yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Trem noturno para Lisboa, de Pascal Mercier: o que é a busca humana?

Inicia-se uma busca. E uma busca de uma pessoa por outra é normalmente uma busca da pessoa em relação a si mesma, espelhada no outro.


2.jpg

O best-seller Trem noturno para Lisboa, de Pascal Mercier, tem vários motivos para assim o ser, desde a primeira página da obra, seguindo pelos capítulos seguintes e ao longo do desenvolvimento do enredo e da narrativa.

É na primeira página que o autor agarra o leitor e nas poucas seguintes que termina de prendê-lo e conseguir um aliado. Não há uma introdução propriamente dita, no sentido de “aclimatar” o ambiente para que o leitor saiba (ou sinta) onde está. O que acontece, diretamente, é que ficamos sabendo detalhes importantes da personalidade de Gregorius, o protagonista, logo de cara. E são detalhes que aguçam a curiosidade, além de fazer com que a sua “fuga” da sala de aula de onde foi professor por décadas pareça ainda mais misteriosa.

A questão de uma epifania em um personagem é sempre muito atraente, pois são poucas (ou nenhuma) as pessoas que pelo menos por um segundo em suas vidas não tiveram o ímpeto de jogar tudo para o alto e ser “outro”, começar do zero, rejeitar o que haviam escolhido e se transformar completamente. Existe uma jogada aqui que é, através de uma mulher (talvez um futuro caso de amor) que Gregorius parte para uma busca desenfreada, levando-o a descobrir um livro e desenvolver uma espécie de obsessão por seu autor.

Mesmo em momentos em que o protagonista lembra-se de outras épocas, ele o faz de “dentro” de sua mente, o que quer dizer que o autor não larga o osso: não inicia um novo capítulo situado em outro lugar e outro tempo. Esses outros lugares são acessados de dentro da mente do personagem no presente, o que faz com que o leitor se mantenha também no presente e também acessando outros tempos a partir de uma base sólida. Resultado: mais uma maneira de manter o leitor preso à narrativa principal, sem transportá-lo verdadeiramente e sem correr o risco de perdê-lo na leitura.

1.jpg

Inicia-se uma busca. E uma busca de uma pessoa por outra é normalmente, em casos aleatórios como esse, uma busca da pessoa em relação a si mesma, espelhada no outro. Esse tema já foi bastante desenvolvido na literatura, e posso citar aqui obras que têm essa estrutura de forma magistral como A trilogia de Nova York, O livro das ilusões e Leviathan, de Paul Auster, assim como Nove noites, Mongólia e O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho. Como podem ver, há escritores que têm verdadeira fixação pela “busca”.

Em termos estilísticos, a obra de Mercier anda em uma corda bamba entre manter o leitor atento (típico dos best-sellers) e cair para um drama um pouco exagerado. Na verdade, caminha na beira do precipício, pois em alguns momentos parece que vai desandar para uma novela televisiva, mas não o faz. O texto consegue não cruzar a linha e, consequentemente, não chega a cair no óbvio, apesar de passagens um pouco dramáticas que soam como uma descrição de peça de teatro ou até mesmo de um personagem interpretando outro, em uma espécie de “captura” do lado mais intenso e (talvez) apelativo que uma descrição pode ter. Mas essa manobra é feita com o cuidado de quem domina a escrita, portanto permanecemos em terreno seguro.

O que podemos perceber após um contato mais longo com a obra é que esta tem um ponto “fixo” no qual pretende focar-se, que é a busca de Gregorius (ou as várias buscas) e é para esse lugar que tudo parece apontar. Assim, a experiência racional do leitor está dirigida a esse tema, enquanto que a experiência emocional está mais fixada no vazio que o leva a esta busca.

A cada página que lemos, o que encontramos são principalmente perguntas. Gregorius se faz perguntas sem parar, seja sobre o que acontece ao seu redor, seja sobre ele mesmo, mas, principalmente, sobre o que ele sente. O personagem tem dúvidas constantes sobre quais são os seus sentimentos em relação à sua vida anterior, seu momento presente, e para onde ele está indo.

Se na superfície temos uma história de busca exterior e interior, na base sensorial da escrita há uma história subliminar, que é a história não contada de quem é Gregorius antes de tudo isso, afinal sua epifania começa na primeira página, mas tudo o que decorre dela é fruto de uma vida anterior que apenas podemos imaginar. E talvez devêssemos imaginar.

Do ponto de vista da estrutura do romance, temos um livro que se foca e é todo apoiado no enredo, até mesmo quebrando regras do realismo em prol da história. Um exemplo disso é a profundidade dos textos de Prado (o autor a quem o protagonista se fixou) lidos por Gregorius – em português, uma língua que ele mal conhece – e que seriam impossíveis de serem lidos corretamente – e muito menos com a literariedade com que estes chegam até nós através de Gregorius. O autor peca um pouco nesse quesito, pois essa situação simplesmente não é crível, não é possível de existir em uma obra realista. E seria possível resolver a questão de alguma outra forma, mas Mercier foi pelo caminho mais fácil, usando esse artifício como um atalho para que o enredo não corra o risco de ficar poluído por informações que não sirvam diretamente ao desenrolar da história.

Para um leitor que queira apenas saber dos fatos, isso funciona. Mas se queremos um livro mais coerente com a literatura em si, seguindo a lógica de uma estrutura mais bem elaborada, esse tipo de quebra deixa a desejar, afinal não seria algo difícil de resolver de forma mais coerente e criativa.

O momento mais surpreendente – para melhor e para pior, dependendo do tipo de leitor – é o final, onde várias motivações por trás da busca de Gregorius vêm à tona e pegam o leitor de surpresa, cabendo a ele decidir o que de fato motivou o protagonista e se essas motivações são válidas.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// //Julian Barg