zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

Alice In Chains | 20 Anos de um Clássico Escondido

Becos escuros, cheios de personagens excêntricos e sombrias e cinzas paisagens em tons angustiantes saem dos riffs melancólicos de Jerry Cantrell; enquanto Layne Staley, destila letras perturbadoras pelos espaços repletos de camadas que vão sendo construídas nas órbitas tempestuosas desse disco homônimo, última obra de estúdio com o talentoso vocalista.


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O Alice In Chains surgiu em meio à cena alternativa de Seattle, no final da década de 80, construiu um irretocável nome, ou melhor, uma assinatura jamais replicada. Seu peso e suas letras remetem ao caos interior de uma juventude sedenta e seus discos, faziam e fazem, a cabeça de quem procura no rock alternativo a arte e não apenas refrões descabeçados.

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O terceiro percurso na discografia do Alice caminha entre paredes movediças - como uma locomotiva se arrastando - adentrando sons noturnos: Garrafas de vinhos espalhadas pelas calçadas, cheiro de urina se dilundo em goteiras ensurdecedoras que remontam, nas memórias, tempos ainda cristalinos porém, apenas vistos nesse instante como uma tenebrosa distância, em sua riqueza de detalhes e personalidade, penetrando as vielas do esquecimento.

Faixas que traduzem, talvez, o último soluço do grunge pós-Kurt, guiadas pelo vocal raro e distorcido de Staley. Este deslizando pelo som dos guetos urbanos das madrugadas à procura das razões de si mesmo e dos seus ao redor. O tom de despedida entrelaça a caminhada e o disco se esculpe com paciência. Solos improváveis emergem por riffs dissonantes, pertencentes ao lado mais esquizofrênicos de um Black Sabbath, alternando em canções mais urgentes da fase inicial, tovadia esta, praticamente abandonada nesse trabalho rumo a um fim reinventado em pequenos épicos grunges apocalípticos.

Há de se ressaltar: O grupo deu seus primeiros passos numa mesa de bar, ainda em 1987, no inusitado encontro de Cantrel com o quase sem-teto Layne Staley. Formaram em pouco tempo a 'Diamond Lie' e anos depois trocaram de nome, lançaram discos seminais como 'Facelift' em 1990 - para alguns a primeira obra prima do grunge - e 'Dirt' em 1992 está, uma obra de arte do rock alternativo dos anos noventa.

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Da meticulosa abertura com “Grind” onde o vocalista pede para escutarmos o som de nossa “voz interior” aos rifss arranhando a guitarra em “Brush Away” onde o frontman canta sobre suas fraquezas e se pune por isso. Confissões lamaçais de “Sludge Factory” entrecortadas com pequenos solos vampirescos que ficam no limiar desértico de uma noite trêmula, desaguando na quase premonitória e genial ‘Over Now’. Layne compôs a maioria das faixas - o que não era tão comum na discografia até então - e foi seu orientador estético. Nascendo um petardo de algumas toneladas – Não tantas quanto nos discos anteriores.

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Acompanhar sua atmosfera por entre ruas soturnas, amargas audições de diálogos impertinentes, sob o efeito de madrugadas vazias, regadas a canções viscerais e poderosas, prontas para serem consumidas pelo lado escuro das melodias retorcidas em nossas mentes.

É Conhecer o universo turvo do último disco sob a batuta de um genial Layne Staley - um dos melhores compositores do rock alternativo americano da década de noventa - e também um pouco da história de uma banda lendária. Um grupo que lançou alguns dos melhores discos de sua geração.

Layne Staley após o falecimento de sua noiva, acabou entrando num limbo de solidão e afastamento. O trabalho lançado em 1995, acabou refletindo a ressaca do grunge pós-Nirvana, ao mesmo tempo em que foi o mais experimental e acústico do grupo e o mais internamente explosivo, no iminente eclipse das relações e da disfarçada ruptura entre os seus líderes – relação tênue essa que refletiu em algumas das faixas.

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Esse álbum seria a cereja do bolo de genialidade do grunge e também mostrou um lado mais nebuloso e hermético da banda; na construção emaranhada de texturas de sua sonoridade e na complexa reverberação de um rock que se ergueu como nuvens recheadas de turbulentas poesias dissonantes que permanecem fixadas em nossas mentes, há vinte anos.

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João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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