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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

A leste do Éden, de John Steinbeck: o pesadelo de ser humano

Se em As vinhas da ira o pesadelo americano era político, em A leste do Éden John Steinbeck humaniza o sofrimento e o transforma em uma questão universal.


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Apesar de ter sido escrito mais de uma década após a obra-prima As vinhas da ira, o romance A leste do Éden se passa em um tempo anterior à Depressão dos anos 30 dos Estados Unidos. É também considerada uma “obra-irmã” da anterior, apesar de ter uma visão mais generacional e focada na natureza humana. Tampouco temos nesta obra a militância política que há em As vinhas da ira.

Do ponto de vista técnico/literário/analítico também pode ser considerado um romance realista, mas assim como As vinhas da ira, tem seus poréns. Neste caso, até o momento, a descrição dos acontecimentos é totalmente realista, mas o narrador vai se revelando primeiramente onisciente em terceira pessoa e às vezes em primeira pessoa, momentos em que se revela não só parte da árvore genealógica da família que está se formando no enredo, como em determinado momento, através de uma personagem futura (sua mãe), introduz a si mesmo na história de forma indireta para que o leitor saiba que ele fará parte dessa saga gerações à frente.

Steinbeck é um mestre da observação do humano, das nuances das personalidades. E principalmente do perfil sociopata (no caso de Cathy), o qual ele descreve fantasticamente, sem tropeçar uma única vez sequer, muito antes que isso virasse “uma doença de nossos tempos”, como é considerada hoje, o que prova que essa patologia sempre esteve com o ser humano, bastava a sensibilidade de percebê-la. E John Steinbeck sabe do que está falando.

Em um segundo momento – a parte central do livro –, o sentido do título da obra não só é explicado como, de certa forma, desenvolvido pelo autor. A leste do Éden é o lugar onde a Caim coube viver após matar seu irmão Abel.

Ao longo das cerca de 200 páginas até o fim da terceira parte do livro, fecha-se o cerco e a tríade que representa esse parentesco bíblico. Temos então as tríades Caim/Charles/Caleb e Abel/Adam/Aron. Há claramente semelhanças entre esses personagens e há também inúmeras características que podem ser levadas em conta, como, por exemplo, o fato de que Caim foi marcado para que todos soubessem que ele era um assassino e Charles tinha uma cicatriz na testa: também uma marca. Críticos relacionam esses dois fatos. Eles têm relação?

Acho que mais do que qualquer outra coisa, existe aqui um simbolismo, uma alegoria que fortalece a relação, não uma ligação direta e estática de fatos. Vale lembrar que Cathy também tinha uma cicatriz. Sim, ela também era uma assassina, mas a característica foge da tríade – e consequentemente a enfraquece – portanto é discutível a relação (ou coincidência). Às vezes um autor escolhe “confundir” uma série de fatos interligados ou referências de fatos entre si, para que a obra não se torne um quadradinho de sequências óbvias e entregues de presente ao leitor, e este nunca chegue a ter participação alguma na leitura.

A obra, além de expor essa relação Caim/Abel diretamente, mostra os poderes positivos e negativos da hereditariedade, já que as gerações vão se repetindo, e se isso não está diretamente ligado à narrativa realista, está certamente ligado à realidade da vida.

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Do ponto de vista de construção literária, temos uma obra baseada na construção de personagens, que por sua vez dá vida ao enredo. Isto pode parecer óbvio ou simples, mas é a base de todo o desenvolvimento. Temos, ao longo do texto, inúmeros exemplos desta técnica. Não são os fatos que acontecem, fazendo com que os personagens reajam a eles e, assim, revelem suas personalidades. O romance de Steinbeck funciona ao contrário: ele é baseado nas personalidades dos personagens e, só assim – e por causa disso –, as coisas acontecem.

Frequentemente capítulos iniciarão com a descrição dos sentimentos ou das características de um ou mais personagens para só então passar adiante para os fatos, quase sempre decorrentes de atitudes derivadas dessas personalidades. Quase tudo o que acontece aos personagens neste romance tem a ver com algo que eles fizeram porque sentiram que deveriam fazer daquela forma, ou, por outro lado, por causa da ação de outro personagem que fez algo porque sentiu que devia fazê-lo assim.

Apenas em raros casos há um acontecimento “exterior” que foge totalmente à causa da ação de um dos personagens. Parece óbvio? Não é. Existem romances inteiros onde o importante é o que acontece e os personagens serão passivos (dentro do possível) em relação aos acontecimentos. Ou seja: nesses casos, o ponto principal é “o que acontece”. Aqui, neste romance, o principal é “quem eles são”.

É basicamente inútil tentar definir em palavras o que é um clássico da literatura – assim como é impossível definir com exatidão o que é um romance. Mas pode-se falar em características. E uma das características que faz um clássico ser um clássico muitas vezes é a capacidade de tocar em temas universais, humanos, que valem para qualquer pessoa independente de época ou cultura.

E esse é o caso de A leste do Éden: a capacidade de falar de questões básicas da existência humana. Questões que fazem parte de todos e que mais cedo ou mais tarde no texto todos irão sentir que sabem do que determinado personagem está falando, ou o que está sentindo.

À medida que o romance se desenvolve e a geração pós-Adam/Charles toma a frente do enredo, a paisagem da obra se torna mais universal e o sentido do título, mais claro. Se “a leste do Éden” foi o lugar em que Caim foi mandado após ser marcado para viver uma vida de 1.Reflexão? 2.Arrependimento? 3.Aceitação? 4.Etc.?, também é a leste do Éden que os personagens deste romance estão, pois existe um combate pessoal em cada um deles: a não aceitação de quem são (ou grande parte de quem são).

Não é necessário nem dar nome a cada um dos personagens que não se aceita completamente. Lee, por exemplo, nem mesmo em sua aparente contemplação oriental do mundo é totalmente pacífico em relação a si mesmo. E a universalidade – e esse lugar a que o título se refere – é o lugar onde todos nós estamos, pois não existe um ser humano sequer que se aceite completamente. Há níveis de aceitação ou rejeição, apenas isso. De alguma forma, o mundo, o planeta e a existência estão “a leste do Éden”, esse lugar, esse estado de espírito universal.

Há algumas marcas de época claras no livro, como, por exemplo, o personagem de Lee, que não me parece um personagem digno de ser aceito em um romance dos dias de hoje. Uma espécie de Tia Anastácia (não é piada), Lee é um tipo de voz sábia sem personalidade e individualidade, um ser aparentemente assexuado, sem grandes vontades e ambições, além de ser estrangeiro (lembram-se no final quando alguém diz “não recebo ordens de um china”?). Mesmo que um autor se ponha a escrever um romance retrô, terá que ter cuidado ao criar um personagem como este nos dias atuais. Além de irreal, é politicamente incorreto de uma maneira que nem ao mesmo se torna uma qualidade por assim o ser.

Dois pontos deixam a desejar, em minha opinião, no romance. Durante todo seu desenvolvimento a riqueza de detalhes é um ponto forte e faz com que o leitor se mescle ao enredo muito naturalmente. Nas páginas finais há uma pressa em resolver várias questões em poucas linhas, tudo com uma pressa desmedida e desequilíbrio com o restante da obra. A partir do momento em que a geração Caleb/Aron entra no enredo, o ritmo inicial começa a se perder.

O segundo ponto, e talvez o pior, seja a cena final. Um clichê dos mais clichês possíveis. A mensagem, em si, é válida; a maneira como é construída a cena não me parece digna de um clássico de Steinbeck.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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