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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Lolita, de Vladimir Nabokov: pedofilia ou paixão?

Contém spoilers!


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A obra mais famosa de Vladimir Nabokov, Lolita, causa reações de alerta até – e principalmente – naqueles que não a leram. Os filmes feitos baseados no livro o tornaram ainda mais popular, mesmo que ambos sejam pouco fiéis à essência da obra literária, simplificando-a e a tornando mais rasa. Afinal, Lolita é uma obra erótica? É sobre pedofilia? Se sim, como pôde tornar-se um clássico? Se não, por que tem essa fama e esse selo sempre junto ao seu título?

Nabokov, além de ser um mestre da narrativa, é um grande criador de quebra-cabeças invisíveis. O livro parece simples, claro e “aberto”: um homem adulto chamado Humbert conta, da prisão, detalhes e mais detalhes de como se excita por ninfetas e, a cada linha que lemos, mais e mais descrições de seu desejo são entregues livremente ao leitor. Mas a obra não tem nada de “aberta” e muito menos de simples.

Em primeiro lugar, estamos lidando com um narrador/personagem não-confiável. Isso começa a ficar claro logo no início, quando percebemos que o narrador fala ao leitor diretamente, e não em tom onisciente livre de julgamentos e críticas. A partir desse momento, percebe-se que há o que realmente aconteceu (que é algo que nunca saberemos) e o que supostamente aconteceu (o que Humbert conta). Mas a narrativa não é um relato neutro. É o que podemos chamar de “O show de Humbert”. É um texto narrado como se o narrador fosse um ator em um palco, com iluminação somente nele, e o assunto é também somente ele. Lolita, apesar de ser o título da obra e parecer ser a coisa mais importante da obra, nada mais é que o motivo usado por Humbert para que este brilhe em seu exibicionismo autocentrado e autoindulgente.

A história é de Humbert sobre Humbert. E o nível de cinismo, sarcasmo, humor negro e desprezo do personagem em relação a tudo e todos mostra que a narrativa de Humbert é exagerada e enganosa sempre no intuito de torná-lo o centro das atenções. Humbert mente, mas não sabemos exatamente como nem quando. Ao final do capítulo 25, ele mesmo diz: “Ah, permitam-me que eu seja repugnantemente sincero ao menos esta vez! Estou cansado de ser cínico”. Na página 49, Humbert confessa “(toda essa passagem talvez tenha sido reescrita)”.

Nabokov usa várias técnicas para que Lolita não seja um livro erótico, mas sim um livro que é também (mas não só) SOBRE o erótico. Para que não seja um livro exatamente “pedófilo” mas também SOBRE pedofilia. Mas, sobretudo, um livro sobre sentimentos dúbios. E esses sentimentos dúbios fazem com que a obra se isente de culpa e, consequentemente, o autor se isente de culpa e, consequentemente, junto a uma narrativa e um enredo muito bem costurado, se torne um clássico.

Eis aqui algumas técnicas “protetoras”.

O leitor odeia Humbert por ser pedófilo. O leitor odeia Humbert por ser mau caráter. Por ser mentiroso. Por ser enganador. E, acima de tudo, por ser tudo isso e não sentir um pingo de culpa. Com isso, não há a humanização do pedófilo. Se Humbert fosse uma ótima pessoa, mas fosse um pedófilo assim mesmo, o buraco seria bem mais embaixo, pois correríamos o risco de sentir pena de um pedófilo, considerarmos que é um doente que precisa de ajuda e é digno de pena. E então de certa empatia. Ahhh, mas Nabokov não deixa que isso aconteça. Ou seja, antes de tudo, o livro é uma denúncia. O pedófilo do livro não é só pedófilo, ele é uma pessoa horrível.

Por outro lado, Humbert não se concretiza como um estuprador. Ele bola o plano, mas não acontece. E rapidamente ele se torna uma vítima de Lolita (que não é flor que se cheire, mas quase não pensamos nisso, pois Humbert está nos holofotes).

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E agora começam os “spoilers”.

No momento em que Lolita o seduz, o jogo vira e ela ficará no comando. Humbert está em suas mãos. Todo o erotismo e a doença da parte I se esvairá na parte II pois agora a história mudou. Agora Lolita dita as regras da relação e fará o que bem entender com ele. E a história agora é sobre o sofrimento de Humbert quando o que ele sente por ela se transforma ao mesmo tempo que ela o faz de idiota como um brinquedo.

Acabou-se a pedofilia, começou a tortura. Humbert está sofrendo, ele é um pedófilo, um cínico horroroso e está recebendo o que merece. Até esquecemos que Lolita não é uma pessoa de se admirar, pois toda a parte I foi escrita para que odiemos Humbert e aceitemos o que vai lhe acontecer. Nabokov protege Lolita assim. E ela não será uma ninfeta até a última página. Ela vai crescer, e não estará traumatizada, nem nenhum mal permanente lhe foi causado. Outra proteção de Nabokov à sua própria obra, e mais uma maneira de o livro não ser exatamente sobre pedofilia, mas sim um livro que INSINUA futuros atos pedófilos que, de fato, nunca ocorrem (pelo menos não à força).

O erótico e o “pedófilo” aqui, são técnicas de construção de personagem e maximização do enredo. Uma vez que isso está concretizado, a obra tem espaço para caminhar e se desenvolver para se tornar o que ela realmente é: um relato sobre amor, sofrimento, culpa e punição.

Nabokov foi criticado por ter feito a parte 2 de Lolita “desproporcionalmente longa”. Eu diria que não só essa parte é propositalmente longa, como esse fato faz com que a junção de ambas as partes possa ser considerada o mesmo romance e não duas histórias separadas. Mais uma vez é o tempo sendo aliado da literatura.

Lentamente o autor vai criando um efeito “fade-in/fade-out” na obra, diminuindo o tom cínico e debochado, os traços pedófilos de Humbert (que nunca serão totalmente extintos, obviamente) e aumentando – tudo muito lentamente em prol da consistência da obra – a dramaticidade e os traços obsessivos do protagonista.

Em uma mudança súbita de tom, com uma segunda parte direta ao ponto, a obra se desmontaria e teríamos uma narrativa na qual seria difícil de acreditar. Assim, o mesmo Humbert do começo, aquele que entrava nos mínimos detalhes sobre seus desejos e impulsos em relação às ninfetas, consegue ser o mesmo que vai até as últimas consequências de uma paixão obsessiva e destrói sua própria vida. O tempo de leitura permite que ele seja ambos e não apenas um, aquele que é apenas vítima do desejo e não do amor descontrolado.

A obra está totalmente apoiada no seu “tamanho”, no tempo em que permanecemos em contato com ela. Sem esse tempo, seriam duas “temporadas” de uma série que não se sustenta.

A segunda parte também é a responsável por tornar a obra um clássico e evitar com que se transforme num crescendo de cenas eróticas e provocantes. Com essa capacidade de permanecer no tema, baixar a temperatura e manter o leitor interessado, Nabokov abre caminho para a possibilidade de se tratar de temas complicados, frequentemente criticados, atacados, e mesmo assim permitir que o contexto valide as temáticas com classe e com uma inquestionável qualidade literária. O velho exemplo do “não é o quê, mas sim como”.

É a capacidade de criar um personagem do qual podemos não gostar, e inclusive podemos odiar, mas mesmo assim continuamos interessados em saber mais, em permanecer na leitura, em acompanha-lo até o fim. Onde, no texto, está essa capacidade de Nabokov? Alguém consegue apontar os lugares que nos impedem de não fechar o livro e desistir da empreitada? Essa capacidade está pulverizada nas entrelinhas e não há como destacar as frases específicas ou o que elas causam fora de contexto. É a somatória de pequenos fragmentos que, juntos, formam sensações e, isolados, não formariam nada digno de merecer um aprofundamento.

Qual a diferença entre um conto e um romance? Isso é tão impossível de responder em sua totalidade como a própria pergunta “O que é um romance?”, mas seguramente uma das coisas que separa um formato do outro é o “tamanho” do texto, o que em outras palavras significa O TEMPO que estamos expostos àquela obra e, consequentemente, àquela experiência.

O romance Lolita é, antes de tudo, uma experiência pela qual passamos, sem a qual não poderíamos apreender os vários níveis de emoções que compõem a obra e, afinal, terminam por defini-la.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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