yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Músico e leitor desde sempre; compositor, licenciado em Letras e mestre em Literatura, posteriormente

A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói: uma obra sobre a vida

Fala-se em dor, muita dor.


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Como Paulo Rónai explica no posfácio da novela A morte de Ivan Ilitch publicada pela Editora 34, a diferença entre uma novela e um romance está na concentração do tema em um único ponto (na novela) em contraste com vários pontos no enredo (no romance). Mas assim como outras definições de romance, novela, conto, poesia, etc., essa definição mais serve para fazer com que o leitor se sinta seguro, “sabendo” o que está lendo. A questão não é tão simples e tão delimitada assim.

Por alguns momentos, é verdade, sente-se que o foco do texto de Tolstói é o processo da morte do protagonista. E quem não conseguir tirar os olhos dessa morte se sentirá satisfeito com a descrição desse processo. Mas é bastante arriscado afirmar que este é o ponto único, ou até mesmo principal do texto. O fato é que os limites de gênero literário são um assunto inesgotável embora muitos tenham definições que parecem absolutas.

Em um primeiro momento, o que nos é apresentado é o medo da morte, porém não o do protagonista, pois este já havia morrido, e sim das pessoas que o cercavam, todas aliviadas por não terem sido elas a morrer. Juntamente com isso, o autor se foca quase que exclusivamente no lado mesquinho do ser humano, um relato cheio de desdenho pelas pessoas, em que a voz do autor se confunde com o narrador de forma bastante intensa, lembrando críticas jornalísticas de opinião parcial, nas quais fica mais em evidência a opinião do escritor do que a verdade do objeto (ou personagem) sendo descrito. É importante ter em mente que o tema é uma escolha, um ponto de vista exposto em detrimento de outros.

Isso pode, sim, ser considerado um foco escolhido e que, por se manter assim, torna a novela “mais novela”. Mas esse aspecto redutivo não está presente de forma tão firme no texto. Em uma leitura menos “clássica” e mais despojada, ou livre, ou permissiva, pode-se (e talvez deva-se) pensar no papel do leitor, coisa que apenas há relativamente pouco tempo começou a ser levada em conta.

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Quando a narrativa volta no tempo para a época em que Ivan Ilitch começava sua vida social e profissional, o trajeto deste desde então até sua morte pode ser lido de várias formas (e seguramente muitas mais do que posso mencionar aqui), saindo da concepção de foco único. Afinal, já que sabemos que Ivan Ilitch não era exatamente feliz, não possuía uma integridade real em seu trabalho, em suas relações, em sua moral e princípios consigo mesmo, qual é a função dessa informação a partir do momento que sua doença aflora?

A princípio, tais características parecem servir ao argumento de sua epifania sobre a vida que vinha levando. Esse argumento é o que está mais em evidência, sobre o qual se fala abertamente através do texto, servindo como o ponto inicial que leva o enredo a todos os outros lugares. Porém há mais a se perguntar nesse caso, pois seria essa falta de verdade em sua atitude perante a vida não apenas o motivo de seu arrependimento, mas acima de tudo a causa de seu mal? A descrição de sua possível doença é mantida quase em uma invisibilidade. Fala-se em dor, muita dor. Que dor é essa? A dor da doença física? A dor do arrependimento? A dor de ter suportado a infelicidade? A dor de não ser verdadeiro e íntegro? Ivan Ilitch morreu de uma doença que existiu (ou existiria independente) da vida que levou até então? Ou morreu porque viveu uma vida que ele mesmo intuía não ser a que deveria levar, que o fez ser a pessoa que não deveria ser?

Ao mesmo tempo em que o foco, sim, é a morte de Ivan Ilitch, a pergunta (ou perguntas) sugerida subliminarmente pelo autor não passa por aí, ou se sim, apenas encosta nisso. Por baixo do tal “foco principal” existe uma infinidade de perguntas de fundo humano, moral, ético que estão à disposição para quem queira perceber que o tal foco é um esconderijo, uma porta escondida onde estão guardadas as verdadeiras questões por trás da morte – e sobretudo da vida – de Ivan Ilitch.

Como todo grande romance (ou novela, ou conto), as camadas é que transformam a narrativa em narrativas, a pergunta em perguntas, as verdades ou a mentiras em dúvida. A morte de Ilitch é a porta da frente, para a qual podemos ficar olhando ou para onde podemos nos dirigir e entrar no que se esconde dentro das frases, por entre as linhas, talvez invisível nos fatos ou ações do enredo, mas de existência inegável na sensação e no questionamento humanos que surgem a partir do texto.

A morte do personagem é ao mesmo tempo o ponto inicial e também o ponto final para o verdadeiro livro que existe entre esses dois momentos.


Julian Barg

Músico e leitor desde sempre; compositor, licenciado em Letras e mestre em Literatura, posteriormente.
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