yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

2666, de Bolaño. Livro 1: A parte dos críticos

Como a exposição aos momentos de "nada" da vida molda o mundo interior humano.


1.jpg

Parece-me no mínimo irônico que em nenhum texto que li sobre a obra 2666, de Roberto Bolaño, jamais foram mencionados os nomes de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares como uma influência, semelhança de estilos ou ao menos qualquer tipo de parentesco literário. Não tarda mais do que algumas páginas para que os dois escritores argentinos me venham à mente, principalmente Bioy Casares, que possuía um estilo mais limpo, menos rebuscado e menos matemático do que Borges, características que encontro com facilidade nesta primeira parte de 2666.

A familiaridade entre Bolaño e os autores mencionados também surge uma vez que a proposta inicial de enredo, detalhista ao extremo, parece se desenvolver de forma rápida, e cada detalhe, por sua vez, sugere um ponto importante a ser guardado para futuro acesso à medida que vamos descobrindo mais e mais sobre os personagens e o que lhes ocorre.

Após algum tempo, porém, quando o nível de detalhes, pensamentos, pequenos atos e comentários toma uma proporção da qual certamente não conseguiremos mais nos lembrar, tal é o número de informações, começa a surgir o tal estranhamento (também sempre presente em Bioy Casares).

No caso de Roberto Bolaño - que não é considerado um escritor clássico de literatura fantástica (ao passo que Bioy Casares o é) - o estranhamento me parece surgir justamente de um hiper-realismo usado de forma tão extrema que passa a soar irreal. Surge uma sensação de que "algo está errado, "algo está estranho", pois cada detalhe parece ser importante, decisivo até, em relação ao que está por vir. A questão é que o tempo vai passando, as páginas vão se somando, a quantidade de detalhes da classe "tenho que me lembrar disto" toma uma proporção em que já não é possível guardar todas essas informações, e nada no enredo parece levar a algum lugar que justifique os detalhes que vêm sendo apresentados ao leitor.

Sempre ao ler Bioy Casares tenho a sensação de que não consigo perceber exatamente em que palavra ou passagem surgiu o tal estranhamento. No caso de Bolaño, esse processo - também misterioso - parece estar no detalhe adicional, e, consequentemente, na somatória de detalhes adicionais. Somatória essa, que com o passar das páginas torna-se uma verdadeira montanha de detalhes adicionais, o que, por sua vez, dita o tom da narrativa.

O que são esses detalhes que chamo de adicionais? Na vida cotidiana, quando falamos com alguém, pensamos em voz alta, contamos histórias, temos a tendência a verbalizar "o que é relevante" e omitir aquele pensamento a mais que tivemos mas que "talvez não valha a pena falar". As obras artísticas, livros, cinema, teatro, de forma geral apresentam ao espectador o que "importa", omitindo o "supérfluo". Nossa relação com a arte, de forma conhecida, parece ser essa. Assim, quando certos detalhes começam a surgir na obra de Bolaño, nosso instinto é catalogar a passagem em nossas mentes como sendo algo a ser levado em conta, pois aquilo deve voltar no enredo com algum significado extra.

A questão aqui é que esses detalhes adicionais nada mais são do que "a vida como ela é" dentro da mente humana. Bolaño expõe aquele pensamento a mais, aquele detalhe a mais, aquela passagem a mais que não estamos acostumados a conhecer. Nossa expectativa é de que, por parecer "estranho", aquilo é importante. E não é que não seja, apenas não o é da forma que esperamos instintivamente. A real importância da exposição desses detalhes é a exposição de como a vida funciona na maior parte do tempo: pensamos coisas que podem ou não fazer sentido, podem ou não ter um segundo significado, podem ou não voltar para nos atormentar. Mas na maioria das vezes não possuem outro significado, não voltarão e não nos atormentarão. É como um fluxo de consciência pontual: só aquela frase no final do parágrafo; só aquele detalhe após sabermos o que aconteceu com alguém; só aquela lembrança de algo que na verdade não tem nada a ver com o que estávamos pensando.

Nosso instinto é a expectativa. Mas isso é porque estamos acostumados a ler coisas "importantes" para o enredo. Aqui, esse hiper-realismo é importante para vivenciarmos o que nos acontece 99% do tempo na vida: nada.

Essa característica, porém, não significa que se os detalhes não têm importância no enredo então também não têm importância para a obra. Assim como na vida, o tempo em que o "nada" acontece é definitivo para os momentos determinantes. Também isso é verdade na obra de Bolaño: a intimidade dos personagens e o interior de suas vidas só nos são dados a conhecer por essa exposição do "nada" de suas mentes, para que quando o tradicional "algo" acontecer, saibamos quem essas pessoas são, assim como uma amizade de muitos anos nos é muito mais familiar e íntima por termos passando anos e anos de "nada" junto àquela pessoa.

O tempo em que "nada" nos acontece determina quem somos nos momentos de virada de nossas vidas, e assim também é a obra de Roberto Bolaño, principalmente se levarmos em conta que esta primeira parte é apenas uma introdução de uma obra épica moderna, em que a intimidade com os personagens fará toda a diferença.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Julian Barg