yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

A montanha mágica, de Thomas Mann, um romance da existência

A montanha mágica é, ou parece ser, um espelho da vida, ou talvez da existência.


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Na contracapa da edição da Companhia das Letras de A montanha mágica, de Thomas Mann, a obra do autor alemão é descrita como um “romance de formação”. Se você for ler a respeito desta monumental obra do século XX, quase sempre encontrará essa definição.

Eu diria que sim, essa definição faz sentido, mas ela vem acompanhada de mais sentidos e definições do que serei capaz de mencionar aqui. Eis algumas definições adicionais: “romance de ridicularização da formação”, ou, mais suavemente “ironia da formação”. Outros: “romance de como o ser humano se sente doente”, “romance de como os outros seres humanos doentes também querem que nós estejamos doentes”; “romance de como a influência do meio nos faz mudar de opinião”, “...de como assuntos profundos se perdem em meio a discussões intermináveis”, “...de como assuntos pertinentes se perdem quando não analisados de forma tão extensa como os assuntos não pertinentes”, “...de como o ser humano, quando isolado em uma montanha, em meio a apenas outros seres humanos, começa a duvidar de si mesmo”. Mas antes e depois de tudo, um “romance sobre as distorções do tempo e da razão quando colocadas lado a lado”.

Nada do que está escrito acima é piada, é tudo muitíssimo sério, e estes são apenas alguns poucos motivos pelos quais A montanha mágica é um livro especial. Há muitos outros.

Começando pela última “definição” (a do tempo), a que reúne todas as outras. A experiência de ler esta obra é, em si, o resultado do seu impacto: a lentidão no topo da montanha, no sanatório, ao lado de todos os doentes, faz com que Hans Castorp comece a duvidar de si mesmo em relação à sua saúde, dúvida que inicialmente nem sequer lhe passava pela cabeça. O realismo do livro se mescla com uma espécie de sensação de enlouquecimento ou ilusão lenta e crescente à medida que 1.nada de fato acontece; 2.não é possível que nada de fato aconteça; 3.assuntos seríssimos são discutidos; 4.assuntos seríssimos são levados ao nível mais alto de futilidade uma vez que não se sabe por que se está discutindo o que se está discutindo e nem por que e para onde essa conversa vai.

Mas a questão do “romance do tempo” vai além: os fatos vão acontecendo de forma tão natural, mas tão natural, e agora mais natural ainda, e quando você vê tão natural que é impossível que a vida seja tão natural que só coisas naturais aconteçam, e então se instala uma espécie de “mistério” no ar, uma sensação intrínseca de que algo pode acontecer a qualquer momento e que (espere aí!), talvez vá acontecer! E então caímos em algo que beira o mágico ao mesmo tempo em que o realista, o real, nunca deixam de existir. É quase como aquele filme em que após 40 minutos você começa a perceber que a qualquer momento algo radical deve acontecer, mas que nunca acontece.

E como o tempo é muito longo, e as pessoas estão isoladas, e há um mundo micro, uma micro civilização no sanatório, e você está sozinho lendo aquilo há tanto tempo que já faz parte da paisagem, pronto, você já é parte daquele tempo, daquela micro civilização e daquela lógica que parece prestes a lhe oferecer uma novidade a qualquer momento. Até que você percebe que a novidade é essa.

À medida que o tempo passa e Hans Castorp vai permanecendo no sanatório, a ambientação se torna “fixa” do ponto de vista que, agora, não mais temos uma situação passageira, temporária. A partir do diagnóstico que lhe é dado, o hospital passa a ser sua moradia permanente – mesmo que haja, longinquamente, a possibilidade de que ele se cure.

Com essa mudança de visão sobre o estado de saúde de Hans Castorp e a ideia de que passamos a ter uma situação estável no dia a dia na montanha, o leitor também é fixado em uma realidade que se materializa: o mundo não é lá embaixo na planície, é aqui em cima, na montanha; o mundo não são as pessoas lá fora, mas sim essa microssociedade que vive isolada.

Parece-me haver duas questões que dominam a narrativa a partir desse momento.

A primeira delas é uma questão humana em que se desenvolve a noção de que o ser humano precisa, de qualquer forma, criar uma realidade em qualquer novo habitat que ele esteja. Se for na prisão, será na prisão, se for em uma grande cidade, será ali, se for no deserto, na neve, perdido sozinho, em grupo etc, sempre, de uma forma ou outra, após o choque inicial, cria-se uma vida emocional e social em que o ser humano se estabiliza dentro de sua nova realidade. Em outras palavras: o ser humano precisa viver e viverá conforme o que a natureza psicológica que lhe é inata necessita para mantê-lo são.

Dessa forma, cria-se essa sociedade dos moradores do sanatório em que as características humanas passam a se desenvolver (se não fosse ali seria na planície, ou em qualquer outro lugar). O ser humano não tem como escapar de ser ele mesmo, de raciocinar das formas que raciocina, de buscar problemas no que lhe incomoda em seus espaços não totalmente preenchidos na mente, de buscar amores nas pessoas que lhe estão próximas, encontrar ódios, observações, de criar teorias, de manter-se ocupado para sentir-se vivo.

A segunda direção que a narrativa toma é a de criar um estado de imersão em determinados pontos do enredo de forma a fazer o leitor sentir o que se passa nessa sociedade e no interior dos personagens. Passagens longas como a que Hans Castorp lê sobre medicina, apesar de soarem bastante monótonas e às vezes como um beco sem saída na história, têm a função de não apenas informar o leitor de que Castorp está passando todo aquele tempo lendo exatamente aquilo, mas fazê-lo passar por essa experiência.

A montanha mágica é um livro publicado em 1924, mas essa característica de imersão é bastante atual e frequentemente usada por escritores contemporâneos, em que não basta informar, há de fazer o leitor sentir a sensação (e não há compromisso com a escrita ou a leitura prazerosa, o compromisso é com a verdade, a realidade, e se ela for dura, difícil, sofredora, não importa). Nesse sentido, best-sellers têm a intenção de divertir o leitor, fazê-lo se sentir bem. Grandes clássicos têm a característica de serem verdadeiros (mesmo que ficcionalmente), seja essa verdade incômoda ou não.

Exemplos de obras em que o tom da história e a sensação do leitor são próximos: O compromisso (Herta Müller), Estorvo (Chico Buarque), Desonra (J. M. Coetzee), Vidas secas (Graciliano Ramos).

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A montanha mágica mais e mais parece ir se tornando um título dual, assim como sua narrativa também se divide de forma que pode ser interpretada sob olhares opostos. O título pode tanto ser levado a sério, levando em consideração a seriedade da condição de saúde dos moradores do hospital e das questões que os afligem, como de uma forma irônica, em que muitas vezes o ridículo de situações toma conta dos moradores da montanha.

Uma das coisas mais frequentes que me parecem acontecer na arte, e por consequência na literatura, é o excesso de seriedade, ou talvez rigidez com que certos aspectos e características das obras são levados em conta. Quando me referi à dualidade do título, me referi também à maneira como o autor aborda as questões levantadas principalmente nos diálogos entre os personagens. Em lugar algum, mencionado ou discutido por qualquer crítico literário jamais li nada sobre tais assuntos beirarem o ridículo ou a futilidade. A arte, afinal, é uma coisa séria, e a literatura, algo tenso, sisudo, principalmente nos clássicos, quando o tom da narrativa é lento e arrastado, e quando o assunto parece ter profundidade. Será?

Voltando à dualidade, acho que nesta obra há as duas questões. Ao mesmo tempo em que grandes perguntas e dúvidas e posições sobre a vida são discutidos e levantados nos diálogos, o tempo a que esses diálogos são expostos terminam por expor a natureza humana frágil dos que discutem (na maioria das vezes Settembrini e Naphta), mostrando também que estes se confundem, passam a defender o que há pouco condenavam, vivem em desacordo com o que defendem, e, mais do que tudo, não são resistentes a uma discussão prolongada em que a linguagem, por si só, é mais poderosa do que aqueles que tentam dominá-la, resultando em um circo de futilidades.

Mas nisso não se fala em lugar nenhum, não é mesmo? O que se fala é sobre o assunto levantado. Sobre o resultado do assunto, nada. Nessa omissão, há uma grande perda, que é a análise do que é a natureza humana quando tenta ser coerente com ideias ao ponto não só de defendê-las, mas também exemplificá-las, e, sobretudo, viver de acordo com os princípios dessas ideias. E aí é que falo da dualidade desse texto. A obra de Thomas Mann não apenas discute os assuntos que os personagens discutem, mas disfarçadamente discute o que é o ser humano quando tenta ser dono da verdade, o quão impossível é ser coerente e humano ao mesmo tempo. A montanha mágica é sobre a natureza humana, ou seja, sobre coisas mágicas, interessantes, profundas, problemáticas, duais, conflitantes, e, junto a tudo isso, ridículas.

(Em tempo: a passagem em que Hans Castorp sonha acordado com um mundo paralelo me parece demasiado semelhante ao conto “Sonho de um homem ridículo”, de Dostoiévski, publicado em 1877, para não ser intencional.)

À medida que o romance se encaminha para o final, confirma-se a impressão de que há uma paisagem macro que é dominante na narrativa, ou seja, os detalhes funcionam de forma a, na somatória, criar a “imagem total”, que é o que realmente importa.

Se pensarmos que cada debate ocorrido no texto, entre os personagens, é um satélite – que por momentos parece ser o ponto principal – mas que funciona de forma a compor um significado maior do que a discussão por si só, veremos que o que A montanha mágica é, ou parece ser, um espelho da vida, ou talvez da existência. Pois em momentos tudo nos parece complexo e cheio de questões labirínticas, mas em outros há uma certa maré em que a movimentação da vida é constante e, muitas vezes, com a sensação de um marasmo.

Do ponto de vista de um clássico da literatura, as questões e as perguntas estão lá: um clássico nunca é um clássico por causa da pergunta “o que vai acontecer?”. A resposta para isso é a emoção que o leitor sente em relação à sua expectativa pelo desenrolar do enredo. Isso pode ser encontrado nas obras mais comerciais e, inclusive, é nisso que elas são baseadas. Nos clássicos, mesmo essa questão existindo (ou não), o que o torna o que ele vem a ser, é “como isso aconteceu?”, “por que isso aconteceu?”, “como as pessoas se sentem?”, “como a vida se deu e por que dessa forma para esses personagens?” e assim por diante. Assim, obras em que “nada acontece” se transformam em clássicos pela intensidade humana contida nelas.

O ponto de vista final sobre A montanha mágica em si, sendo a obra o espelho da vida que conseguiu ser, me parece ser que o leitor transita por dois espaços que são intermitentes (e que são os espaços mentais e emocionais que a vida também proporciona). E esses são as sensações opostas de vivenciarmos o tempo e nos perguntarmos (ou sentirmos) estas duas coisas em relação à existência (e ao livro):

- Mas então a vida é tão complexa?

- Mas então a vida é tão simples?


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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