zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

dez atuações marcantes que não ganharam o oscar (parte i)

A premiação da Academia, ou resumidamente, o Oscar, já cometeu ao longo dos anos grandes injustiças. Talvez pelo imediatismo midiático, talvez por razões obvias, é apenas uma premiação e como todo o concurso onde apenas um vencerá – em cada categoria - cria-se a polêmica e a controvérsia, inevitavelmente.


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Confesso que minha pequena e humilde lista de atores e atrizes seria, a princípio, sobre dez atuações marcantes de vencedores da estatueta, todavia, parece o meu gosto mais próximo daqueles que não obtiveram êxito, ou ainda mais, nem foram sequer lembrados. Perdoe a falta. A verdade é que nos últimos vinte anos – pelo menos - os prêmios entregues pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles em muitos casos, são mais frutos da máquina financeira que se tornou Hollywood, do que exatamente pelas contribuições cinematográficas de seus artistas.

Comecemos.

Erland Josephson em Offret | Dir: Andrei Tarkovski

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No último filme do mestre Andrey Tarkovski, uma atuação atemporal do sueco Erland Josephson no papel do patriarca Alexander. A pintura de Da Vinci, a música de Bach, um mundo desabando por sua cabeça e chamando Nietzsche para uma conversa sobre o eterno retorno de nossas reverberações existencialistas. Josephson mergulha no universo em profunda crise, não pessimista e sim de uma realidade que não poderia ser ignorada: O que estamos a fazer com este mundo? Resta-nos aceitar a atuação desconsolada de Erland como um prenuncio elementar de nossas próprias vesânias.

Marcello Mastroianni em 8½ | Dir: Federico Fellini

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Não, não poderia deixar de falar em um dos melhores, talvez o melhor, momento da carreira deste gênio, na pele do lunático Guido Anselmo na obra prima de Fellini. Marcello Mastroianni, sejamos justos com a academia, foi indicado três vezes ao prêmio, mas ironicamente, não por esta atuação ímpar. Um cineasta em escassez criativa que se desconstrói. Um desatinado fugitivo de suas próprias divagações. A iminência da queda, num vazio, ao mesmo tempo as memórias do passado, família, o mundo querendo engoli-lo com sua veloz pressão e um bando de atores saídos da mente vultosa de um Fellini, bom, saíram! Que atuação! que cinema!

Dirk Bogarde em Mort à Venise | Dir: Luchino Visconti

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Quando Luchino Visconti chama Thomas Mann para um café, as discussões filosóficas sobre arte tendem a se estender por toda a eternidade. Neste trabalho, o genial diretor italiano convida o sensacional Dirk Bogarde para viver o compositor Gustav von Aschenbach. Algumas pessoas torcem o nariz para o projeto cinematográfico de Visconti em recriar na película, uma das obras literárias mais caras do século XX. Mas a atuação do londrino Bogarde escancara o artista em profusão, na tênue relação de sua arte com a vida e as pessoas. A beleza como encarnação do calor criativo quebrando a gélida estrutura pela estrutura. O que seria arte? Um espectro natural?

Toshiro Mifune em Shichinin no Samurai | Dir: Akira Kurosawa

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O olhar cinematográfico do mestre Akira Kurosawa era de uma singularidade poucas vezes sentida na história do cinema. E isso foi encarnado com maestria pelo ator chinês Toshiro Mifune na alma do quase samurai, quase bufão, Kambei. Este se torna em pouco tempo, uma lenda de superação e expressava o desejo, oculto, pela aceitação inconfessável. Alguém procurando no meio do caos, sua identidade. Almejando provar, para si mesmo e para todos, que merecia o respeito e por ventura, a admiração. A cena da batalha final, filmada entre a tensão e as brechas de uma cabana, a poética e a atmosfera lúcida e cirúrgica de Kurosawa, é a certeza de estarmos diante de uma obra prima. O olhar de Mifune nos releva da mais doce à assustadora certeza humana.

Anthony Perkins em O Processo | Dir: Orson Welles

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Provavelmente você conhece mais este talentoso ator americano pelo clássico “Psicose” do mestre Alfred Hitchcock, atuação que merecia inegavelmente a premiação. Mas talvez alguns não conheçam Anthony Perkins na obra de arte de Orson Welles, o Processo. Sim, Perkins encarnou o Joseph K, do monstruoso, Fraz Kafka. Se para o romancista tcheco, a influência foi o autoritarismo, Welles versa sobre o macarthismo, o sistema jurídico e suas injustiças e a febril sensação de controle social. Ninguém poderia ter encarnado com tamanha precisão e equilíbrio este personagem. O preto e branco, as licenças poéticas, a paranoia do sistema, o olhar descontrolado buscando o chão, as portas, as incertezas, os labirintos kafkanianos.

O espírito incomparável de Kafka, encontra na extraordinária releitura de Orson Welles, aquele momento em que o cinema esta imerso no transbordamento de ser, inegavelmente, uma encantadora linguagem.

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Em breve a parte II.


João da Rocha

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