zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João Roc

Apenas um homem inadequado

Canções de Amor Já Nascem Velhas

“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos”. | CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


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Não vou criticar quem escreve e canta o amor. Um sentimento tão universal e tão impregnado de significados não pode ser satirizado. Todavia, parece-me, aos meus ouvidos; que as canções de amor de hoje – tornaram-se - um grande aglomerado de clichês, na forma, no período, na rima e na própria expressão do autor, serão as canções de amor de hoje, arte?

Será que de fato existem sentimentos, nesses colossais vezos, de cantar os corações partidos? E nas cantigas sobre amores perdidos e grandes romances sendo escritos nos ombros da história contemporânea? Parece-me que não. Porém, acredito que seja um gesto natural de quem se atreve a escrever música (para ficarmos apenas neste campo da arte). A composição romântica nasce quase inconsciente, pura de expressão, às vezes atrelada de fato às perdas, às vezes, apenas, por não saber se comunicar, de outra forma. Senso crítico para quê se a dor invisível é densa é não cessa?

Por outro lado, essas canções emanam em muitos casos um cunho, puramente, comercial. Algumas discografias são simplesmente detentoras de apenas um tipo de canção: Canções sobre amor. Alguns artistas simplesmente, ao que nota-se, ignoram qualquer motivo que possa levar, suas músicas, ao banal, ao sofisma, ao plágio constrangedor e caricaturado.

O tema é explorado como se fosse novo. O que importa na verdade é a melodia, mas convenhamos, nesta não há qualquer elemento novo. O que restam aos ouvidos? Acreditar que aquilo é profundo. As vozes, às vezes, os berros, as veias pulando sobre o microfone, o choro, oculto é verdade, mas que ensopa os corações desavisados. Não importa. Aquela, nova-velha canção, embala àqueles que querem ser embalados e ponto.

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Quando surgiu, em meados dos séculos XVIII e XIV, a música romântica vinha de encontro ao Classicismo. Este com um ideal de música pura, de controle das emoções, de refinamento das ideias. A música romântica buscava então quebrar essa estrutura rígida com subjetivismo, uma carga emocional tensa, delicada, catártica em seu mergulho pelas dores do mundo e de si mesmo. Entretanto. Não estamos falando da história da música, nem de suas brilhantes formas eruditas. Estamos falando de música popular, da música, como ela se tornou - em alguns segmentos da nossa sociedade - um produto pronto, ou, um subproduto, para o entretenimento.

A chance de criamos hoje, em pleno século XXI, uma canção de amor, que alguém, em algum momento da história, já tenha criado, é imensa. Mas você me perguntaria: Por que a preocupação obsessiva com este fato? A inovação está acima dos sentimentos? Voltaremos aos modelos clássicos? Não. Respondo que não é exatamente uma preocupação e sim uma constatação.

As canções de amor, se não for buscada no âmago de um novo olhar, já nascem velhas, antigas, banais, tolas e na maioria dos casos, não emocionam, talvez porque, simplesmente nem o autor tenha vivido a história que canta. Se, para alguns, a arte necessita do sentimento real da criação, para ser, validada; O que temos então na música puramente comercial é um apanhado de barulhos codificados pela indústria, lacrados pelas cifras, não dos acordes dissonantes e sim do dinheiro, hodiernamente fria, no visceral sentido do ser que a criou.

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Poderia também falar daquelas músicas com ar de modernas. Interessantes construções tonais, vocais bem distribuídos. Metais e pianos intercalando o ambiente com elegância. Muitos artistas da música popular brasileira trabalham assim e tem o respeito de críticos e adoradores. Mas, nem eles conseguem fugir da obviedade das canções de amor. Ocorre-me talvez, que toda essa elevação de virtuoses melodias e instrumentações, servem, para maquiar uma canção grisalha. Uma letra cantada milhões de vezes: A perda, a solidão do fim do relacionamento. A traição, a paixão passageira, o amor platônico ou idealizado. Metáforas como uma máscara, uma cabeleira sobre os manequins do elementar. Do velho recurso da poética do amar e ser amado, ou não.

Nem tudo deságua no universo clichê do amor. Ainda bem. Alguns artistas falam de política, filosofia, problemas sociais e uma infinidade de outras possibilidades. Devemos então parar de falar de amor? Este artigo é uma ode às canções de amor? Não.

Só gostaria de encontrar, como uma pedra no meio do caminho, alguém que cantasse o amor como nunca ninguém jamais cantou.


João Roc

Apenas um homem inadequado.
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