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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico.

A marca humana, de Philip Roth: ser humano é, antes de tudo, ser falho.

*contém spoilers*


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A literatura americana tem como uma de suas características um certo tipo de exposição de conflitos muito particular, e como não poderia de deixar de ser, a maneira como certos autores criticam pontos “deficientes” da filosofia social do país também é bastante in your face (expressão usada por eles mesmos).

Em A marca humana temos uma espécie de loop, um círculo que se fecha e que é causa e consequência de si mesmo: o motivo pelo qual Coleman Silk abdica de ser negro é em busca de uma liberdade que o preconceito impôs aos que são diminuídos ou desconsiderados pela sociedade, e Silk tenta escapar disso. Um dos pontos de vista é que ele busca uma vida mais digna. O outro é que ele aplica seu preconceito em si mesmo, em vez de lutar por seus direitos.

Ironicamente, no fim do círculo (ou mais para o fim da vida), o que o leva à desgraça é justamente o que lhe deu liberdade no começo. Qual a mensagem mais óbvia? Seria “você não pode fugir de quem realmente é”? Ou talvez “seu próprio preconceito e a incapacidade de se livrar dele será a causa de seu sofrimento”?

O preconceito racial aqui é exposto de forma tão enraizada que Coleman prefere se afastar da família para ser branco, prefere pedir demissão de seu emprego para continuar branco, deixa que sua esposa morra para permanecer branco. É o tipo de crítica feroz americana, tão feroz quanto o nacionalismo que possuem. Escritores americanos, quando decidem criticar as mazelas de seu país, podem ser tão intensos quanto aqueles que, cegamente, o chamam de país perfeito.

Em termos de estrutura literária, Philip Roth arquitetou seu “plano de ação” de maneira igualmente intensa: o ápice da ação, a catástrofe, o drama, as consequências do que será apresentado no enredo, tudo isso será exposto antes. Poderíamos ter um enredo linear, em que tudo começa “do começo”, com um jovem Coleman percebendo aos poucos os desafios e os problemas de ser negro nos EUA e, assim, desenvolver a narrativa para que esta culmine em um final trágico. Seria um ótimo livro, porém menos intenso do que A marca humana realmente se tornou.

O que Philip Roth faz, de forma muito hábil e inteligente, é começar pelo drama, pelo “pior”, pela exposição de um senhor que, por medo de expor sua verdadeira descendência (mesmo aos 71 anos, mesmo em um momento em que supostamente não teria tanto a perder), ainda assim prefere manter a mentira que criou para si próprio tantas décadas antes e enfrentar as consequências terríveis disso.

Com todo esse drama já exposto e vivenciado pelo leitor, a narrativa volta no tempo e começa a história de vida de Coleman “do começo”. Por quê? Porque dessa forma o leitor já está conquistado, está envolvido emocionalmente, socialmente, politicamente, e cada detalhe que ocorre com o jovem Coleman e cada decisão que este toma, estão manchados pelo que já sabemos que lhe aconteceu tantas décadas depois.

O autor faz com que o leitor não consiga não julgar as ações de Coleman quando jovem baseado no que lhe aconteceu no futuro. O nível de tensão, envolvimento e revolta que Roth consegue criar ao longo da leitura é muito maior do que se a narrativa fosse linear.

O leitor não tem como fugir do que sabe, não pode tentar fingir que não “ouviu” o que já lhe foi contado, e essa é a carta na manga desta excelente narrativa.

Em sintonia com a técnica usada por toda uma geração de escritores, Philip Roth também aplica em sua obra o jogo de espelhos que é a proposta do “livro dentro do livro”. Essa ideia, de forma geral, não é novidade agora e nem era na época em que A marca humana foi escrito. Paul Auster já fez isso, Ian McEwan também, Bernardo Carvalho e Chico Buarque já fizeram, além de muitos e muitos outros.

O que ocorre em cada um dos casos de espelhamento onde estamos lendo um livro dentro de outro, e esse outro é o livro que temos em mãos, é a forma como o autor, em cada caso, desenvolve a proposta.

No caso do romance de Philip Roth, o livro parece ser A marca humana dentro dele mesmo, como anuncia o narrador Nathan Zuckerman ao final da obra. Mas essa é mais uma das brincadeiras do espelhamento. Poderíamos considerar que, nesse caso, Philip Roth levou a brincadeira mais longe, porque se A marca humana é o livro que estamos lendo e é, também, o livro que Zuckerman está escrevendo, esses são dois livros similares, porém não o mesmo.

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No livro que nós leitores estamos lendo, Zuckerman conta que está escrevendo A marca humana, mas esse livro pode ser duas coisas diferentes:

a) O livro que será escrito após o final da última cena, quando A marca humana de Philip Roth acaba, ou; b) O próprio livro que estamos lendo e que funciona como uma cobra comendo o próprio rabo, pois o passado está quase sempre antes do futuro e, além disso, não seria um livro biográfico sobre a vida de Coleman Silk, mas sim uma mescla dessa biografia e de um livro de ficção onde Zuckerman é ora narrador presencial, ora narrador onisciente, e onde há um terceiro narrador, esse sim “fora do livro”, e onisciente de verdade.

No caso “b” (se ambos os livros forem o mesmo), este é fruto da imaginação de Zuckerman e não necessariamente a história sobre Coleman é verdadeira, ou até mesmo pode ser totalmente ficcional, transformando Zuckerman em um escritor cujo próprio livro, apesar de parecer se tratar de Coleman, trata da escrita por si só. Sim, é esse o nível de reflexos que o espelhamento de Philip Roth cria, e é por isso que a proposta do “livro dentro do livro” aqui é mais complexa.

Nesse caso, também, Roth levou mais longe uma simples brincadeira de colocar-se dentro do enredo (afinal Zuckerman é o alter ego de Roth), assim como Paul Auster fez em Trilogia de Nova York, quando alguém liga para a casa do protagonista e pede para falar com... Paul Auster. O protagonista então decide entrar no jogo e dizer que esse é seu nome.

No caso acima, a brincadeira acaba aí. No caso de Roth, se Zuckerman está escrevendo um livro onde nem tudo o que ele conta sobre Coleman poderia ser de seu conhecimento, pois Ernestine (irmã de Coleman) só lhe conta certas coisas após a narrativa já tê-las revelado (e essa narrativa é contada por Zuckerman), existe também o espelhamento do tempo: Zuckerman fala, como narrador, sobre algo que só saberá no futuro, como personagem.

Ou seja, na superfície temos uma história profunda sobre questões humanas seríssimas e uma pluralidade raramente vista na maior parte da literatura: o ponto de vista de todos é levado em conta. Por trás da história contada, temos um livro que, em essência, trata de um narrador/autor (Zuckerman) contando sobre como escreveu seu livro ou como escreverá seu livro ou que apenas brinca, literariamente, com a arte de sobrepor ideias narrativas e reflexos literários. Tudo isso enquanto lemos sobre Coleman, Faunia, Les e todos os outros.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico..
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