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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

A consciência de Zeno, de Italo Svevo: a psicanálise fora do livro

Existe aqui uma armadilha para o leitor, pois o instinto é sempre de acreditar no que o narrador lhe conta. Mas esse narrador é duvidoso e há verdades escondidas pelo texto.


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A consciência de Zeno, obra de Ítalo Svevo, é considerada uma das primeiras (por alguns a primeira) a situar a questão da psicanálise dentro da obra literária, ou seja, inserida não só no assunto, mas também como guia do enredo. Isso acontece, principalmente, uma vez que a questão psicanalítica se inicia já na primeira página, quando o psicanalista de Zeno assume estar não só publicando as memórias que seu paciente escreveu (a seu pedido) como diz ser coautor dessas memórias. Bem, há algumas questões que devem ser separadas para análise mais direta.

Uma coisa é ter a psicanálise como um assunto central e, assim, criar uma obra chamada “psicanalítica”. Nisso entra também a questão da época em que a obra foi escrita e a quebra que esta provocou ao apresentar um assunto como este, somada ao fato de o protagonista ser um anti-herói, um personagem sem grandes virtudes e confesso de seus defeitos e de certa malandragem. Nesse caso, temos a psicanálise quase como uma paisagem que se mescla ao meio-ambiente ela mesma como um fator dominante.

De fato, a narrativa tem um tom “claustrofóbico”, em que tudo se passa dentro da mente de Zeno, esbarrando, portanto, nos enganos ou intenções de erro dos fatos do personagem e transformando-se também em uma obra memorialística (mesmo que a memória seja propositalmente alterada).

O outro ponto é que esta obra seja considerada psicanalítica não por seu assunto ou forma, mas pela tão chamada crítica literária psicanalítica, que pretende usar livros e teorias de psicanálise como fonte de análise de qualquer obra literária. E é aí que está feita a confusão quando essas duas coisas diferentes passam a ser consideradas a mesma, pois não o são.

A crítica literária psicanalítica é muito criticada (e não tão levada a sério nos dias de hoje) por ser usada de forma quase aleatória por críticos que nada têm a ver com a psicanálise e, portanto, com muita frequência destacam passagens de livros de psicanálise de forma a “encaixar” a obra que estão analisando sem grande conhecimento do que de fato a teoria diz. Assim, a crítica literária psicanalítica foi perdendo força e não é exatamente “confiável” nos dias de hoje. Isto tendo sido dito, temos de separar o que de “psicanalítico” realmente existe na obra de Ítalo Svevo: se é a temática, a forma, a aproximação do enredo e dos personagens a uma realidade que era nova à época da escrita do livro, ou se devemos considerar que há algo de mais fundo psicanalítico nesta obra do que em outras.

Em minha opinião, se formos falar em psicanálise ou psicologia (apesar de que sempre é melhor deixar isso para os profissionais), qualquer situação ou personagem pode ser analisado, e para isso não é necessário que haja alguém no divã dentro do enredo ou que alguém na narrativa esteja se tratando. Basta apenas que exista alguém em algum lugar em relação com algo, nem que esse algo seja seu próprio pensamento.

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Me parece haver dois pontos mais claramente “psicanalíticos” na obra, e esses fizeram com que A consciência de Zeno fosse considerada “altamente” psicanalítica”: (1) a época de sua escrita e lançamento e (2) a inovação da TEMÁTICA, não o alto teor de reflexão sobre o assunto. Aliás, na literatura contemporânea, caso quiséssemos adotar o enfoque psicanalítico, teríamos muito mais material literário “escondido” nas narrativas. À medida que o enredo se desenvolve o que vemos é que o que parece dominar a obra são as narrativas “em moldura”: o livro A consciência de Zeno contém um depoimento que afirma que a narrativa é de outra pessoa (e portanto está contida nessa primeira afirmação) e que por sua vez assume que pode ser verdade ou mentira em diferentes partes (ou seja, contém alterações vindas de Zeno), que, por sua vez, pode ter alterações vindas do médico, em uma sequência de narrativas dentro de narrativas alteradas por narrativas, formando uma Matrioska.

O romance se desenvolve (ou, para muitos, parece não se desenvolver), e surgem as questões intrínsecas ao estilo, conteúdo e forma da obra de Svevo.

O protagonista é um personagem que parece estar à deriva grande parte do tempo, tomando pequenas decisões que não mudam drasticamente seu destino, mas sempre deixando-se levar pelos acontecimentos, pelas decisões de outros e permitindo que essa faceta decida sua vida. Os personagens coadjuvantes, somados, são os que decidem a vida de Zeno, uma vez que este flutua em meio ao que lhe cerca.

Com isso em mente, e tendo observado o desenrolar da narrativa, surgem várias questões:

O que quer dizer a palavra “consciência” no título do livro? A mente de Zeno e como ele vê as coisas e as descreve? Seria esta uma consciência no sentido de “consciência pesada” ou “consciência leve” conforme ele levou sua vida? Será esta uma “falta de consciência” em relação às coisas importantes da vida? Será esta consciência na verdade uma ironia do autor uma vez que a narrativa não é exatamente de Zeno, mas também a de seu médico?

Estas questões surgem, são importantes e pertinentes principalmente por uma razão: ao analisar cada uma dessas perguntas (e quaisquer outras que surjam delas) devemos lembrar que o que estamos lendo não é exatamente o que aconteceu, nem o que necessariamente Zeno pensou ou fez, nem necessariamente o que os outros personagens fizeram ou pensaram. O que estamos lendo, como foi avisado no começo, é um livro alterado onde não se sabe quem escreveu o quê, e o que é verdade e o que não é.

Por essa razão, os acontecimentos e o enredo são secundários. Existe aí uma armadilha para o leitor, pois o instinto é sempre de acreditar no que o narrador lhe conta. Mas esse narrador é duvidoso e há verdades escondidas pelo texto. Então toda a leitura se vira para outra análise e outra pergunta principal que pode (e deve) gerar outras: quem é (no sentido abstrato) esse narrador e por que ele escolhe escrever essa história dessa forma? A verdadeira questão psicanalítica não está claramente “dentro” do livro no sentido de que não está “dentro do enredo”, mas sim simbolicamente “fora do livro” no sentido de estar “fora do enredo”. Aqui, o principal não é analisar o que acontece, mas sim qual é a personalidade (do ponto de vista psicológico/psicanalítico) desse narrador que escolheu escrever a história assim, com essas características e com essas escolhas.

A psicanálise está no romance, mais do que em qualquer outro “lugar”, na análise “exterior” ou “anterior” à escrita, que é a escolha de escrever essa história e não outra.

Talvez quem esteja no divã seja o leitor, e à medida que analisa a história, é obrigado a analisar sua leitura.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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