yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

As vinhas da ira, de John Steinbeck: o pesadelo americano

Em As vinhas da ira o discurso é hábil, realista e cheio de emoção, mas também manipulador e duvidoso em suas intenções.


1.jpg

Considerado a obra prima de John Steinbeck, As vinhas da ira é um romance monumental que pode (e deve) ser lido de várias formas – melhor ainda se lido várias vezes.

Dona de um enredo relativamente simples, mas cuidadosamente trabalhada para não jogar palavras fora e manter-se focado em seu desenvolvimento, a obra conta a história do que foram os sem terra nos EUA nos anos 1930. Por conta disso, Steinbeck foi duramente criticado, acusado de comunista e de ser contra a política americana da época. E o autor foi criticado não só pela direita, mas também pela esquerda política, a qual o acusou de expor a situação dos migrantes de forma desrespeitosa e caricata. Mesmo com toda essa questão, o livro foi muito lido quando lançado e é considerado um dos grandes imortais da literatura americana até hoje.

O romance faz a relação ser humano-animais-terras para que o leitor perceba que a existência é uma só. A ligação do homem com sua terra é indivisível, a importância dos animais (aos quais muitas vezes lhes é dada a voz de protagonista), tudo isso funciona de forma a maximizar o mundo como um ”estado de espírito” em que essa relação tripla mencionada é, na verdade, uma relação só, o homem, a terra e os animais fazem parte de um único mundo. A passagem em que o avô se recusa a partir e deixar a terra em que vive é um exemplo claro dessa relação. Quando Casy diz, mais tarde, que sabia que o avô ia morrer, pois este sabia que ele e a terra eram uma coisa só, outro exemplo.

Em sua maior parte feito de uma narrativa realista, o romance também ousou em sua época, principalmente em capítulos nos quais o narrador possui a voz de todos os personagens sem indicação clara de mudança de voz, como se o tempo fosse o observador dos fatos e apenas repetisse o que vê e sente. Essa característica, hoje não estranha aos romances atuais, seguramente revela um autor que, pontualmente no romance, ousou na forma da narrativa.

2.jpg

Outro ponto a analisar é que esses momentos em que o narrador parece se transformar em um ser “vivo”, como o tempo, o ar, a ambiência ou até mesmo a existência, a técnica foi (e é) muito usada em alguns romances contemporâneos, como Deuses sem homens, de Hari Kunzru, em que o deserto é o narrador, aquele que observa. No caso de As vinhas da ira, é como se o mundo observasse o que se passa com os migrantes e relatasse o que acontece para o leitor. Isso no ano de 1939. Claro que no caso de Steinbeck, tal característica se dá apenas em alguns pequenos momentos, de forma a não descaracterizar a narrativa realista que domina a obra, e a tal “existência” que narra nesses pontos não é imparcial aos fatos, pois se posiciona a favor da proposta do livro, que é condenar a indústria que deixa os trabalhadores na miséria. Mas era o começo, a semente do que seria desenvolvido mais tarde por escritores do nosso tempo.

A religião e a religiosidade estão muito presentes na obra sob muitos pontos de vista. Em um primeiro momento temos a religião da forma mais tradicional e até mais assustadora, aquela da qual os migrantes têm medo, se culpam e se consideram pecadores constantemente, marcando os traços de certa submissão a um Deus considerado impiedoso. Mas muita dessa culpa parece vir da posição de inferioridade que os migrantes estão acostumados a assumir (e à qual foram submetidos).

Por outro lado, o ex-pregador Casy é um personagem bastante importante em relação a este assunto, uma vez que suas motivações para não mais pregar são quase sempre reflexões profundas não só sobre a posição e as responsabilidades do pregador na sociedade como, ao mesmo tempo, demonstram que os motivos pelos quais ele não quis mais essa função são de verdadeira nobreza religiosa e de valores humanos. Os próprios motivos para seu abandono da religião são valores dignos de um pregador nato, pois este parece ter se humanizado em sua essência ao ponto de achar que tais valores não estão de acordo com a posição de um homem religioso. Está aí um paradoxo: se essas conclusões fossem usadas em suas pregações, Casy seria um pregador muito mais verdadeiro e sincero. Então, que religião é essa que os migrantes vivenciam e abraçam?

A obra é também um grande exemplo de como um discurso humanizado e bem apresentado pode ser cativante. A narrativa é muito verdadeira, mas é também uma obra militante. Pode-se perceber (ou não, de acordo com o envolvimento do leitor com os personagens), que do lado dos migrantes não há sequer uma pessoa má, de má índole, mal intencionada e traiçoeira. Os fazendeiros que fazem parte de uma “população intermediária”, até tentam pagar mais aos trabalhadores, mas são obrigados a manter o preço o mais baixo possível para não serem eles mesmos prejudicados pelas grandes corporações. Já os grandes empresários (que não aparecem como indivíduos), são uma máquina de horror e desumanidade. Não há sequer uma referência a algum personagem que esteja no topo da pirâmide capitalista de forma a mostrar seu caráter, sempre insinuando que na verdade não há caráter algum.

Do ponto de vista do funcionamento da sociedade, não há problema algum com isso, porém, deve-se apenas notar que estamos lendo uma obra realista, mas essa obra é militante e totalmente parcial. É justo? Talvez. Existe a clara intenção de passar apenas um ponto de vista e denunciar as injustiças que ocorrem. Do ponto de vista humano, porém, ficamos sem informações suficientes sobre quem são os indivíduos ocultos que estão por trás das corporações. E isso, somado ao grau de sofrimento dos migrantes (que é genuíno) e ao qual nos apegamos pela força narrativa, nos faz tomar partido automaticamente, pois o sofrimento dessas pessoas é digno de compaixão e de algum tipo de solidariedade pelo mais frio dos leitores. Certo, mas isso é o poder da retórica.

Em um final atordoante e que reduz, finalmente, os seres humanos a animais, temos mais de 580 páginas de desgraças, uma após a outra, sem nenhum momento de felicidade ou possibilidade de melhora. É um autor americano colocando seu país em posição de fracasso, trocando o sonho americano pelo pesadelo americano. É também um autor hábil usando a emoção do leitor para engajá-lo em uma causa e um ponto de vista político, pois a cada fatalidade que ocorre e cada revolta que o leitor sente, não há quem culpar a não ser o sistema, afinal sempre é preciso culpar alguém e, nesta obra, não há nenhum trabalhador sequer que possa ser considerado mau caráter, ou na melhor das hipóteses, dono de uma personalidade desagradável.

Em As vinhas da ira o discurso é hábil, realista e cheio de emoção, mas também manipulador e duvidoso em suas intenções.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //Julian Barg