yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

2666, de Bolaño. Livro 4: A parte dos crimes

A banalização da vida como tragédia é também a maneira que o ser humano tem de sobreviver.


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Em A parte dos crimes, Roberto Bolaño chegou ao que poderia ser considerado o limite de ousadia até agora em sua obra 2666. São cerca de 260 páginas falando aleatoriamente sobre assassinatos de mulheres em seus mínimos detalhes. Seguindo a relação leitor-obra que se formou até então no livro, nunca se pode esperar o tradicional desta obra. Não só seria equivocado ter esperança de que algo será solucionado no enredo, mas também isto seria como pegar uma rua sem saída na leitura do romance. Um escape em busca de esperança de uma conclusão que nunca virá.

Como nos três "livros" anteriores do romance, este também é a imagem de um processo e não de um começo, seu desenvolvimento e um fim. E logo no começo do capítulo pode-se perceber que as chances de haver uma conexão entre os crimes, um fio condutor em forma de literatura policial, é nula. As descrições de mortes são extremamente detalhadas, dando a sensação de que cada uma tem sua importância à medida que cada vítima é identificada por seu nome completo, seguido de nomes completos de policiais, políticos, famílias das vítimas, amigos e todo tipo de personagens que surgem para preencher (na maioria das vezes) apenas uma pequena lacuna que não voltará a se abrir.

Mas Bolaño leva a experiência ao extremo ao dedicar todas as páginas do capítulo a essas descrições, em um processo que, de perto e a princípio, parece ter alguma importância. Logo com a somatória de mortes, ou o empilhamento de cadáveres, é como se uma câmera que focalizava a vida de uma formiga em seu formigueiro se afastasse e mostrasse o conjunto todo. E é aí que ocorre o fenômeno humano: a vida é um conjunto de fragmentos de infinitas pequenas vidas que no conjunto parecem não valer nada (os casos são quase sempre arquivados e que venha o próximo assassinato).

A vida não vale nada, portanto? A experiência de ler esta parte pode ter, entre muitas, duas visões principais que são expostas.

Por um lado, essas mulheres mortas, os assassinos, que não seguem um padrão (pois não só a vida parece ser aleatória, mas a morte e os assassinos também), são pedaços, recortes de um tempo que segue em frente não esperando por ninguém. Aos poucos, nem as pessoas, nem as mortes valem nada, mostrando que a vida só tem a importância que cada um de nós permite que tenha. Mas para o mundo, para o conjunto de todos nós, para a existência em si, cada um de nós é tão insignificante quanto cada uma daquelas mulheres, cada um dos assassinos (sim, porque se as mortes não têm valor, os assassinos também não).

Por outro lado, essa também é nossa realidade. O que percebemos enquanto leitores de Bolaño é que na vida cotidiana o mesmo se repete. Somos inundados por tragédias diárias e não nos abalamos. E isso vai muito além da crítica da banalização do mundo. Isso mostra que se não fôssemos uma espécie insensível a qualquer coisa que nos é apenas meramente distante, não sobreviveríamos. Não teríamos como aguentar a existência se sofrêssemos por cada pequena ou grande tragédia que nos cerca. Nesse sentido, Bolaño nos mostra os dois lados da moeda: se podemos dizer que o mundo está banalizado, isso também significa que é por essa razão que conseguimos sobreviver. Nossa proteção é sermos banais com quase tudo que não nos envolve.

Se cada policial deste livro fosse impactado por cada uma das mortes, em breve não teríamos mais policiais, nem famílias, nem ninguém. Ou seja: a banalização é um dispositivo de sobrevivência do ser humano, uma maneira para que possamos seguir em frente. E por mais que queiramos criticar "os outros" por pouco se importarem conosco, é mais do que claro que nós tampouco somos capazes de nos importar demasiadamente com tudo o que nos cerca. Nesse sentido, A parte dos crimes não é apenas a descrição da banalização (é também) mas um espelho de nós mesmos, da natureza humana: se o problema não chega perto de nós, do que nos inclui, o mais provável é que deixemos isso passar e toquemos nossas vidas adiante. Quando a tragédia nos inclui surge a revolta. A revolta não só pelo fato em si, mas a sensação de abandono que sentimos em relação aos outros, sensação essa que nós também ajudamos a criar cada vez que uma tragédia acontece e não nos envolvemos, afinal precisamos viver.

Independentemente da visão ou do impacto que esta parte da obra nos cause, duas coisas estão claras: todo o processo descrito nada mais é do que o espelho da natureza humana e de como escolhemos o que nos é mais seguro para mantermos nossa sanidade; a vida de cada indivíduo é um fragmento que do ponto de vista universal parece não ter sentido a não ser o sentido que cada um de nós consegue atribuir.

A vida é feita de recortes.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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