yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Tentativas de fazer algo da vida, de Hendrik Groen

É possível narrar com leveza as indignidades do envelhecimento e do abandono do ser humano? Acredite se quiser: sim.


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Um dos livros de mais sucesso (sem ser autoajuda) nos últimos anos é um relato da tristeza e indignidade a que os velhos são submetidos e, ao mesmo tempo, uma obra leve e cheia de humor – pra quem tem senso de humor e não é velho (me parece).

A proposta é um diário de um idoso de pouco mais de 83 anos (na verdade, o autor, que na verdade é um pseudônimo) escreve de dentro de um asilo para velhos. O próprio Hendrik já começa dizendo que uma de suas maiores vontades é conseguir colocar a mão em um comprimido de eutanásia. E isso retorna durante o livro muitas e muitas vezes, em meio a descrições de toda a decadência mental e física que inevitavelmente acontece e acontecerá com todos os que forem envelhecendo.

Além das doenças e incapacidades físicas variadas (Hendirk, por exemplo, em determinado momento passa a usar fraldas), ficamos sabendo de pequenas maldades e atitudes interesseiras por parte dos cuidadores, nunca esquecendo que estamos lidando com seres humanos, e que a empatia e a perfeição não são uma constante. Mas Hendrik não poupa ninguém desse olhar consciente e sóbrio. Os velhos também não são flor que se cheire, e somos informados a todo o momento de picuinhas e implicâncias e truques e todo tipo de coisa que os idosos fazem para ter vantagem dentro da instituição (e muitas vezes para prejudicar os outros).

Estão presentes quase todos os fantasmas que rodeiam a velhice, até mesmo os filhos que os abandonam lá e nunca mais aparecem, ou, ainda pior, visitam já querendo ir embora. E são tantos os detalhes ao longo do livro, em cada entrada do diário, que fica óbvia a familiaridade do autor com o sistema interno de uma instituição para idosos, assim como com os idosos em si, assim como com o ser humano em geral.

Mas daí vem a pergunta: é possível que um livro assim seja engraçado? A verdade é que não sei.

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Certamente não saí dando gargalhadas (talvez uma ou duas risadas altas), mas o fato é que a obra é realmente leve, pois o autor-narrador é ele próprio um idoso, e por assim ser, torna-se cúmplice dos fatos que narra. E é bem humorado. É como se fosse um amigo seu tirando sarro da própria mãe. Dependendo do tom, pode ser engraçado. E se não for engraçado, pode ser ao menos leve. Porque é ele falando, e a mãe é dele. Já se fosse a sua, a minha ou outra mãe, daí o buraco seria mais embaixo.

Isso me leva a crer que um narrador em terceira pessoa tornaria a paisagem do livro em um filme de terror. Mas Hendrik é muito humano, leva a vida com um pé na pílula da eutanásia e o outro no acelerador de ironias engraçadas. É bem verdade que sua figura é um pouco fantasiosa e isenta de dramas: não tem família, não tem filhos, não está beirando a demência nem possui nenhum distúrbio mental que o deixe desequilibrado. Então temos alguém que não sofre as indignidades humanas diretas do abandono. Temos um narrador que consegue, pela construção do autor, estar em uma situação relativamente neutra, e assim, mais focado nos dramas alheios do que nos seus. E assim o autor consegue ganhar o leitor com mais facilidade.

Há duas características principais que me parecem bastante positivas e determinantes para o sucesso do livro. Por um lado a situação indigna que a velhice traz ao ser humano está presente e, querendo ou não, terminamos por refletir sobre ela; por outro, o bom humor é o tom dominante do texto, possibilitando que cheguemos até o fim do livro. Se não fosse esse o tom, ninguém seria capaz de encarar essas verdades.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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