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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico.

Quando éramos órfãos: obra aberta, obra fechada

Kazuo Ishiguro nos entrega uma obra na qual podemos contribuir ao completarmos linhas de pensamento, conclusões, criações de realidade.


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Em seu livro de teoria literária Obra aberta, Umberto Eco diz, na página 43 (Ed. Perspectiva), sobre o conceito de obra aberta significando, em oposição a obra fechada, aquela em que o leitor participa da conclusão (entre outras coisas):

[...] o leitor do texto sabe que cada frase, cada figura se abre para uma multiformidade de significados que ele deverá descobrir; inclusive, conforme seu estado de ânimo, ele escolherá a chave de leitura que julgar exemplar, e usará a obra na significação desejada (fazendo-a reviver, de certo modo, diversa de como possivelmente ela se lhe apresentara numa leitura anterior). Mas nesse caso, “abertura” não significa absolutamente “indefinição” da comunicação, “infinitas” possibilidades da forma, liberdade da fruição; há somente um feixe de resultados fruitivos rigidamente prefixados e condicionados, de maneira que a reação interpretativa do leitor não escape jamais ao controle do autor.

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Na interpretação “tradicional” do que seria uma obra aberta, a “abertura” permanece – e talvez seja o momento mais importante – até o final da obra. Afinal, nada mais “aberto” do que reticências (emocionais, psicológicas) no enredo que não conclui claramente, evitando impor que os fatos sejam de uma maneira e não de outra e dando esse lugar ao leitor.

Quando éramos órfãos não se encaixa na clássica definição de obra aberta, pois sua última parte (que se passa em 1953) não é feita de reticências, é um relato de fatos, uma história contada pelo narrador, que também é dono da conclusão.

Então por que estou falando de obra aberta? Porque o livro de Kazuo Ishiguro é construído através de uma estrutura, tanto formal quanto psicológica, de uma obra aberta. É um texto em que a história que verdadeiramente está sendo contada é aquela que não é mencionada. Os personagens, os diálogos, as ações que movimentam o enredo “comem pelas beiradas”, sempre deixando vácuos e lidando com intenções que não se concretizam em finalizações ou certezas. O tempo todo temos uma espécie de atleta que vai até a ponta do trampolim mas não sabemos se salta ou não. O enredo quase sempre corta a cena no último segundo. E essas somatórias de cenas abortadas, o que sobra delas (em nossas mentes) é a história que realmente importa. Se o leitor não preencher essas lacunas de alguma forma (o que é impossível, pois a natureza de qualquer leitor é concluir algo – ou ao menos questionar a sequência), não há a história, o motivo, o núcleo.

Enquanto uma obra “tradicional” se forma na somatória de fatos que vão se interligando, Quando éramos órfãos se forma, em grande parte do tempo, na somatória das dúvidas que são plantadas na mente do leitor e que, sim, também vão se interligando. É dessa forma que o texto demora para tomar velocidade, pois o chão em que caminhamos é mais cheio de curvas e ruas sem saída do que estradas claras. E é com essa mescla que o leitor tem de lidar, tentando ver se algo faz sentido ou não, se algo que aconteceu tem um propósito ou não, se leva a algum lugar ou não. Pode ser frustrante, mas com um pouco de insistência a velocidade começa a aumentar e o final vem com a segurança que a maior parte do texto nos proíbe de ter.

Vale lembrar que a ação do enredo não está acontecendo em tempo real: cada parte em que uma cidade, um dia e um ano são mencionados é o dia em que Christopher Banks está nos contando aquilo, não necessariamente o dia em que aquilo aconteceu. Ele pode estar nos contando no dia em que a ação começou? Pode. Mas pode ser que não. E nada em um livro dessa magnitude é “porque sim”. Há, portanto, reticências nisso também, dialogando com a construção “aberta” que se mantém do começo até 1953, quando a obra de alguma forma se “fecha” e se transforma em uma obra “clara”, em que o dono do texto é o autor e não o leitor. O que Ishiguro parece estar fazendo conosco é dar-nos incentivo de perguntar tudo o que quisermos para depois dar apenas as respostas que ele quer dar, criando assim, quase magicamente, uma obra que é aberta e fechada ao mesmo tempo.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico..
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