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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Sunset Park, de Paul Auster: a construção de um mundo indireto

Se pensarmos que ao ler um romance estamos mergulhando na vida dos personagens, e diretamente em contato com eles, então Sunset Park, de Paul Auster, é a negação dessa relação.


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Se pensarmos que ao ler um romance estamos mergulhando na vida dos personagens, e diretamente em contato com eles, então Sunset Park, de Paul Auster, é a negação dessa relação. Nesta obra, é como se estivéssemos na sala de estar ouvindo alguém nos contar uma história. Mas não é assim no romance tradicional? Não quando o narrador é uma "pessoa" que, apenas através de sua voz, nos leva até os personagens, que falam entre si, com eles mesmos, pensam e tomam atitudes separados pela "tela" da fala desse narrador personificado. Nada nos é dito diretamente. Tudo passa pelo narrador, tudo tem um filtro, uma janela. Nossa relação como leitores é com quem nos conta a história, e não com os supostos protagonistas dessa história.

A diferença é sutil. No romance tradicional, temos o narrador (que pode ser onisciente) nos entregando um mundo novo. Em Sunset Park, esse narrador é o próprio mundo, pois ele não permite que essa realidade exista sem sua presença. É a personificação de um amigo que nos conta sobre o que vê em vez de nos deixar ver por nós mesmos. A obra reúne algumas características do romance contemporâneo, porém sem partir para o nonsense ou a comunicação do leitor de forma "ausente", em que este tenha que desvendar diversas intenções "por baixo" da narrativa. Existe uma ambientação que, mesmo mantendo uma proximidade com o leitor, consegue criar atalhos, truques e manejos, algo familiar nos romances atuais.

O autor, logo no início, cria um tipo de narrativa "em degraus", onde é apresentada uma ideia, um personagem e o início de sua trajetória. Mas logo vemos que esse argumento inicial (que pode voltar mais tarde), serve de gancho para que a narrativa se ramifique e outra história seja gerada a partir da primeira, que passa a ser deixada de lado. Isso é feito de forma fluente e natural nos primeiros capítulos.

Essa "escada" criada por Auster, que de início é formada de uma maneira linear, onde uma ideia vai se transformando em outra, assume um formato "oficial" à medida em que os capítulos mudam e Miles (o suposto protagonista) se muda para Nova York, para uma casa no Sunset Park. A partir desse momento, os capítulos se dividem contando cada um a história de cada personagem, em um crescendo que insinua que essas histórias vão se encontrar. A técnica de não iniciar a obra com essa separação facilita a leitura e a empatia do leitor, pois este não é interrompido em sua leitura logo de início. Quando as separações por capítulo começam, a leitura já está em andamento e o leitor já está conquistado. Paul Auster é um autor que frequentemente fala sobre Nova York através de seus personagens. Fica a sensação de que há uma dualidade: os personagens são a cidade, que por sua vez compõe os personagens.

O narrador desta obra é um ser "íntimo" da cidade e de cada uma das pessoas sobre a qual fala, em um nível de onisciência em que parece haver uma certa amizade entre o leitor e quem ele descreve.

O tom é de intimidade profunda, ao ponto em que, com o decorrer da leitura, muitas vezes o narrador se torna protagonista (em vez dos personagens), tal é a maneira em que a proximidade entre os sentimentos de cada um é revelada. Ao abdicar de falas na obra (em sua maior parte), o autor faz com que o narrador fale pelos personagens e faz com que possamos escutar cada um sem que eles tenham pronunciado informações sobre suas personalidades e sentimentos.

Temos a sensação de que o nosso "amigo" é o narrador, e este, por sua vez, é "amigo" dos personagens. Nossa relação mais íntima, portanto, é com esse narrador que nos pega pela mão para visualizarmos paisagens urbanas e humanas. Esse mecanismo pode, em um primeiro momento, tornar a relação do leitor com a obra um pouco "fria", caso haja a expectativa de se encontrar com a tradição, onde os sentimentos dos personagens não são "de segunda mão", e sim diretos e à flor da pele. Uma vez que estejamos situados no quebra-cabeças de Auster, a profundidade e qualidade humana de sua obra terminam por se revelar, muitas vezes, de uma intensidade inesperada.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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