yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

2666, de Bolaño. Livro 5: A parte de Archimboldi

O último capítulo da obra de Bolaño fecha com maestria a realidade da vida: somos todos únicos, mas também ridículos e imperfeitos.


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Na parte final de 2666, Roberto Bolaño fecha a obra em uma espécie de espelho que dialoga com o capítulo inicial, "A parte dos críticos". Esta última parte se inicia quase que lentamente, em uma história que, de início, se apresenta mais linear, causando um estranhamento no leitor ao contrastar com o nonsense calculado que Bolaño vinha apresentando até então.

O início da quinta e última divisão da obra é lento e até mesmo mais árido do que as narrativas de influência Borgeana às que já tínhamos nos acostumado durante as quase 600 páginas anteriores. O narrador nos conta sobre Hans Reiter, um alemão envolvido na guerra, e isso se segue por um longo tempo, através do qual nos perguntamos se de fato Archimboldi irá surgir, como o título do capítulo sugere. Quando descobrimos quem é Archimboldi, há quase um alívio audível no ambiente, pois esperamos algum tipo de fechamento, ou pelo menos uma conexão com o enredo (ou enredos) que o autor nos apresentou até então.

Apesar de Bolaño desviar em afluentes da narrativa desde o início do capítulo, o "ataque" dos desvios são mais amenos do aqueles aos quais estávamos acostumados, talvez sugerindo uma conexão direta entre esses desvios de foco e o foco principal, Hans Reiter. À medida que o texto vai se desenvolvendo, percebemos que Bolaño escreve histórias que estão dentro de histórias: a narrativa dentro da narrativa, em um caleidoscópio que nos permite - assim como na primeira parte do livro - vislumbrar melhor o personagem principal através do mundo que o cerca e do aprofundamento dos detalhes desses mundos paralelos. Esta seria talvez a conexão mais detectável (ou a primeira) com "A parte dos críticos": o contato com a essência da vida de um personagem através dos detalhes ao seu redor, mas que a olho nu parecem dispensáveis. É a criação de uma ambientação.

Uma vez que o leitor descobre quem é Archimboldi, como ele surgiu, como é sua vida e para onde ele vai (ou nunca vai), a narrativa volta a tomar formas borgeanas, que, desta vez, apesar de mais espaçada, quando surge, o faz de forma intensa e seguindo a lógica da "bifurcação" (algo que dá lugar a algo que dá lugar a algo que dá lugar a algo, e assim por diante), quase em um fluxo de consciência, mas um pouco controlado demais para fazer parte desse gênero literário. Temos a sensação de que o fluxo não age por si só, mas, antes de tudo, está sob controle do narrador. Esse controle intenso pode soar como uma manipulação do leitor, que por sua vez muitas vezes se sente levado para longe do foco principal. Nesse momento, através da estranheza, Bolaño consegue colocar em perspectiva quem é Hans Reiter (e Archimboldi), através de caminhos tortuosos e aparentemente distantes. A grande dose de humor (às vezes negro, às vezes absurdo) do texto nos faz questionar a autenticidade e a profundidade das personalidades envolvidas no enredo. Ou pode ser apenas uma piada de Bolaño, convenhamos.

O fato é que, piada ou não, essas ridicularizações do humano não são em vão, principalmente se novamente observarmos o diálogo d"A parte de Archimboldi" com "A parte dos críticos" (a que abre a obra). Ambas giram em torno do escritor Benno von Archimboldi, a primeira focando nos críticos que estudam sua obra e são obcecados por descobrir mais sobre sua vida, e a segunda sobre o próprio escritor, suas conexões e sua personalidade. Através do que poderíamos considerar "as piadas de Bolaño", o autor desmistifica dois tipos bastante respeitados e admirados por seu status larger than life: os artistas autores e os especialistas.

Se observarmos como as narrativas das duas partes se desenvolvem, podemos perceber que Bolaño vai desconstruindo essa imagem "maior do que a vida" que esses indivíduos possuem. Tanto os críticos quanto Archimboldi não passam de pessoas comuns (como todas as pessoas do mundo são) e enquanto os demais os estão admirando (e enquanto os críticos estão idolatrando Archimboldi), tanto eles quanto Archimboldi estão vivendo vidas normais.

E mais do que qualquer outra coisa, vidas com momentos ridículos e risíveis e cheios de falhas e detalhes infelizes, assim como todos nós. As piadas de Bolaño podem ser uma espécie de lupa que mostra as imperfeições dos tipos considerados mais perfeitos pela nossa sociedade. Nenhuma piada é em vão. Talvez elas sejam engraçadas, talvez provoquem tédio. Mas, em ambos os casos, a graça ou o tédio estão direcionados ao humano, em uma forma de acusação em que Bolaño quase verbaliza: "Somos todos imperfeitos e ridículos também, até mesmo eu, autor estudado por especialistas."


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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