yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Pornopopeia, de Reinaldo Moraes: a boca do lixo nunca foi tão engraçada (e bem escrita)

Mas afinal? Pornopopeia é pornografia ou não é? Vamos fazer o seguinte: se você se masturbar lendo, é. Se não, não.


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Em uma recente discussão sobre o livro Pornopopeia, de Reinaldo Moraes, a primeira (e mais natural) questão que surgiu foi se a obra é pornográfica ou não. O debate se estendeu por mais de duas horas, e esse assunto morreu e renasceu inúmeras vezes, até que teve de ser deixado de lado quando não havia mais tempo para a reunião. Nada nem ninguém conseguiu resolver ou responder de forma definitiva essa pergunta. Ou pelo menos não se chegou a uma unanimidade, o que é ótimo.

Confesso que as primeiras páginas de Pornopopeia não me animaram, e sabendo que o livro tinha 660, meu desânimo era ainda maior. Não sou fã de Bukowski, por exemplo, e não curto literatura da decadência, onde nada acontece a não ser uma bebedeira, uma linha de cocaína, uma prostituta (ou várias) a cada página, páginas a fio. E é exatamente isso que Pornopopeia é. E eu adorei. O livro é simplesmente fantástico, mesmo sendo, na superfície, exatamente o que expliquei acima. Mas como falei: na superfície.

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A questão é que a fluidez da escrita de Reinaldo Moraes vence qualquer um, e a verdade do personagem é mais forte que qualquer resistência que você possa ter a qualquer ideia pré-concebida do que é ou não é a tal literatura “boca de lixo”. A grande verdade é que Pornopopeia, a meu ver, não é pornografia (pois apesar de ter sexo-muito-mais-do-que-explícito da primeira à última página, não tem a intenção de despertar tesão no leitor) e não é “boca de lixo” (pois apesar de só falar em malandragem, noitada, bebida, putas, drogas, bandidos e noites em claro, não tem clima de decadência deprimente, daquelas fim de carreira).

Além de tudo, é de chorar de rir, coisa que 99% dos livros de humor não conseguem fazer comigo. E, ao mesmo tempo, não é bobagem, besteirol, idiotice. É literatura séria, de gente grande, feita por um escritor de primeiríssima. A quantidade de trocadilhos, brincadeiras com o idioma, tiradas com as mais variadas situações, sempre de forma inteligente e com citações ou menções a outros autores, outras artes, é enorme. O texto está forrado de cultura. E forrado até a boca de sexo explícito, claro.

Mas se você gosta de Cinquenta tons de cinza, esqueça, isso aqui não é erótico pra donas de casa, não é nem sexo para masturbação noturna, não serve como preliminares, não é nada disso. É putaria pra se matar de rir não só de sexo, mas das pessoas, do dia a dia, de nós mesmos, da vida, e, claro, do personagem principal, Zé Carlos, um viciado em sexo descontrolado, mentiroso compulsivo, inteligente das mais variadas formas que o ajudam a mentir pra si próprio em um clássico caso de autoengano-quase-consciente típico de quem tem impulsos de acabar com a própria vida. É livro pra dar gargalhada, não risada. É pra rir bem alto e não sorrir escondido. É pra endoidecer a família, então leia quando estiver sozinho por causa do barulho, pois os vizinhos vão reclamar.

Outro assunto que surgiu durante as discussões foi o da “validade” das críticas que a obra faz. Se de fato critica algo com fundamento ou é uma obra vazia, autossuficiente e pouco preocupada com conteúdo. A real é que provavelmente as duas coisas, o que lhe dá um equilíbrio perfeito, porque humor todo controladinho pra ser inteligente, vamos falar vai, é um saco. E bobagem por bobagem o tempo todo – quem dirá 660 páginas – ninguém aguenta: a piada vai se repetir. Então o fato é que existe, sim, muita crítica subliminar, muitos lugares pantanosos pelos cantos do texto. E existe a tão-desejada porralouquice escrita por um cara genial que não tem medo de se arriscar a escrever um livro como este, que poderia cair nas malhas da nossa nova sociedade, onde todos são deuses e juízes forrados de regras e donos da chatice-que-ninguém-aguenta-mais, aquela do tal discurso excessivamente “corretinho”.

Mas afinal? Pornopopeia é pornografia ou não é? Vamos fazer o seguinte: se você se masturbar lendo, é. Se não, não.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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