zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

A Reinvenção do Cinema por Andrei Tarkovsky

Assistir um filme de diretor-poeta Andrei Tarkovsky é conhecer um pouco de Deus numa intimidade que dependerá do grau de profundidade que você queira ir. Seja ele quem for e seja você quem for.


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Desde quando me entendo por gente aprecio cinema. Sempre me fascinou uma arte tão poderosa e completa, difícil, explendida, arrebatadora. Era do tipo que fazia grandes e controversas listas de filmes e mostrava para os raros amigos que poderia dividar meus gostos e “teses” cinematográficas.

O desvendar foi progressivo. Passando pelo chefão de Francis Copolla ou pelo seu Apocalipse Now, pelo grande Amadeus de Formam, o cultuado Lawrence da Árabia do David Lean ao genial 8 1/2 do Fellini etc. Todos figuraram na minha lista e marcaram minha existência, sim, cinema é algo que é capaz de marcar a existência e tem o poder de mudar a visão de mundo e das coisas e redefiniar certos rumos e maneira de mergulhar nos intantes e é nesse sentido que conheci aquele que para mim sintetiza tudo de mais belo, sagrado e genial que sempre esperei que o cinema pudesse chegar. Andrei Tarkovsky.

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O russo, filho de um atriz e de um pai poeta traduziu em seus sete filmes o potencial poético que tanto é caro a literatura ou a música. Seu cinema estabelece dois dilemas básicos que ainda nem sequer foram discutidos com a devida atenção: Um deles diz respeito ao próprio significado existencial dessa arte. O cinema é um trabalho de imagens mas que carrega em si a virtude de agregar todas as outras linguagens artísticas em sua montagem, nascendo uma arte em estado bruto. cheia de significância e variantes. Mas o próprio cinema se torna refém de uma certo reduzicionismo banalizador, quando parte de sua linguagem é ignorada e seu potencial poético de imagem se transforma numa máquina de “contar histórias” distraindo e ocupando os “desocupados” em nome da arte.

Os filmes de Andrei Tarkovsky restauram o ideal de um cinema que parece que foi pensado em seus mais íntimos detalhes. Um cinema que explora com gama de possibilidade a imagem e constroi em si a 'mise-en-scène' em significados e signos na própria execução da cena, saindo dela rumo ao ato da vida. Pulando para fora da tela. (vide a cena final de Rublev, a cena com as maçãs em Infância de Ivan)

Se o cinema do diretor se conecta com a linguagem que é cara ao cinema, que é a narrativa de imagens (agregando) pra si a literatura, a música, a fotografia, absorvendo dessas artes uma arte única e sim CINEMATOGRÁFICA (estabalecendo o cinema como uma arte autentica e independente) cria-se o dilema que seus filmes ao mesmo tempo que estão há frente da história do cinema (um cinema das próximas décadas) ao mesmo tempo estão antes da própria invenção do cinema, são filmes do século XVI, XVII. Como?

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O cinema de Tarkovsky é um cinema maduro, trabalhado em todas as frentes narrativas, diálogos e teatralidades remetendo à uma arte saturada ( o que o cinema ainda não é) seu cinema explora possibilidades poucos vistas (construções de cena onde objetos e sons criam metáforas que dialogam com a ação que também se estabelece como uma poesia sendo declamada em imagens onde a palavra é esculpida com paciência). Em outras palavras, a arte fílmica do russo é tão concreta que só encontra paralelo em Bergmam mas que coloca o cinema anos a frente mesmo parecendo que ele (o cinema) precisaria de séculos para chegar nesse patamar. Exagero? creio que um fato que merece discussões sérias.

Tarkovsky para mim reinventou a arte do cinema, porque sua linguagem é única, não só pela beleza das imagens, pelos diálogos com poesia, pela música de Bach (em Sacrificio) ou a “reles” (genial cena) do jogral com Rublev e apenas uma camera ou pela perfeição de algumas cenas que estão entre as mais belas da história do cinema (a cena final de Nostalgia por exemplo) mas pela pureza com que cada cena é construida numa linguagem que todos sabemos que é cinema mas que ninguém havia explorado com tanta sabedoria e sensibilidade.

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O cinema já rendeu grandes autores e alguns filmes estão impreganados no nosso imaginário para sempre, com belas histórias, cenas, diálgos, música, sentido, mas poucos pegaram nas mãos dessa arte e elavaram sua importância aos patarames de uma arte genuína, poética, espiritual, cara aos grandes mestres da literatura e da música, inigualável como as grandes obras de inteligência humana, única como as proezas dos mestres.

Assistir um filme de diretor-poeta Andrei Tarkovsky é conhecer um pouco de Deus numa intimidade que dependerá do grau de profundidade que você queira ir. Seja ele quem for e seja você quem for.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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