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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico.

O som da montanha, de Yasunari Kawabata: a imagem de um Japão sutil

Uma obra de grande beleza, mas não isenta de conflitos humanos e suas simbologias.


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Em quase todas as obras em que o enredo parece não se desenvolver claramente em direção a um lugar específico, ou quando algo que indica um caminho não tarda em mudar a rota, confundindo assim o leitor sobre a intenção da história, componentes importantíssimos entram em cena: o tempo de leitura; o tempo das ações; o tempo da exposição do leitor ao texto; consequentemente, o tempo de formação de personagens, que sempre fará com que pequenas frases, observações e pensamentos, por justaposição com páginas e páginas da “convivência” do leitor com a obra, mais à frente darão significado a esta.

O som da montanha é uma obra multifacetada. Invade o leitor lentamente, como uma garoa rala que, por insistência, penetra no chão mais profundamente do que uma chuva forte de verão. Romance de costumes: - Presente

Relações familiares: - Presente

Conflitos pessoais e interpessoais: - Presente

Questionamentos e crises matrimoniais: - Presente

Senilidade: - Presente

Guerra: - Presente

Vício: - Presente

Agressividade passiva: - Presente

Desejos incestuosos: - Presente

Confusão mental: - Presente

Relação com a natureza: - Presente

Certamente poderíamos citar muitos mais pontos.

Tendo como foco principal e centro da família Shingo, de 62 anos, pode-se dizer que o livro roda em torno de suas percepções e é definido por ele (apesar de Shingo não ser o narrador). O homem mais velho do enredo e desse núcleo familiar japonês dá o tom para que o leitor compreenda a dinâmica de microssociedade à qual somos expostos na obra de Yasunari Kawabata. Afinal, tudo se passa dentro dessa família que vive junta e que, nos poucos momentos em que alguém de fora é incluído no enredo, o faz servindo à dinâmica familiar já estabelecida.

Shingo parece oscilar entre percepções muito aguçadas de seus parentes, ao mesmo tempo em que pinceladas no texto parecem sugerir que ele também “passa do ponto”, no sentido de que possa estar superinterpretando situações ou até mesmo colocando a ponta dos dedos na piscina da senilidade. Estas situações se mesclam. Juntamente a isto, as reações de sua família em relação a ele também são dúbias: ora existe a sensação de respeito, ora de pena, ora de desprezo por este idoso.

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Há claramente dois “itens” de muita simbologia neste romance japonês: as plantas e os sonhos.

Se por um lado as plantas estão quase sempre presentes no mundo real, físico, e a relação dos personagens (e principalmente das percepções de Shingo) com elas é quase lírica (porém no presente), os sonhos fazem um contraponto ao atuarem como uma simbologia que Shingo com frequência atribui ao passado (mesmo que depois reflita sobre eles e acredite que eles são – ou podem ser – um aviso sobre o presente).

As plantas são como uma ponte entre Shingo e a montanha, que o assusta, talvez um chamado de morte. Existe aí uma simbologia de que Shingo não se relaciona diretamente com a montanha (talvez sua morte), mostrando que no caso dele a morte não vem subitamente, ela vem aos poucos, e essa transição se faz pela relação com as plantas, “parentes” da montanha, a ponte que liga a vida (Shingo) à morte (a montanha).

Através dos sonhos Shingo vive experiências relativas ao passado, quase como em uma “revisão” de sua vida, aquela experiência de quem está se despedindo e não tem total ciência disso. Ao acordar, aplica essa experiência à parte dele que se relaciona com a vida diária, mas de uma forma reflexiva que inclui desde reconsiderações sobre seu casamento com Yasuko até seu amor escondido por Kikuko (ambas situações no presente criadas por um evento do passado: seu amor pela falecida irmã de Yasuko).

As simbologias se mesclam com a realidade nesta família que é um mundo dentro de si mesma, incluindo detalhes preciosos sobre os costumes japoneses em muitas esferas: culturais, comportamentais, mentais, emocionais, íntimas, mas, sobretudo, humanas.

À medida que a obra ultrapassa sua fase de desenvolvimento e se encaminha para a segunda e última parte, além do que já foi mencionado o que se destaca são as visões micro e macro dos costumes japoneses e seus efeitos individuais e no grupo familiar como um todo.

No nível micro, ou individual, temos como figura central Shingo, a quem temos acesso direto quase o tempo todo, com acentuações nestes últimos momentos do texto. Este é um personagem complexo, porém com a aparência menos intensa do que seria um personagem semelhante no ocidente, pelo próprio estilo oriental, onde a neutralidade do discurso narrativo, as escolhas das palavras, a forma indireta e “incompleta” de lidar com questões e problemas durante os diálogos diminuem a percepção de fatores que no ocidente seriam intensos e aguçados.

Enquanto em uma obra ocidental tradicional teríamos – na maioria das vezes – certos confrontos diretos, em O som da montanha não existem exatamente confrontos verbais “completos”, mas sim a indicação de que esse confronto existe. As frases são curtas e o diálogo breve.

Mas é ao longo do tempo de leitura e pela recorrência de questões que se pode ver a intensidade interior de Shingo em relação ao que se passa em sua família e seu amor mal resolvido por Kikuko (uma vez que não se tem a completa certeza de que seu amor é por ela ou se Kikuko é uma forma de canalizar não uma, mas várias formas de frustração e incompletude em sua vida amorosa do passado). Logo nas últimas páginas percebe-se que Kikuko também canaliza seus problemas matrimoniais em direção a Shingo e que a situação (seja ela qual for, ou quais forem) é recíproca, mesmo que em intensidades diferentes.

No nível macro, fica muito claro como funciona a estrutura familiar japonesa, principalmente no que diz respeito às responsabilidades, quase todas caindo sobre Shingo, que tenta com insistência resolver as relações de cada membro da família como se fosse (e parece ser) seu dever. Nesta estrutura, Shingo, como o patriarca, não parece ter o direito de zelar por sua vida e de sua esposa somente, mas deve, o tempo todo, tentar resolver as vidas do filho, da filha, e de seus respectivos esposo e esposa.

Nota-se que apenas quando o marido de Fusako é dado como morto (ou considerado assim), é que pela primeira vez ela e seus filhos são chamados de membros da família, no sentido de que agora sim pertencem de verdade àquele lar, como moradores acolhidos permanentemente, e ela é considerada divorciada.

Shingo também fica o tempo todo tentando resolver a questão de Shuishi, da amante dele, da amiga dela, e, claro de Kikuko. E não é só por seu amor platônico por esta, mas por haver uma responsabilidade sua diante de toda a situação. Apesar de estarmos o tempo todo dentro do ambiente físico e emocional desta única família, esta serve também como uma “análise por amostra” do que o autor tenta refletir em relação à sociedade japonesa: como funciona a pirâmide de responsabilidades e deveres, a sequência hierárquica e, de forma indireta, as consequências que isto traz ao psicológico dos indivíduos, aqui centradas em Shingo.

Vale apontar que a relação do texto com as plantas japonesas chega a um nível tão próximo que certamente mereceria uma análise separada sobre quais plantas aparecem em que momentos, quais cores representam que sentimentos, além, claro, da simbologia de cada uma delas não apenas cena a cena mas também em relação à obra como um todo. Seria uma análise interessantíssima.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico..
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