zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

HAITI – A RESISTÊNCIA DA ARTE

Janeiro é o mês de comemoração da independência do Haiti. Sua relevância histórica é um painel de lutas progressistas e de heroicas batalhas rumo à libertação política, cultural, humana. Sua arte singular e profundamente surpreendente, foi reunida pela doutora em letras e professora de Língua e Literatura de expressão francesa da Universidade Federal do Rio Grande, Normélia Parise. Com a curadoria da artista plástica Margarida Rache.


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O Haiti tem uma das histórias mais fantásticas, emocionantes e reveladoras da humanidade. Quando em 1791, iniciava a rebelião rumo à independência, os chamados “jacobinos negros” – referência ao livro do C. L. R. James (No Brasil com o título: Os jacobinos negros. Toussaint L'Ouverture e a revolução e São Domingos) acreditavam que finalmente poderiam romper com as dores, a humilhação colonial de Espanhóis e também o constante assédio imperialista de Franceses e prosperar economicamente rumo ao progresso jamais sonhado.

Daquele 1º de janeiro de 1804 – Quando o Haiti se tornou o primeiro país latino-americano a declarar sua independência - ao tenebroso terremoto que o soterrou em 2010 - muitas lutas foram heroicamente travadas e conquistadas, outras não. As constantes intervenções em sua política nunca permitiram a estabilidade necessária, para este, como um dia foi chamada “pérola do caribe” seguir seu curso em paz.

Entretanto, a arte haitiana nunca deixou de se manter embrulhada no pensamento e nas atitudes supremas de jovens pintores, desenhistas, romancistas, músicos e poetas que conservaram viva sua releitura do mundo, sob a representação de suas próprias histórias. Reluzindo, em suas obras, às sensações de uma realidade constantemente no limiar de ser subjugada. Traduzindo as tragédias pessoais e sociais, mas reconhecendo, sua força libertária.

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E isso foi vivido de perto pela professora Normélia Parise, da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) que esteve no Haiti entre 2008 e 2011 e atuou como Leitora e Diretora do Centro Cultural Brasil-Haiti Celso Ortega Terra [CCBH]. Os estudos e as experiências trocadas em idas às universidades haitianas, festas populares e outras manifestações da cultura negra, resultaram na exposição: Haiti – Arte e Resistência.

Há de se ressaltar que Parise tem uma relação histórica com a cultura Haitiana. Doutora em Literatura, sua tese foi sobre a obra Amour, Colère Et Folie (1968), da escritora Marie Vieux-Chauvet.

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Grandes artistas de diversas gerações foram compiladas na exposição de Normélia Parise. Um deles foi Jean Claude Garoute mais conhecido pelo apelido de "Tiga". Tiga criou, em 1973, um dos mais interessantes movimentos de arte do século XX, o Saint-Soleil. Fundando assim, uma comunidade de arte rural no Haiti e despertando novos artistas para o método acadêmico de trabalho, ou seja, profissionalizando entes. Mesmo com o falecimento de Tiga em 2006, foi criada a Associação de Artistas Saint-Soleil (AASS) para sustentar o movimento e dar melhor condições para a produção dos artistas haitianos.

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A luz desse acervo de Normélia nos proporciona entrar em contato também com um dos mais enigmáticos pintores do Haiti, o artista vodu Andre Pierre. Nascido na segunda década do século XX, sua arte envolvia religiosidade, cerimoniais africanos, com doses de abstrações filosóficas e ritualísticas, uma arte, absolutamente singular, que despertou a atenção da teórica cinematográfica americana Maya Deren.

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Passando pelas pinturas vodus de um Payane Musset, às esculturas de metais de Fritz Calixto ou Remy Jn Eddy, ao poeta James Noël ( que esteve no Brasil participando de conversas e debates sobre o Haiti) e faz parte de uma nova geração icônica do país, além de ativista. Além de documentários realizados pelo cineasta de Port-au-Prince, Arnold Antonin. Tudo nesta exposição traz a força da resistência histórica da arte, no sangue que escorre como combustível e não deixa apagar a realidade íntima da expressão.

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Em foto de arquivo, Normélia Parise (dir.)

A Exposição Haiti – Arte e Resistência nos faz um convite. Um chamado a conhecer a cultura e a arte desse lendário país do caribe, muito além do que é mostrado na mídia - canibalesca pela tragédia e pelo sensacionalismo vulgar - Podemos mergulhar nas raízes de um olhar genuíno, visceral e atrelado ao imaginário cultural que insiste em permanecer mesmo sem água, energia, casa.

Arte como fuga e fuga como arte.

Neste exato momento, algum artista ousa sonhar um Haiti melhor, mas nunca um Haiti que desisti de ser a própria materialização artística da palavra: Resistência.


João da Rocha

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