons sentimentos? Qual é a verdade? Se o personagem é mentiroso, podemos partir do princípio que tudo pode ser mentira, e, lembrando que o romance foi escrito para o leitor, e que a narrativa não passa de um livro (o que Cubas sempre nos relembra, colocando-nos no papel de leitores e não de testemunhas de sua vida), bem... Então toda a arquitetura do livro de Machado de Assis se torna uma construção da qual não podemos nos esquecer.

O que estamos lendo não é apenas a vida de Brás Cubas, é um livro escrito por Brás Cubas sobre sua vida. É a sua autobiografia, é só o que ele quer que saibamos. E toda a chacota e o sarcasmo empregados por ele são parte de seu plano para escrever um livro (quantas vezes ele se dirige ao leitor, e só por chamá-lo assim já se isenta da responsabilidade de ser “real”?). Inúmeros capítulos são dedicados exclusivamente a falar sobre o próprio livro. E se temos um livro que fala sobre si mesmo, então temos metaliteratura. A tendência que o leitor normalmente tem é a de prestar atenção na história, querer saber o que houve, como, quando por quê. Aqui, a verdadeira história está escondida: é um morto escrevendo um livro.

O ritmo da escrita permanece semelhante e em um tom sem grandes reviravoltas até o fim. Mas podemos nos perguntar de que vale a vida de Brás Cubas, quando ele mesmo parece não dar valor a sua vida. A frase final da obra define o espírito do herói brasileiro. Um herói que nem ao menos a si mesmo admira e que confessa que sua vida é miserável, incluindo na afirmação uma miséria geral, coletiva e que faz parte de um povo e uma cultura que, mais de um século depois, continua a se reconhecer em seus defeitos e falta de caráter. A atemporalidade, neste caso, nem sempre é benéfica.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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