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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

The Most Beautiful, uma quase-biografia de Prince

O livro é, na verdade, a autobiografia de Mayte, mas com uma participação bastante importante de Prince. Nenhuma biografia oficial, autorizada ou não, revelaria alguns dos fatos contidos aqui.


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Prince era uma figura misteriosa. De certo modo, continua sendo, até que alguém realmente queira ou possa revelar o que realmente aconteceu nas circunstâncias de sua morte. O que o levou a chegar a isso, quero dizer. Muito foi dito, mas nada realmente foi explicado. E sobre sua vida durante todos os anos em que produziu uma infinidade de álbuns, também se sabe pouco.

O livro The Most Beautiful, de Mayte Garcia, sua ex-esposa, se propõe, pelo menos no título e texto explicativo, a contar sobre a vida do casal – e principalmente de Prince – enquanto os dois estavam juntos. Mas na verdade, esta obra é, mais do que qualquer outra coisa, uma autobiografia de Mayte. Como ela não é um grande nome no show business, aproveitou o gancho de falar sobre Prince para, na verdade, contar sobre sua própria jornada. E isso inclui dezenas e dezenas de páginas desde sua infância, passando pelo casamento com Prince e seguindo por sua vida pós-separação.

Certamente não é como o livro de Jim Hutton, namorado de Freddie Mercury, que realmente entrega o que promete: falar sobre os dois, até o dia da morte de Mercury, sem se focar em si mesmo e sua vida antes de conhecer o vocalista do Queen.

Durante um bom tempo pensei em desistir do livro de Mayte, afinal não estava realmente interessado em saber sobre sua infância nem sobre como ela é talentosa e espetacular. Mas me mantive com a promessa de pelo menos chegar até o momento em que Prince entra em cena para saber se a coisa toda realmente era desinteressante como parecia.

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Pode-se dizer que a partir de certo momento a maré vira e o livro se torna um relato honesto e sem firulas sobre o que acontecia nos bastidores da banda, entre os dançarinos e nas gravações de Prince. O leitor fica sabendo como as coisas eram administradas, de que forma eram resolvidas e muitos detalhes sobre como Prince se tornou Testemunha de Jeová (através do baixista Larry Graham), fato que muitos dizem ter encaminhado – ou pelo menos ajudado – o músico até o caminho que o levou à morte.

Se ignorarmos o tom de conto de fadas criado por Mayte em relação à maneira como conheceu e se relacionou com Prince, e ainda o tom machista/conservador com que faz questão de permanecer o tempo todo (como, por exemplo, insistir a todo o momento na valorização de sua virgindade, não só por ela mesma mas por Prince também (ironicamente a biografia de Duff McKagan tem o mesmo tom ao contar que se apaixonou por sua atual esposa porque ela não quis fazer sexo com ele logo no primeiro encontro – uma baboseira, na minha opinião)), o livro é bastante bom, e Mayte se revela uma pessoa de valores bastante admiráveis.

Assim como outros astros do pop e do rock, Prince é descrito como uma pessoa bastante frágil e insegura, apesar de seu talento inigualável. Parece ter sido – como Freddie Mercury é descrito em várias biografias – vítima das tentações e possibilidades hedonísticas que a fama, a idolatria e o dinheiro permitem.

Eu diria que é um livro que certamente vale a pena ser lido, apesar dos poréns, pois estes se tornam quase irrelevantes uma vez que a história toma forma. Mayte consegue contar sem fofocar, revelar sem se tornar papparazzi e narrar de forma simples e leve, mesmo nos momentos mais tensos.

Definitivamente não é a biografia que todos gostariam de ler sobre Prince, mas ainda assim é um livro que agrega muito a quem tem interesse em saber mais sobre um dos maiores músicos que o mundo já viu.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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