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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Dom Casmurro, a obra em que a "verdade" é secundária

A verdade ficcional pode ser chamada de “mentira”, mas também, seguramente, devemos chamá-la de “verdade simbólica”.


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Escrever sobre Machado de Assis no Brasil é quase como escrever sobre Shakespeare. Há uma quantidade tão exorbitante de análises e pessoas dedicadas a mergulhar em sua obra, que a partir do marco zero da escrita já existe uma infinidade de coisas a serem ditas. Mas como a crítica literária tem infinitos pontos de vista e pode ser embasada nas mais diversas teorias, há também certa liberdade em cada leitor ao expor sua experiência.

Dom Casmurro é o terceiro livro de Machado de Assis de sua fase realista, quando o autor “se rebela” e deixa a fase romântica (que é belíssima) para trás. A discussão sobre qual obra da nova fase é melhor, mais completa, mais ousada é tão interminável como digna de inconclusão.

Mas o fato é que ao lermos Dom Casmurro, não há como não ouvir a voz de Brás Cubas. Existe uma fórmula regendo essas duas obras. A divisão dos capítulos, a “confissão” logo cedo na narrativa de que o que estamos lendo é um livro e que esse livro esta sendo escrito diretamente ao leitor, inclusive com a voz narrativa conversando com ele(a). Há saltos no tempo, há referências a capítulos que ainda não foram lidos assim como a capítulos passados. Se em Memórias Póstumas de Brás Cubas já começamos a leitura sabendo que o narrador está morto, em Dom Casmurro, praticamente no mesmo tom, o narrador nos avisa que tudo o que vai ser contado já aconteceu. Há até uma breve passagem em que Bentinho parece brincar com a possibilidade de que ele também pode haver morrido no processo e está escrevendo do além, como Brás Cubas, apenas para, muito rapidamente, negar essa possibilidade. Mas está aí mais um jogo entre ambas as obras.

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Adiantando em décadas o que a Estética da Recepção (teoria literária que analisa o papel do leitor no processo da leitura) viria a dicutir, Machado já colocava o leitor como parte da obra, incluindo sua voz e seu pensamento no diálogo desenvolvido pela voz do narrador. Ou seja, não só o narrador fala sobre sua vida e com os demais personagens (e com ele mesmo), mas também o faz constantemente com o leitor, puxando-o para dentro da obra.

Também em uma atitude de vanguarda, a fase realista de Machado de Assis não se contenta em ser totalitária em suas afirmações: nesta(s) obra(s) não mais o leitor pode se recostar tranquilo na cadeira de leitura e partir do princípio que o narrador é onisciente e que o que ele está contando é a verdade dos fatos. Machado, mais uma vez, se adianta nos movimentos literários e oferece obras em que, a não ser que o leitor se recuse a participar do jogo, não é mais possível acreditar em tudo. Há de se questionar constantemente se o que estamos “ouvindo” é verdade ou não, se o narrador/personagem está nos manipulando para nos convencer do que ele acredita (ou quer acreditar) ser verdade. Antes da virada para o século XX, Machado de Assis estava colocando em pauta a questão do narrador não-confiável.

É importante ter em mente que tanto Dom Casmurro como Memórias Póstumas de Brás Cubas são obras “retroativas”, o que quer dizer que os narradores contam suas histórias de algum lugar do futuro, sempre olhando para trás. Com o nível de realismo somado ao de possível “inconfiabilidade” do narrador, conclui-se que nem tudo pode ser verdade, ou pelo menos não da forma que está sendo contado. Bentinho tem interesses envolvidos para que a história seja contada do jeito que é contada e que o leitor acredite que o que se passou realmente é o que está sendo dito.

“Ah, mas um romance é uma ficção, por que deveríamos nos preocupar com uma suposta ‘verdade’ ou ‘mentira’ dentro da ficção, que por si só já é ‘mentira’”? Pelo simples fato de que a proposta da literatura de Machado neste (e em outros livros) engloba o jogo narrador/personagem/leitor. Vulgarmente falando, é como um videogame em 3D, que agora exige que o jogador esteja na mesma dimensão dos personagens. É um novo tipo de verdade ficcional dentro da ficção, que podemos chamar de “mentira”, mas também, seguramente, devemos chamar de “verdade simbólica”.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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