yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Cidade em chamas, de G. R. Hallberg. Você está lendo ar; atmosfera

O que sobrevive na cidade que está em chamas são as sensações, estes seres vivos que nenhuma chama ousa queimar.


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Na Nova York do fim dos anos 70, viajando um pouco para o passado quando necessário, o clima da época transborda pelas linhas das mais de 1000 páginas de Cidade em chamas. Existem os personagens, as tramas, os amores, os ódios, as traições e todo um enredo que teria tudo para ser dominante ao longo do tempo em que passamos ao lado dessa obra de Garth Risk Hallberg. O que domina nossa mente, porém, é o ar.

Sim, o ar que emana de cada uma das esquinas da metrópole que ainda estava por conhecer os anos 80 e o início da popularização da tecnologia, em que o plástico e o hairspray seriam mais importantes do que os jeans, as jaquetas de couro e os alfinetes nos rostos dos punks que circulavam perto de St. Mark’s Place, CBGB’s e todo o ambiente que cozinhava na época.

Em Cidade em chamas os mundos se mesclam. Há os punks, os que querem ser punks, os que se acham punks. Há os milionários, os pobres sem grandes perspectivas, os drogados, tanto os das ruas como os internados. Há os mais livres e os mais encarcerados em suas existências. Há amores destrutivos e construtivos, há estupros, há mentiras.

Ao longo de mais de uma década, começando nos anos 60, com seu núcleo de desenvolvimento do enredo em 1976 e 77 e eventualmente pulando para quase 40 anos depois, os personagens da obra de Hallberg teriam tudo para conquistar o leitor, principalmente em um livro monumental e longo como este. Mas isso não acontece da forma como esperaríamos.

Se em um romance tradicional os personagens, as tramas e as conclusões são as peças que prendem o leitor, em Cidade em chamas é o resultado de todas essas coisas que o faz. À medida que as páginas vão virando, e virando, e virando, começamos a perceber que estamos presos no livro, mas talvez não presos no que seria mais óbvio – em quem fez o quê com quem, quem ama quem, quem odeia quem, quem roubou, quem é “bom”, “mau”, quem é vencedor ou perdedor. Nas páginas que nos acompanham, ou nas páginas das quais corremos atrás, tentando alcançá-las, o que nos amarra, nos arrasta (com nossa permissão) é o cheiro das ruas, a densidade do ar, a atmosfera e a ambiência dos lugares, das esquinas, dos interiores de cada personagem em cada exalação, em cada frase que emitem, em seus suspiros nas entrelinhas. É o espaço, a falta de espaço, as caminhadas, a correria, o desespero quieto do apagão em Manhattan.

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Garth Risk Hallberg consegue escrever um épico moderno que não depende de ações, não é escravo de conclusões ou explicações. Cidade em chamas é uma obra que não necessita sanar dúvidas ou esclarecer fatos. Linha após linha, o que exala do livro é a presença da cidade através de seus habitantes, de seus costumes e, claro, da história que o livro conta, porém sem a exigência de iniciar, desenvolver e finalizar nada, pois a vida não tem começo, meio e fim, tem a passagem do tempo. E Nova York, a mais imponente das metrópoles do ocidente em uma de suas épocas de metamorfose, não precisa dar explicações, apenas exalar seu aroma de busca por liberdade e identidade.

E é através da fumaça dessa cidade, vinda de cada canto, sendo absorvida por cada calçada, esquina, por cada um que habita (permanentemente, momentaneamente) nesse gigante, que as chamas vão tomando conta. E quando você menos espera, se um personagem fica pelo caminho ou se o acompanha até o fim, se um mistério se revela ou desaparece para não ser mencionado novamente, nada disso importa. Nada do que pode ser salvo pelas chamas importa. E o que sobrevive na cidade que está em chamas são as sensações, estes seres vivos que nenhuma chama ousa queimar.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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