zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

A ARTE ELETRÔNICA DE NAM JUNE PAIK

‘O verdadeiro problema implicado em “Arte e tecnologia” não é apenas inventar um novo brinquedo científico, mas de poder humanizar a tecnologia e este meio eletrônico de expressão que conhece progressos rápidos, muito rápidos. O progresso já ultrapassou nossa capacidade de programação' | Nam June Paik


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O sul-coreano Nam June Paik está para a Videoarte assim como Marcel Duchamp está para a arte conceitual. Este cruzou a primeira metade do Século XX e ajudou a transgredir ideias e expandir os conceitos da arte para além das formas e das galerias, aquele avançou nas descobertas tecnológicas e rupturas estéticas que cercavam os recursos – até então novos e comerciais – do vídeo e buscava sua releitura visionária para o campo artístico, já na segunda metade do século passado.

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Formado em História da Arte pela faculdade de Tóquio, June Paik logo se interessou por música - na Alemanha - onde estudou História da Música em Munique e teve contato com experiências estético-musicais inovadoras, sobretudo de gênios como John Cage – Um dos pioneiros da eletroacústica – e Karlheinz Stockhausen - este considerado um dos maiores compositores da Alemanha da segunda metade do Século 20 e de grande inspiração para movimentos da envergadura do rock alternativo alemão, ou vulgarmente chamado, Krautrock – apenas para citar este.

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Outro encontro determinante na arte do Sul-coreano Nam Paik, foram as ideias vanguardistas do grupo de George Maciunas, O Fluxus. Este grupo é um caso à parte; Considerado um dos mais intrigantes, geniais e ousados da arte de todos os tempos. Reunia artistas de vários países para seus happenings e suas intervenções dadaístas - que retomavam os conceitos libertários de Tristan Tzara - sob a ótica moderna dos diálogos tecnológicos e o automatismo.

Nam June Paik entrou para o Fluxus no início dos anos sessenta e logo se destacou por suas performances, quebras estéticas e delírios eletrônicos. Mas foi com a “Exposition of Music-Electronic Television” realizada na cidade de Wuppertal na então Alemanha Ocidental - que o artista mudou definitivamente - a história da arte em sua relação com a eletrônica.

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A Televisão Experimental - como foi chamada por Paik - trazia 12 televisores ligados com imagens manipuladas de uma programação local, combinados com pianos, toca discos, gravadores e uma cabeça de boi pendurada na entrada, como uma espécie de ritual mântrico-eletrônico que trazia o espectador para sinestésicas elucidações dechumpianas.

A exposição executada durante dez dias trazia ainda textos teóricos de Paik e inaugurava a possibilidade de arte com vídeo e anunciava elementos que jamais deixaram de se nutrir de seus princípios, como a arte digital por exemplo.

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Outro ponto importante no trabalho de Num June se traduz na influência do artista performático alemão – também integrante do Fluxus - escultor e ativista Joseph Beuys. Este disposto a quebrar a estética conservadora da arte e trazer o público para um contato próximo da realidade da própria criação, da obra, da ideia, do fazer e sentir do artista.

Wolf Vostell também foi crucial para as massificações idealistas de Paik; aquele alemão - no fim da década de 50 - começava a trabalhar com intervenções com rádios e televisores, criando composições experimentais primórdicas. Nascia nestas abordagens; o embrião das criações do artista Sul-coreano.

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Paike seguiu criando importantes exposições pela Europa e pelos EUA. Como o seu primeiro sintetizador de vídeo em 1965 ao lado do engenheiro de vídeo Shuya Abe. O trabalho foi produzido agregando vários elementos. Nascendo um aparelho que continha sete camadas de vídeo e mais sete entradas criadas a partir de câmeras e um mixer. As imagens e sons produzidos - não lineares - permitiram a elaboração de abstrações cinematográficas e instalações perturbadoras sem necessariamente filmar qualquer coisa. Uma espécie de televisor independente que reverberava sensações sintéticas pelas galerias, ou simplesmente, vídeo-instalações oníricas.

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Algumas exposições de Num June conversavam sobre as relações humanas e como estas se desembrulhavam entre as novidades do mundo contemporâneo. Como a tecnologia afetava o todo e suas ralações midiáticas. Como na performance em Park Avenue em NY, em que seu robô foi esmagado por uma carro enquanto atravessava a rua ou as intervenções - neo-dadaistas - ao lado da artista performática Charlotte Moorman.

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Algumas esculturas eletrônicas deste artista ficaram marcadas até hoje no imaginário de diversas gerações. Sua arte ainda deve ser redescoberta - assim como a de todo o grupo Fluxus - Suas intervenções filosóficas dialogavam com sua geração, com o tempo, o espaço que separa o espectador da criação impessoal do vídeo, desestruturando o objeto e o inserindo como parte, como tinta, como verso, como cena, nas sensações da obra e rompendo seu destino primário puramente comercial.

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As performances e simbologias eletrônicas de Nam June Paik influenciaram gerações de novos artistas. Seus suportes visuais, diálogos impertinentes, conversações monocromáticas e quiçá religiosas - de um orientalismo pós-moderno - foram determinantes para diversos ramos artísticos se desenvolverem para além das galerias e irem em direção à arte digitalmente exposta.


João da Rocha

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