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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico.

Vulgo Grace, de Maragaret Atwood: o embate entre realidade e criação

Presos entre a imaginação de Grace e a verdade. É ali que estamos.


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O que estaria fazendo Margaret Atwood, autora de distopias, livros sobre sociologia, sobre o poder do dinheiro e das dívidas e mais uma variedade enorme de pontos de vista questionando o ser humano, ao escrever Vulgo Grace, um romance de época? Diversão? Volta às raízes? O prazer de um bom enredo? Mas pensando bem... Será que Vulgo Grace é exatamente isso, um romance de época?

Tendo como pano de fundo o século XIX e a imigração irlandesa no Canadá, Vulgo Grace conta a história de uma suposta assassina, Grace Marks, e de Simon Jordan, que tem como missão analisar se Grace tem algum distúrbio psicológico, e, talvez, descobrir a verdade por trás do assassinato atribuído a ela.

Alternando entre vários tipos de narradores e, consequentemente, entre vários tons de voz, a construção deste romance imediatamente força o leitor a fazer as perguntas obrigatórias quando se lê pelo menos com uma pequena motivação a mais do que só o prazer por um enredo:

- O que estão me contando é verdade? - Quando o narrador/personagem fala, ele(a) fala para quem? - Onde estão as armadilhas da narrativa?

No livro de Atwood estas perguntas são simplesmente obrigatórias, principalmente quando a voz é a de Grace, que narra de duas formas: a primeira em tom de diário, como se falasse para que ela mesma ouvisse; a segunda em seus depoimentos extremamente longos e cheios de detalhes, ironias, humor negro, auto vitimização, sarcasmo, um pequeno tom de desequilíbrio psicológico (vide pergunta nº1) e muitas e muitas outras armadilhas.

No caso desta segunda voz, aplica-se automaticamente a pergunta nº2, e podemos encarar os depoimentos de Grace de pelo menos duas formas:

• Estamos lendo um livro por diversão e esta personagem é chata pois fica horas e horas falando sobre detalhes insignificantes sem necessidade (o livro é um tédio). • Estamos lendo um livro por diversão e TAMBÉM para fazer-nos as perguntas acima e investigar junto com Simon Jordan sobre Grace; queremos também saber por que uma grande escritora como Atwood gastaria tanta tinta (e nosso tempo) para descrever, opinar, ridicularizar ou simplesmente fazer Grace falar “desnecessidades”. Isso nos leva a outro lugar: quem queremos que esteja “ouvindo” Grace? Em outras palavras: quando Grace fala, quem a ouve, DE VERDADE?

• Simon a ouve e nós, leitores, observamos? • Simon a ouve e nós também? • Nós a ouvimos e decidimos, por hora, ignorar Simon?

A grande jogada me parece ser a terceira opção. Explico: quando Grace fala com Simon e Simon fala com Grace, não existe a voz de Simon. É explícito que a voz de Simon está DENTRO da narrativa de Grace, não há diálogo de fato, há Grace contando o que Simon disse. Isso faz com que Simon NÃO EXISTA na narrativa dela. Naquele momento, pelo menos, Simon é uma criação. Existe apenas o Simon que ela quer que o leitor veja. Então podemos concluir que quando Grace narra os diálogos dos encontros com Simon, ela está falando diretamente ao leitor, e não a Simon. A narrativa é 100% a versão dela.

Então, novamente, como em muitos “romances de época” dos dias de hoje, há uma mescla de ousadia moderna com um pano de fundo “antigo”. Jane Austen não narra assim. Charles Dickens não narra assim. George Eliot tampouco. Os verdadeiramente “de época” narram como se narrava na época. 😉

Então vamos à pergunta mais básica de todas: será que Grace Marks é uma assassina? É louca? Ainda não sabemos, mas algo me diz que a resposta não virá em um estilo Agatha Christie. A resposta está sendo construída linha a linha para que o leitor escute o que está sendo dito. Grace pode até estar preocupada com Simon, mas Margaret Atwood parece estar preocupada conosco.

À medida que o enredo do romance vai se desenvolvendo, o que temos presente, literariamente, é um domínio da técnica em um nível microscópico, que mantém o leitor atento ao depoimento de Grace, às dúvidas sobre ela que surgem na análise de Simon e, claro, às perguntas que o leitor se faz: Grace é uma assassina? Grace é louca? Grace é manipuladora?

Margaret Atwood consegue manter um romance em uma constante suspensão, onde nada é revelado, mas nada é tampouco negado. E isso vai ser perpetuando página após página de forma que o interesse do leitor permaneça enquanto pistas são dadas com um tom de pequenas revelações que podem levar a algo maior, mas que na verdade terminam por ser falsos sinais de que algo será revelado. Os tradicionais “sim” ou “não” que o leitor intuitivamente deseja não se definem nunca. E a história vai acontecendo em meio a informações difusas. Um dos motivos para isso é o tom da fala de Grace.

Em minha leitura particular, cada vez que Grace fala com o Dr. Jordan, explicando em detalhes o que houve (e será possível se lembrar de tantos detalhes?) a sensação que tenho é “esta mulher é uma chata, o que ela diz é chato, seu TOM é chato”.

Mas o que faz o tom existir em uma escrita, já que, por princípio, sem a voz falada não há tom? Em meio a esse labirinto, assisti a dois capítulos da série Alias Grace, na Netflix, baseada neste livro. E o tom de Grace é CHATO. Ela soa exatamente como eu a ouço no livro.

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Bem, aqui temos uma questão, um desafio: se esse tom foi parar na tela da TV, então esse tom foi percebido e decifrado. E eis que há uma técnica que transforma as falas em um tom pontiagudo, monocromático: cada explicação de Grace se “abre” em mais três ou quatro subexplicações ou observações antes de voltar ao assunto principal.

Há, quase sempre, um comentário dentro de um comentário dentro de um comentário e assim por diante. Antes que tenhamos tempo de perceber essa arquitetura, Grace já voltou ao assunto principal. Mas logo fará essa abertura de comentários novamente. E encontra-se aí a monotonia, o excesso de detalhes que, ao mesmo tempo, dão a sensação de que a informação dada nos comentários pode ser determinante para se descobrir algo no enredo, mas também parecem não levar a nada.

E é nesse quebra-cabeças que faz parte da voz de Grace que se escondem tanto a sensação de que algo que ela diz pode ser importante quanto o contrário: que se fala muito mas não se revela nada concretamente.

Em sua decisão de entregar se Grace Marks termina sendo considerada louca ou não, culpada ou não, antes do final do livro, Margaret Atwood está também tomando a decisão de mostrar que este livro, esta história, não se trata de dar respostas, de agradar a ninguém. Até mesmo porque a história ficcional é baseada em uma história real e a autora não pode modificá-la em sua essência.

Com isso, temos uma obra com duas características marcantes.

A primeira é ser uma obra “de permanência, de suspensão”. A história, o enredo, os personagens são mantidos em um estado de continuidade não resolvida. O leitor acompanha o processo pelo qual cada personagem (sozinho e em diálogo com os outros) vai vivendo sua vida e vivenciando os fatos que vão se desenvolvendo.

Nesse processo, porém, não há uma linha reta, uma timeline sequencial, pois mesmo que não exista uma volta direta ao passado na qual o tempo e o leitor são colocados diretamente em outra época, as considerações sobre o que acontece no presente são quase sempre dependentes de um relato que depende da reconsideração dos fatos. E cada vez que algo é contado, a lente pela qual esse passado é visto é tingida do olhar de quem relata. E como já havíamos falado antes, não existe uma verdade absoluta nesses relatos (inclusive há muitos momentos em que Grace afirma estar inventando, aumentando ou adaptando fatos).

A segunda característica é que mesmo Vulgo Grace não sendo exatamente uma obra 100% realista – no sentido clássico e literário – ela o é a partir do momento que faz com que a experiência do leitor seja muito próxima ao que seria a realidade da vida: muitas considerações, muitos pontos de vista, declarações que se confundem, manipulação de informações, dúvidas sobre a honestidade, a sanidade e as intenções das pessoas.

A somatória dessas características da vida real, que em um romance tradicional apenas ajudará a concluir uma história e finalizá-la, aqui funciona de modo a mantê-la na lentidão e na falta de um veredito convincente, assim como a realidade fora dos livros geralmente é.

Se fizermos um paralelo com um caso recente, o da acusada e absolvida duplamente Amanda Knox, em que também havia (e ainda há) a eterna dúvida sobre o que realmente aconteceu, mesclado a fofocas, possibilidades de intrigas, sexo, romance, interesses, questionamento da sanidade mental dos envolvidos e uma eterna divisão das opiniões que cercam o caso, veremos que o mundo realmente não mudou em essência. E é nesse sentido que Margaret Atwood faz questão de criar uma obra realista. Ou, em outras palavras, coerente com a realidade.

Mais uma confirmação disso é a “Nota da autora” ao final do livro, em que ela explica o que fez com uma história que já existia, onde manteve o que se sabe, o que é publicamente dúbio, e onde coube ficcionalizar. Mas sem alterar a grande realidade da vida que é, quase sempre, a dúvida.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico..
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