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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico.

A filha perdida, de Elena Ferrante: um paralelo em espelhos

Assim como serem humanos, livros também parecem ser dotados de subconsciente.


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Eu deveria começar falando sobre A filha perdida, de Elena Ferrante, mas vou começar por The Appointment, de Herta Muller. Já veremos por quê.

Em The Appointment, Herta Muller propõe um mergulho nas profundezas do sofrimento de uma mulher. Um sofrimento duro, frio e enraizado. Cada palavra tem o propósito de levar o leitor para dentro dessa mulher que se odeia, que por isso odeia o mundo e a todos. Mas, sobretudo, odeia a si mesma. E o sofrimento não vem acompanhado de uma explicação. Ele parece ser intrínseco, da natureza dessa pessoa, e cada vez mais vai tornando sua vida insuportável e escura. Tudo é culpa dela, tudo ela poderia ter feito melhor, poderia não ter feito, poderia ter feito diferente. Em qualquer das opções, o resultado é o sofrimento.

O livro parece ter esse propósito. Não existem desculpas ou encruzilhadas, não existe nada que desvie o leitor desse objetivo. Nada que desvie o leitor desse mergulho e do consequente sofrimento que este vivenciará ao ler a obra. Tudo está às claras. O escuro dessa mulher é bem claro na narrativa. E então temos A filha perdida, um romance que se esconde atrás de outro. Um livro que finge ser outro.

Elena Ferrante é o pseudônimo de alguém que o público não sabe quem é. Alguém que se tornou uma escritora de best-sellers e parece, após um breve olhar pelas capas de seus livros, oferecer uma experiência leve para as massas. Não é isso.

A paisagem é linda: férias na praia observando uma família, uma criança, sua boneca. Um pouco de seus pensamentos, a volta para a praia, algumas coisas começam a ser notadas pela protagonista, os dias vão passando, pensamentos dolorosos, observações amargas aqui e acolá, mas ainda assim ela está na praia, algo vai acontecer. A família recebe mais pessoas. Leda não simpatiza com um, simpatiza com outro, observa como as coisas acontecem, o leitor espera alguma novidade que vem aparecendo no horizonte próximo.

Leda rouba a boneca, mas vai devolvê-la. Há uma espécie de intriga que não sabemos bem qual é, parece que há gente que não gosta de alguém, ou esse alguém está escondendo algo. Será que Leda vai ter um caso? Parece possível. Em breve saberemos.

Leda espera e espera e não entrega a boneca. Ela está demorando. Pedem o apartamento que ela está alugando emprestado para fazer sexo. Ela acha estranho. Ou não acha, não sabemos bem. Ela pede para falar com a moça. Por quê? Vai tirar satisfações? Já, já algo vai acontecer e parece que vai ser complicado. Todo esse tempo se mistura com a própria vida de Leda, que, assim como em The Appointment, tem um DNA complicado, há traumas, há traumas causados, há algo inquietante e tenso. Mas e a família? O que vai acontecer com todo o envolvimento de Leda com eles?

E aí o livro acaba. E nada realmente aconteceu. É isso?

Diferentemente do livro de Herta Muller, a obra de Elena Ferrante é feita de uma narrativa “cortina de fumaça”. Uma história que nos distrai enquanto o verdadeiro propósito vem rastejando por baixo da fumaça. O livro “escondido” é “quase” The Appointment, mas um outro está tentando se passar por ele: aquele que nos conta do dia a dia nas férias de Leda e toda aquela família.

O verdadeiro livro está em cada frase escondida no meio do livro “falso” e que, somadas todas as passagens, revelam o livro “real”: o interior de Leda. Quase o mesmo personagem de Herta Muller, mas disfarçado e, por isso, menos agressivo, mais suave.

A cortina de fumaça permanece por toda a narrativa, com alguns vãos pelos quais podemos espiar. Na última frase, essa cortina some, e aparece o livro real. Leda revela a verdade. Herta Muller sabe do que Elena Ferrante está falando.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico..
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