yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico.

O bom filho, de You Jeong-Jeong: mais do que Coreia-Pop

Quando o entretenimento não se restringe a ser apenas diversão.


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Nos últimos tempos, principalmente ao longo de 2020, dediquei meu tempo a ler muita literatura asiática, focando mais na China, Japão e Coreia do Sul. É claro que dentro da infinidade de autores desses países, apenas um ano não é o suficiente, mas de qualquer forma deu para perceber claramente que, pelo menos dentre os livros que temos disponíveis no Brasil, os estilos de cada povo são bem marcantes e diferentes entre si.

Este foi meu quinto livro coreano e também o último dessa leva. Também foi o único que tem uma pegada mais “pop”, menos densa e que não lida com tantas metáforas e significados a serem desvendados. Na contracapa há uma citação atribuída à revista Cosmopolitan: “A resposta coreana a Stephen King”. A contar com qual revista comentou a obra e a qual autor esta a comparou, já esperei um livro de puro entretenimento e bom para se divertir. O bom filho é isso, realmente, mas não apenas isso.

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O argumento central do livro é bem simples: um garoto chega em casa e encontra a mãe morta, assassinada cruelmente, sem saber como isso aconteceu. Pois bem, ao longo das 285 páginas que compõem a obra de You Jeong-Jeong, a escrita é um frenesi de atividade mental acelerada do protagonista em busca de uma infinidade de descobertas e resgate de memórias de sua vida toda até o presente. O livro teria tudo para ser redundante e repetitivo, mas não é. Nem um pouco.

Jeong-Jeong domina o estilo ação/terror com maestria, não deixando que o leitor descanse (e nem queira descansar) por um minuto sequer. Revelações se desdobram a cada página com uma velocidade empolgante e contagiante, em que mesmo leitores que não são necessariamente aficionados do gênero (como eu), se sentem levados pela correnteza de empolgação e adrenalina. Posso dizer isso com certeza pois raramente um livro vai me pegar por essas características. Mas aqui a coisa é diferente.

Os desdobramentos são muitos, um verdadeiro quebra-cabeças se forma no enredo, e a empolgação de continuar lendo vai crescendo. Muitos detalhes do passado familiar do protagonista serão revisitados, reconsiderados e analisados várias vezes, levando em conta como a morte “misteriosa” aconteceu.

A quantidade de hipóteses para a resolução do caso inunda a narrativa sem confundir o leitor, algo raríssimo em escritas com tramas que se entrelaçam. Essa, para mim, foi a maior prova do domínio de Jeong-Jeong sobre a arte de escrever. A escrita se mantém múltipla, porém clara; complexa, porém “limpa”. E mais: é verdade que se você gosta de Stephen King vai gostar de O bom filho. Mas também é verdade que o livro não se parece com Stephen King. Jeong-Jeong tem seu próprio estilo: marcante, seguro e original.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária. Professor e moderador literário. Antes de tudo, leitor e músico..
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