yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

O livro de Egan se propõe a mostrar um grupo de pessoas sob vários pontos de vista e variadas épocas. Assim, a obra vai sendo narrada de diferentes formas e olhares.


1.jpg

Há alguns anos assisti à entrevista de Jennifer Egan na Flip. Lembro bem que havia todo um falatório sobre ela, principalmente sobre o livro A visita cruel do tempo (A Visit From The Goon Squad, em inglês). Egan não foi uma grande revelação ou teve grande impacto como entrevistada, mas Jonathan Franzen também não teve e ainda assim sua obra é de uma qualidade inquestionável. Ainda nesse tópico, a consagrada escritora Isabel Allende mais parecia uma socialite na Flip do que alguém com algo substancial a dizer. E pode fazer sentido: escrever bem nem sempre é falar bem, nem sempre é querer dizer algo fora do livro.

Mas me lembro bem que foi impossível comprar o título de Jennifer Egan tanto em português como em inglês: se esgotou muito rápido. Terminei me conformando com Look At Me e The Invisible Circus. Mas claro, fiz um bookmark em minha mente para em algum momento voltar a essa tentativa. E agora ela se concretizou. Terminei A visita cruel do tempo há alguns dias.

Quando mencionei no Facebook que estava lendo esse livro, uma amiga, talentosa escritora de peças de teatro, comentou: “Não sei como ela ganhou o Pulitzer com essa obra”. Bem, existe uma palavra para esse comentário: Exatamente. No sentido de que sim, é isso que fico me perguntando também. Como ela ganhou o Pulitzer?

A obra é ruim? Não. Mas também não é nada de mais. Aliás, é muito parecida com Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg (que ok, foi escrita depois, mas enfim), no sentido de que não há a profundidade que se torna necessária uma vez que o foco dos vários enredos se centraliza na vida dos personagens. A obra de Egan não é um livro sobre fatos, é um livro sobre pessoas. E fatos podem até ser corriqueiros e interessantes, dependendo de como são expostos, mas pessoas, bem... pessoas também, desde que sejam apenas algumas. Mas quando você tem uma obra inteira de personagens sem profundidade, aí a coisa começa a ficar, well... superficial.

0.png

Ah, mas daí pode-se dizer que as questões humanas vão surgindo naturalmente, no subterrâneo do texto. Acho que não. Exemplo real disso é Sunset Park, de Paul Auster. Aí sim temos dramas escondidos, onde não se toca na ferida, espera-se ela crescer sozinha.

O que o livro de Egan parece se propor a fazer é mostrar um grupo de pessoas (que tem como personagem central Bennie, em executivo de gravadora) sob vários pontos de vista e épocas. Assim, a obra vai sendo narrada de diferentes formas conforme quem a conta naquele momento e naquela época. Isso termina transformando o romance numa espécie de livro de contos que têm pontos em comum.

A proposta não é nova mas fornece várias possibilidades interessantes. A questão é que o ponto de encontro entre esses diversos “contos” também não parece ter força suficiente para segurar o enredo de forma consistente ou interessante. Em muitos momentos me peguei torcendo para que as páginas passassem rápido e que o livro acabasse, algo que é raríssimo de acontecer, mesmo nos livros mais lentos e maçantes (qualidades que às vezes são necessárias).

Não há exatamente uma história a ser contada, então nem que eu quisesse soltar um spoiler não conseguiria. Cabe a cada leitor achar a vidas desses personagens interessantes ou não. Arte é arte e não há uma fórmula de certo e errado. Eu não gostei, mas certamente muitos outros gostaram. Ainda bem.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //Julian Barg