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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

2666, de Bolaño. Livro 3: A parte de Fate

A parte de Fate não é apenas uma ponte, mas sim muitas pontes. Que levam, trazem e transformam mundos.


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A terceira parte de 2666, romance épico moderno de Roberto Bolaño, parece ser o mais enigmático e misterioso capítulo até agora. Ao mesmo tempo em que parece vir de lugar nenhum e não ir a lugar algum, quando visto e analisado mais de perto, pode ser um trecho de muitas revelações posteriores. A parte de Fate é uma ponte, talvez muitas pontes.

O enredo (que enredo? há um enredo? qual dos enredos?) se foca em Fate, um jornalista negro americano que vai ao México assistir uma luta de boxe para escrever uma reportagem. Talvez isso pouco importe. Digo talvez porque não se sabe. Ainda. O fato é que as várias pontes vão surgindo e ligando partes a outras partes, personagens a outros personagens, tempos de outros enredos entre si, e, mais do que qualquer outra coisa, estilos literários e propostas de escrita que se fundem.

Em um primeiro momento as piadas veladas dos dois primeiros capítulos estão lá novamente. Bolaño escolhe não radicalizar imediatamente ao começar o livro 3. Mas quando tudo parece normal, calmo e seguro, parecido com os capítulos anteriores, o autor cria uma espécie de fade out/fade in em que a obra se transforma. Diferentemente dos personagens que o livro prioriza até então, Fate é um americano, negro e que é descrito de forma mais distanciada do que estávamos sentindo até então. Não só a obra adotou um personagem de uma nova nacionalidade, como a escrita também flerta (talvez mais do que só flerta) com a literatura americana. Bolaño não descreve Fate do ponto de vista de um chileno, um espanhol, um mexicano ou algum latino-americano: a narrativa se volta estadounidense, com um sotaque muito próximo a escritores como Cormac McCarthy, Don DeLillo e até mesmo John Fante.

Se até então tínhamos um nonsense latino, agora temos um nonsense bastante anglo-saxão. Acabaram-se as piadas, começou a aridez. Afinal, Fate não apenas deve ser descrito, mas também sentido do ponto de vista dele mesmo, que é um olhar americano. Mas, como um jogo de espelhos (afinal Fate está no México), as impressões vão e voltam, não só ao estilo de filmes de Robert Rodriguez (um latino que na verdade é muito americano, e que Bolaño faz questão de inserir na história) e de David Lynch (um americano que parece ter como um de seus objetivos confundir o espectador : Lynch gosta de afirmar que se cada pessoa tiver uma explicação diferente para cada um de seus filmes, cada uma das pessoas está certa, e, assim, está provado que todos entenderam o filme). David Lynch também está inserido no enredo, em conversas entre os personagens.

As pontes são muitas:

- A ponte do enredo nos leva até Fate também para reencontrar Rosa Amalfitano, filha de Óscar Amalfitano, o personagem que enlouquece na parte 2, e com o qual Fate conversa quando Óscar já está em estado de loucura quase completa. Fate vivencia um pouco do que Rosa vive em sua casa enquanto seu pai pendura um livro no varal. A incrível técnica de nos mostrar o que acontecia naquela parte que ainda nos lembramos e que já nos foi contada, porém sob outro ângulo. Similar aos filmes Magnólia, de Paul Thomas Anderson e Cidade dos Sonhos, do próprio David Lynch: tempos e espaços se sobrepõem.

- A ponte que atravessa as fronteiras, em um mundo "TexMex", onde a visão árida de um mundo anglo-saxão se mescla com fatos aparentemente mágicos e cheios de mistérios dos povos mais quentes abaixo da linha que divide os países e as identidades. Aqui vamos encontrar diferentes tipos de lógica vindo de diferentes personagens, quase como em um tratado que mostra empiricamente a natureza distinta de cada um de nós, de cada região, de cada ser humano até mesmo em sua singularidade, que ultrapassa e vai além de sua origem. A ponte pode ser complexa ao incluir diferenças por todos e quaisquer motivos.

- A ponte que nos leva de uma narrativa que até então se caracterizava pelas ironias e piadas escondidas típicas de Borges e seus discípulos para uma existência em que o absurdo não é mais engraçado, mas quase um "desespero do nada". Um desespero ao vivenciar que nada acontece ao mesmo tempo que tudo acontece. O desespero de seguir um enredo que parece apresentar tantos detalhes que ao mesmo tempo não desembocam em uma conclusão ou uma tensão narrativa que nos pareça levar a algum lugar "resolvido". A resolução aqui não é o destino final, assim como a literatura muitas vezes nos mostra: a vida caminha, coisas acontecem, mas não chegamos a um lugar calmo, seguro, concluído, que nos dê um alívio. Se a literatura no passado tinha (também) a função de nos entreter e acalmar perante uma vida que não podemos prever, em 2666 o intuito parece ser esse mesmo: as coisas acontecem, o tempo passa, muitas coisas não fazem sentido e na maioria das vezes não sabemos (e não saberemos) os porquês.

Se a vida é difícil, misteriosa e insegura, é isso que esta literatura vai nos mostrar.

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2666, de Bolaño. Livro 1: A parte dos críticos

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2666, de Bolaño. Livro 2: A parte de Amalfitano


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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