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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Funny Girl, de Nick Hornby: A série dentro da série

Se querem séries, isso é o que lhes daremos.


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Em Funny Girl, seu sétimo romance, Nick Hornby mantém seu estilo habitual de conduzir o leitor por uma narrativa quase naif, em que a escrita á habilmente criada de forma a se aproximar do invisível em favor do enredo. Mas isso vai se revelando uma ilusão à medida que a história se desenvolve, pois aos poucos, a diferença entre “uma historinha” que poderia estar em qualquer outro livro amador e a história de Hornby começa a tomar forma.

As temáticas de Hornby tendem a ter como suporte o dia a dia das pessoas em variadas realidades, e sua maneira de introduzir o assunto é sempre suave e sem grandes epifanias: o estilo do autor não comporta choques e até parece militar contra estes, costurando entre frases ideias que lentamente se introduzem no enredo. Com o passar do tempo (e da leitura) começamos a perceber que a profundidade das questões humanas está ali para ser descoberta, uma vez que Hornby nunca faz questão de chocar o leitor com uma revelação. E se esta ocorrer, ocorrerá em harmonia com a suposta invisibilidade de sua narrativa.

Funny Girl, porém, contém uma particularidade coerente com sua temática e e é habilmente manejada por Hornby: o tema do livro é Barbara (ou Sophie), e sua realidade, principalmente no que diz respeito a sua carreira e à vida pessoal que se transforma a partir dela. Mais tarde, temos Sophie e os outros personagens bem mais velhos, em uma clara reflexão do autor sobre o passar do tempo e como isso afeta o emocional dos personagens. A particularidade (e o catch propriamente dito) é que o livro é sobre uma série de TV, mas sobre a qual ficamos sabendo pouca coisa, com o foco nos detalhes marcantes que estão ligados ao dia a dia da atriz. E essa “pegadinha invisível” de Nick Hornby é que, ao mesmo tempo em que estamos lendo sobre uma série de TV, a verdadeira história (o livro Funny Girl em nossas mãos) está escrito em forma de série de TV, no qual, por sua vez, a história desta série é a vida de Sophie.

Temos então a história dentro da história e um formato dentro de um formato. Pensamos que estamos lendo sobre Sophie e a série televisiva, quando na verdade, a série é a história que conta sobre a história. E essa narrativa sobre a série está em formato de série por si só, em que capítulos são quase inteiramente feitos de diálogos curtos, com deixas para a próxima frase, com piadinhas leves ou ironias entrando no texto em seu devido tempo e apenas às vezes um texto explicativo sobre a situação, quase como uma voz em off, exatamente como uma série vintage é apresentada ao espectador.

E esta série (a verdadeira, a do livro) se estende além da série Barbara (e Jim) pois a série do livro inclui mas não se limita à série do enredo. E quase como um posfácio (ou último capítulo da última temporada) temos Sophie e seus companheiros décadas depois em uma clara demonstração de que a série (do livro) deve acompanhar seus personagens até o fim.

Em uma era em que séries de TV estão dominando o mercado e a preferência dos espectadores, em que se questiona o futuro dos longa metragens como protagonistas do mercado – e ainda o papel da literatura (como sempre) – Nick Hornby mostra que tudo pode ser contornado e que linguagens podem ser tomadas de empréstimo e nunca é impossível se transformar, se renovar.

Se querem séries, isso é o que lhes daremos.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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