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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Meia-noite e vinte, de Daniel Galera: uma narrativa da distração

São os tempos atuais: múltiplos, divergentes, aleatórios, pouco focados, bastante distraídos.


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Um dos nomes contemporâneos da literatura brasileira, Daniel Galera já tinha sido motivo de um de meus textos aqui, quando escrevi sobre o romance Barba ensopada de sangue. Agora, com a obra Meia-noite e vinte, volto a falar sobre sua produção.

Assim como em Barba..., Meia-noite e vinte coloca o leitor em contato com um mundo um tanto “autista”, em que as informações sobre os personagens são reveladas de um modo bastante parcial e misterioso, mas não como uma narrativa à qual falta “completar”, mas sim de uma forma “completamente pela metade”. E isso se transforma em um estilo que captura o leitor em uma rede de personalidades abstratas que ele mesmo terá de completar a seu modo. A habilidade de Galera está em jogar a favor da narrativa e do enredo através da contribuição que o leitor fará, inevitavelmente, ao ler o livro.

Não se sabe exatamente grande coisa sobre os personagens – nem se saberá – pois não é necessário. Talvez o que seja necessário aqui seja a experiência de viver ao lado deles e vivenciar cada mundo particular no que cada um escolhe revelar. A estrada não trilha um caminho só, o enredo não vai a um lugar culminante. São os subenredos de cada narrador que nos levam pela mão ao redor do tema central, a morte de Duque, um escritor que deixa seus companheiros em uma sombra de mistérios que se entrelaçam com cada uma das vidas dos amigos deixados para trás.

O leitor que espera (e exige) um caminho em que peças vão completando o que virá a se tornar uma imagem, um quebra-cabeças, uma resolução, irá se sentir desamparado ou irritado com o livro. A maneira como o enredo é desenvolvido reflete os tempos atuais: múltiplos, divergentes, aleatórios, pouco focados, bastante distraídos.

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O que inicialmente parece ser o tema central (a morte de Duque) logo se revela apenas um ponto de partida para que possamos conhecer a vida interior e o dia a dia de seus amigos, talvez os verdadeiros personagens, talvez o verdadeiro motivo do livro. Escondidos por trás de um suposto personagem principal estão os personagens "reais", existindo enquanto o leitor segue seu caminho pensando que todas as informações vindas desses “atores coadjuvantes” são apenas detalhes, quando, em realidade, a obra é a junção dessas pequenas partes.

Apesar dessa aparente fragmentação da narrativa, Meia-noite e vinte é bastante coerente com a narrativa da vida cotidiana que vivenciamos neste começo de século, onde um assunto leva a outro, que leva a outro e assim por diante. Se você começou a pesquisar uma coisa na internet, é possível – e muito provável – que no final de algumas horas tenha se desvirtuado e passado por vários outros assuntos que de alguma forma dialogam com o assunto inicial. Construído de uma maneira semelhante, o enredo da obra de Daniel Galera dá inúmeras voltas para retornar ao início (em alguns momentos), apenas flertar com o início (em outros) e nunca mais voltar a esse início (muitas vezes). Algo passa a ser outra coisa, que passa a ser outra coisa. O argumento inicial se manterá vivo, mas nem sempre como ponto principal da trama.

Muitos são os caminhos que serão traçados e até mesmo pode ser que o leitor se interesse mais por uma dessas “fugas” da estrada principal. Se encararmos o livro como uma experiência do dia a dia, ela nos será muito familiar, muito semelhante à vida que somos obrigados a levar em um tempo em que as distrações (ou as necessidades paralelas) nos são impostas a cada minuto, exigindo que cada um de nós escolha voltar ao caminho que vinha trilhando ou, por outro lado, faça a escolha de largar a vida que levava até então para encarar uma nova jornada.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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