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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico.

Vozes de Tchernóbil: vozes e ecos de uma tragédia

As mortes têm uma causa, mas o sofrimento de tantas pessoas está em outro local: em sua humanidade.


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Talvez o que mais choque o leitor nas palavras de Vozes de Tchernóbil sejam as paisagens descritas. Bosques, céu azul, lagos, campos, animais. Pripyat intocada. E ainda assim, o lindo horizonte se tornou sinônimo de morte.

O acidente na usina de Tchernóbil, em 1986, não foi um acidente. Foi o descaso humano de algumas poucas pessoas que tentaram proteger sua reputação pagando com suas próprias vidas e milhares de outras. Poderiam ter sido milhões, distribuídas por um número incontável e imprevisível de países. A tragédia matou e continua matando, e assim, permanece imortal.

As vozes e os ecos da tragédia se expressam por meio de pessoas que estiveram ali no momento em que o mundo mudou. Desde trabalhadores da usina, passando por habitantes de regiões próximas a Tchernóbil, chegando aos herdeiros do pesadelo, que receberam e carregam esse destino.

As maiores e mais óbvias consequências do acidente nuclear são obviamente as mortes pela radiação e a contaminação de todos os lugares, objetos e seres vivos, criando assim regiões proibidas e o abandono de cidades, lares, existências. Mas a ferida é muito mais funda e mais difícil de cicatrizar devido à ligação do ser humano com seu habitat.

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As pessoas que dão seus depoimentos para a obra de Svetlana Aleksiévitch têm em comum (e todos nós temos isso em nossas naturezas humanas) a dificuldade de deixar de ser quem são, apagar o passado, abandonar seus lares e suas vidas como eram até então e, de um momento a outro, tentar ser outros e não mais quem sempre foram. Se o ser humano fosse um ser “exato”, calculado, emocionalmente “lógico”, sairia da zona contaminada, passaria a viver em outro lugar e sua vida estaria resolvida.

A explosão em Tchernóbil é de natureza “exata”: o reator explodiu, as consequências podem ser medidas em roentgen. Em um mundo de ciência, as respostas e os dados, as estatísticas podem ser respondidas e explicadas. Mas isso não basta e nunca bastará. As mortes têm uma causa, mas o sofrimento de tantas pessoas está em outro local: em sua humanidade.

Além da destruição nuclear, há uma ainda maior: a destruição em vida, aquela que o ser humano entende com sua mente mas não compreende nem suporta com suas emoções. A realidade de abdicar de sua identidade, de ter de abandonar sua história em nome de algo que não compreende ou escolher permanecer onde sempre esteve, permanecer sendo quem sempre foi, insistir em continuar existindo na realidade que sempre concebeu como sua e onde consegue se reconhecer.

Os depoimentos, as palavras, lidam muito mais com o fator humano por um motivo: refazer o reator e esvaziar as cidades é infinitamente mais simples do que refazer as vidas e esvaziar as identidades. Esse acidente, essa tragédia, essa realidade forçada não é possível, e como dizem as vítimas, seria mais fácil se uma bomba tivesse destruído a todos, pois assim tudo seria palpável.

Aceitar, entender e sentir que a morte ronda e ataca a qualquer momento quando tudo permanece intacto, belo e “igual”, é uma realidade que a mente e as emoções humanas não conseguem conceber.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico..
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