zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

Jeff Mills além das fronteiras cósmicas

um olhar sobre duas obras primas cometidas pela lendário produtor Jeff Mills, onde The Power e 2087 fazem releituras techno futurísticas de clássicos da literatura psicodélica de HG Welles e Arthur C. Pierce


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Se para a ciência, o universo ainda é um mistério fascinante e desafiador, para Jeff Mills é a matéria prima necessária para percursos inacreditáveis, tendo o Techno (a música dos nossos tempos) como base para seus cálculos astronômicos.

O lendário produtor de Detroit é um aficionado por ficção cientifica e falando mais expecificamente, por The Sleeper Awakes. Um romance de HG Welles sobre um homem que dorme e acorda num futuro distante numa Londres longínqua. E parece ser esse futurismo pensado; os mecanismos do intrigante mergulho Techno-cósmico de The Power, um dos discos mais desafiadores dos anos 00.

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Se The_Occurrence (2010) Mills já excursionava pelas mais profundas anti matéria sonoras, cometendo um dos discos mais fascinante dos últimos anos, The Power não contem nenhum rastro de gravidade, Mills parece pilotar por dentro de um vácuo Hi-Tech indomável onde observamos – chapados – a colisão das galáxias e luzes incapazes de resistir aos mais indomáveis buracos negros.

Faixas como “Hallucinations” são verdadeiras peças desafiadores e mostra o controle mítico sobre todas as moléculas do seu próprio delírio. “The Exchange” nos arremessa em névoas metálicas fantasmagóricas. “"Microbe” chapa com sua ambiência para pista horizontais que sedutoramente nos toma com elegância. “Máquina Contact” é um exótico monólito abandonado por civilizações de incalculáveis anos luz de distância. São algumas das faixas que resetam nossa percepção de realidade e nos convida ao transe.

Se Jeff Mills fosse o personagem do livro “The Sleeper Awakes” diria que ele não dormiu mais de 200 anos como o herói e sim, viajou até mais extremas fronteiras do cosmo e lá produziu peças formadas com desconhecidas leis da física; Já dentro de sua capsula em nossa planeta, despertou com esse mais novo artefato: Atemporal como as grandes singularidades do espaço.

Já em 2087 o ser humano é proibido de pensa por si mesmo e todos são controlados pelo governo, essa é a base para Cyborg 2087 – filme dirigido por Franklin Adreon em meados dos ano 60 e foi a inspiração necessária para o mestre Jeff Mills assinar mais uma inacreditável obra de arte do Techno.

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Se o cyborg criado por Arthur C. Pierce para a película volta do futuro afim de evitar que uma descoberta coloque em risco o futuro da humanidade, Jeff Mills parece residir lá, nas extremidades do tempo, nas dimensões longínquas de um futurismo minimalista centrado no Techno; para abrir complexos dispositivos onde só ele sabe decodificar sua linguagem.

O ano é 2011 e “2087” é um mergulho num antídoto de acidez metafísica, onde nossas sentidos em miniatura, passam a fazer parte de um intricado jogo de percepções; no meio, nossas coordenadas apontam para extremidades exóticas, feixes sintéticos que preenchem os mais diversos campos do nosso sistema nervoso, nossa atividade cerebral é uma cobaia para experiências inigualáveis, onde o mestre ergue camadas sobrepostas que se diluem nas taças do tempo; recombinando movimentos, samplers progressivos saem dos poros das moléculas sonoras, fascinante delírios de repetições fragmentárias, andamentos que seguem pistas não lineares que desafiam as leis do movimento e o desmontam na pista, onde voltamos lisérgicos de nós mesmo, (ouça Programmed To Kill e entenda) tudo sob a batuta de uma lenda…Jeff Mills.

Obra de arte.

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João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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