zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

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    OS PERMANENTES

    O dia parecia promissor. Sem trânsitos em câmera lenta a colocar nossa paciência no asfalto e arrastá-la sem piedade. Na repartição, havia o habitual entorpecimento. Como um labirinto, cuja saída está exposta, visível, penetrável, não obstante, uma dose de indolência muito maior parece injetada no espírito; transbordando até o pescoço e sufocando-o, porém causando; na carne, apenas indiferença.

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    James Ward Byrkit | Coherence

    "Acordou uma hora depois. Não sonhara, nenhum horrível pesadelo lhe havia desordenado o cérebro, não esbracejou a defender-se do monstro gelatinoso que se lhe viera pegar à cara, abriu apenas os olhos e pensou, Há alguém em casa. Devagar,sem precipitação, sentou-se na cama e pôs-se à escuta. O quarto é interior, mesmo durante o dia não chegam aqui os rumores de fora, e a esta altura da noite, Que horas serão, o silêncio costuma ser total. E era total. Quem quer que fosse o intruso, não se movia de onde estava."

    O HOMEM DUPLICADO
    José Saramago

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    SUN RA | O JAZZ VINDO DE SATURNO

    Para alguns o jazz – assim como a música clássica – representa um grau de excelência artística que evidencia os caminhos irreversíveis que o homem alcançou na arte. O gênero que mais se metamorfoseia - como a própria condição humana - encontrou ao longo dos mais de cem anos, diversas faces e seres revolucionários que – ao contrário de outros gêneros – não delimitaram os limites matemáticos da criação e sim o esticaram rumo ao que os poetas chamam de infinito.

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    A SOLITÁRIA DISTORÇÃO

    Naquela manhã, recomeçava uma trágica distorção no tempo da professora Sílvia Granados.

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    O RETRATISTA OCULTO

    Antônio Cesti era um talentoso retratista urbano. Sempre no ônibus, na ida ao trabalho, conversávamos sobre o cotidiano. Aquele ambiente era um perfeito painel para seus esboços. Dizia-me. Certa manhã, de trânsito engasgando a avenida como um pedaço de carne preso na garganta de um velhinho langoroso, Cesti revelou suas razões. Ouvi atentamente.

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    A FOTOGRAFIA EQUATORIANA DE HUGO CIFUENTES

    "O céu é água que está em tempo passado. Que em pedra fugaz às vezes volta para ser nomeada. Mas aqui o ofício de ordenar o mundo com palavras, de dar vida às coisas, muitas vezes de costas ao ouvido, é só a certos homens que têm uma aliança com os deuses. Que recobram seus corpos em a mensagem que decreta a vertigem e os sonhos. A terra então, estranha, indestrutível, começa a fazer sua forma num reflexo. Começa a ser sitiada."

    Ernesto Carrion (EQU)

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    O OBSERVADOR INESPERADO

    Naquela tarde – entre um café que gerava nuvens brumosas pela sala e se chocava com frívolos ventos de chuvas vindos dos descampados – o menino Hilde ouviu falar do tal telescópio Hubble.

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    DESTRÂNSITO

    A união de intermináveis vazios assola minha alma. Fragilidade que percorre as artérias e sai pela boca consumida. Detritos que rasgam a pança de um confim que cansou de ser imaginário. Ah! Como é infindável esse deserto. Era como se eu percorresse todas as almas solitárias dos poetas com pés sepultados na minha própria sombra e descesse pelas paredes - antes de vidro - dos sonhos envidraçados. A fumaça dos carros no caminho para o trabalho me alucina e me perco na contramão de mim - lambendo o infinito - com uma língua cheia de espinhos translúcidos.

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    A FOTOGRAFIA AVANT-GARDE DE Ilse Bing

    Se houve um país - no século XX - onde a fotografia travou um profundo desenvolvimento técnico, estético, poético e não menos filosófico foi a França. Mais precisamente em uma Paris desbravada por luzes vanguardistas elementares, desenvolvimentos conceituais do universo urbano. Uma investigação quase científica da sociedade, do homem, da vida parisiense antes nos meados anteriores à segunda guerra. Claro, em todo aquele século. Gente como Andre Kertesz, Henri Bresson, os surrealistas, o cinema, a arte em si em profusão.

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    AS SÁTIRAS SURREALISTAS DE Angel Boligan

    "É impossível separar o humano de seu ambiente material,
    assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atribui sentido e ao mundo. Da mesma forma, não podemos separar o mundo material - e menos ainda sua parte artificial - das ideias por meio das quais os objetos técnicos são concebidos e utilizados, nem dos humanos que os inventam, produzem e utilizam."

    Pierre Lévy

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    Jeronymo Monteiro | A VANGUARDA DA FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA

    O termo ficção científica surgiu pela primeira vez na revista Amazing Stories nas ideias do editor e também escritor americano visionário Hugo Gernsback. Isto em meados dos anos vinte. Não obstante, os primeiros passos se deram na Europa em franca expansão industrial, precisamente na Inglaterra, também na França. Este representado por Julio Verne e aquele por H.G. Wells no século dezenove. Além dos trabalhos Mary Shelley. No Brasil, ganharia estrutura e bases sólidas na obra de Jeronymo Monteiro, no século XX.

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    A AUSÊNCIA DIMENSIONAL

    Um redemoinho de razões ameaça as pequenas casas de areia da poesia. Um vendaval de sensações abraça a razão pela cintura e geme de confortos múltiplos. Na releitura do tempo, descampados e pântanos parecem ser as avenidas principais. Solares edifícios e gélidos tratores restauram o caminho lúcido. Na volta para a casa, um colo espontâneo reescreve a eternidade todos os dias. Quem na insana montagem das horas esqueceu a si mesmo como peça principal?

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    A CRÔNICA BÓSNIA DE IVO ANDRIC

    Muito antes dos terríveis conflitos na década de 90, a região da Bósnia já travava – dentro de sua própria condição histórica – momentos onde a paz se dava através do sangue, de exércitos, golpes e impérios. A península balcânica ou Bálcãs - apesar de sua exuberante beleza natural - tem em seu passado grandes dilemas políticos e territoriais travados. É neste contexto que nasce um dos maiores escritores do século XX, Ivo Andric.

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    A NATUREZA ABSOLUTA NAS ESCULTURAS DE Alberto Giacometti

    "Alberto não se preocupava com o quadro como uma obra isolada, objetiva, a ser apreciada como tal. Isso só interessava a mim. Ele só olhava o quadro como um subproduto, por assim dizer, de sua luta sem fim para retratar não simplesmente um indivíduo, mas a realidade."

    James Lord

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    A ONÍRICA PERMANÊNCIA

    "Então as fotografias da infância. A primeira bicicleta onde conheceu a lúdica velocidade da luz dos sonhos. O abraço sempre jupteriano da mãe e a distância - como uma carta jamais escrita - do pai. Voltaria para o núcleo, nadaria de volta ao útero da insignificância histórica. Cometeria o erro da inlucidez, o pecado do lúdico. Aquele livro nunca iniciado. As duras palavras para o parente confuso, o desprezo para com aquele amigo, hoje, imaginário. Desde criança temia a água - agora compreendia - tinha razão, era um solitário afogamento filosófico para um monólogo jamais notado no dia."