yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico.

A vegetariana, de Han Kang: a desrealização do humano

O fato é que a desrealização existe no mundo real, então por que não existiria na ficção?


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Nesta obra da sul-coreana Han Kang temos uma nova oportunidade de olhar com mais calma para um dos tipos de análise literária usado em livros teóricos, resenhas especializadas (como o The New Yorker) e diversos autores de romances que, por sua vez, lançam obras analisando outras obras (como o fez Mario Vargas Llosa em A verdade das mentiras).

Não é sempre que oportunidades como esta surgem, portanto aproveitarei para me focar mais neste ponto de vista, assim como no encontro passado me foquei em Literatura Comparada. Em todo este tempo juntos no grupo, nunca uma obra foi tão claramente propícia de se analisar pelo viés da Crítica Psicanalítica como A vegetariana.

Primeiramente, temos que deixar uma coisa clara: críticos literários não são psicanalistas. Portanto, uma vez que se analisa uma verdade ficcional usando livros de Psicologia, Psicanálise ou até mesmo da autoria de críticos literários psicanalíticos, estamos usando as afirmações usadas nestas fontes na forma de licença poética com base em estudos literários. Isso quer dizer que tais análises devem fazer sentido vindo do ponto de vista da interpretação do crítico literário e nunca de uma situação de realidade em que um psicanalista analisa um paciente na vida real. Os conceitos aqui são como guias que devem ser usados com cautela, porém embasados na lógica psicanalítica conforme o teórico literário a compreende.

Apesar de termos um início na obra em que a personagem se recusa a comer carne, sente aversão a carne e sangue, e passa a comer apenas vegetais, logo vemos que o conceito aqui não é sobre vegetarianismo como dieta ou filosofia de proteção à vida animal. Tampouco existe uma situação – mais para o final do livro – em que o caso seja de anorexia. Em A vegetariana, o título parece ser uma espécie de trocadilho com o real significado do que a protagonista está vivendo: ela crê que está virando uma planta.

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Na Crítica Psicanalítica, o ponto de vista teria de ser mais profundo: Yeonghye sofre o que os psicanalistas chamam de “desrealização”. Este quadro (ou evento) se define pelo paciente perder a noção de algum pilar importante da realidade, portanto a realidade se desfaz, se “desrealiza”. E é assim que a protagonista começa: primeiramente se desrealizando, ou seja, deixando de se ver ou se entender como a pessoa que foi até então e acreditando que não é o que acreditava ser. Em um segundo momento, existe a “realização”, que na vida real pode ser a volta ao estado normal, ou uma “realização distorcida”, onde existe a criação de uma realidade que não é verdade, porém é algo que o paciente (ou uma pessoa qualquer) passa a acreditar ser a realidade e a verdade. No caso de Yeonghye, que ela é uma planta.

É importante, sob esse ponto de vista, sabermos duas coisas: 1. Yeonghye não é vegetariana. 2. Yeonghye não é anoréxica. Ela deixou de se entender como uma pessoa, um ser humano, e logo passou a se entender como uma planta. Isso (a desrealização) é um quadro psiquiátrico que existe na vida real e que, certamente, é algo com que os psiquiatras e os psicanalistas/psicólogos lidam de forma diferente em comparação à forma dos teóricos literários.

Sim, existe uma grande discussão de ambas as partes sobre se tais análises literárias fazem sentido ou deveriam ser feitas. De um lado, profissionais da Medicina acham o foco literário irresponsável e bobo; de outro, a arte, com suas licenças poéticas, defende o fato de que as teorias psicanalíticas estão sendo usadas para uma realidade ficcional e, portanto, devem ser (pelo menos fora do mundo acadêmico) consideradas análises sérias, porém fora do contexto do dia a dia de um consultório médico.

O fato é que a desrealização existe no mundo real. É um parente próximo (e mais grave) da contínua síndrome de pânico e é uma ramificação de como mentes alteradas lidam com o excesso de ansiedade e passam a negar a realidade por não a aguentar. Esse é o mundo fora da ficção.

Porém, como são os teóricos literários que vão analisar as obras literárias – e não os médicos –, foram estes que se apropriaram de alguns pontos de vista e aplicaram, em um universo ficcional, analisando uma história e personagens ficcionais, teorias reais de forma a torná-las, também, ficcionais, em favor de uma leitura mais profunda de obras que assim o exigem.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico..
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