zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

O Artista não veio para impedir uma guerra


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Muito já se falou sobre um dos maiores artistas mexicanos que faleceu agora no final de 2014. O ator Roberto Gómez Bolaños, criador de personagens que embalaram a infância de muitas gerações, onde a simplicidade dos gestos, que lembra muito o de ícones como Charles Chaplin, encantou muito, ao ponto que sua morte causou grande comoção em vários países. Mas, a verdadeira relevância do artista está para além das piadas, está no olhar que ele deu para um dos países mais problemático da américa, o México.

Sofrendo com gravíssimas crises sociais, que inclui uma alarmante desigualdade e uma crescente violência, que consegue em alguns casos, superar a do Brasil, um país absurdamente violento. Em 1994 o México entrou para o NAFTA (Área de Livre Comércio da América do Norte) o que a princípio poderia parecer bom para o povo se mostrou pouco tempo depois um tiro no pé. Como sua econômia iria concorrer com Estados Unidos e Canadá? dois poderosos membros do grupo? a Revolta de Chiapas foi um dos pontos importantes nesses conflitos de interesses que isto se tornou. E nos últimos anos, tudo têm se agravado. Grandes cartéis de drogas tornaram as fronteiras mexicanas locais nebulosos. Sujeitos fortemente armados e índices de homicídios escabrosos, soma-se a isto o desemprego e o baixo crescimento econômico. Sejamos justos, o país até conseguiu uma leve melhora no último ano mas está longe de ser o que poderia ter sido em termos sociais.

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Quando apresentou na década de 70 seu personagem, talvez Bolaños não acreditasse que chegaria tão longe, por tantos anos à tantos países. Retratando a simplicidade de uma vila, as frágeis relações humanas, os problemas financeiros e a pequena realidade desigual do povo, ela acabou conquistando muitos fãs. Talvez por encontrar no personagem, uma espelho de uma terrível realidade vivida pelo cidadão. Mas, Chespirito não tinha a intenção de ser nenhum revolucionário. Roberto Gómez nunca foi um grande ativista das causas mexicanas, sempre permaneceu em sua real dimensão, um artista. Como o grande escritor Octavio Paz ou Frida Kahlo por exemplo.

E é neste contexto que o papel do artista se releva necessário e onde fica sua verdadeira significância. Claro, nada impede que um escritor, ator, musico, poeta, saia às ruas a proteste contra o governo e as mazelas sociais mas ele não deixará de ser menos artista se o não fizer. Para Nietzsche a arte existe para que a realidade não nos destrua, seu papel não é de exatamente mudar o mundo, impedir as tragédias entre os homens – sabe-se que Hitler tinha a obra completa de Shakespeare em sua biblioteca pessoal por exemplo – Como disse o poeta Roberto Piva: Baudelaire, o Artaud, o Gottfried Benn e o Georg Trakl não impediram Auschwitz. Mas poderiam?

A comoção e a tristeza em torno da morte de Roberto Gómez é válida e sincera em muitos casos. Claro, prato cheio para que a mídia sensacionalista ou a “sociedade do espetáculo” surfe e muitos vão nessa onda, fala-se agora até na divisão da herança e dos direitos sobre os personagens criados por ele.

Aqui no Brasil nos habituamos a encontrar o ‘el chavo’ ou simplesmente “Chaves” todas as tardes na emissora do Sílvio Santos, lá é um dos programas de maior audiência de uma TV que tem seu público fiel apesar de ter uma programação por vezes, sofrível. Uma parte da nossa geração cresceu rindo das piadas e tiradas atemporais do garoto que mora num barril (como Diógenes, o cínico)- muitos aqui no Brasil só tem um papelão para se cobrir do frio - Vida e arte em diálogos pertinentes novamente.

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(Essa fotografia foi publicada por Roberto Rodriguez e é do garoto que inspirou a criação do personagem)

Roberto Gómez Bolaños se foi, a arte criada com Chespirito ainda deve embalar e fazer rir muitas gerações. Seu papel foi de encantar, fazer sonhar, contar uma dramática realidade de um problemático país com bom humor e sensibilidade, mas não o impediu este lugar de ser tão desigual, tão cheio de contrastes. Ter assistido suas belas criações como ator não evitou que toda uma geração se perdesse. Definitivamente, o artista não veio para impedir uma guerra mas a arte de traduzir a realidade, seja ela qual for, é um dos seus mais nobres papéis.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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