zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João Roc

Apenas um homem inadequado

Birdman ( ou A Inesperada Virtude da Ignorância)

"Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação"

| A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO (1967) | Guy Debord


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Há tempos Alejandro González Iñárritu - um dos mais talentosos cineastas mexicanos deste início de século - vem esculpindo sua obra prima. Da estreia com o aclamado 'Amores Perros' em 2000 à poesia trêmula, de cores delicadas e reveladoras do genial '21 Gramas' com Sean Penn e a sempre parceira do cineasta, Naomi Watts. Chegando a Babel, que foi apenas uma preparação módica para este memorável trabalho, Birdman.

O roteiro do próprio diretor mergulha em nossa sociedade e suas nuances. O imediatismo denso capaz de transgredir a arte e arremessar sua significância à (meras) cifras, novas celebridades e não-artistas, um público embrutecido em seu próprio intelectualismo prestes à devorar qualquer coisa com algum rótulo, desde que este pareça sério, complexo, intrigante, não que necessariamente isso vai mudar suas vidas.

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O trabalho em longos planos-sequência e poderosos diálogos aos poucos vai nos consumindo. Deparamos-nos com um Michael Keaton lutando para não ser esquecido. Uma reafirmação como artista em meio ao próprio turbulento percurso de sua vida. Seu personagem - Riggan Thomson – se desconstrói em labirintos íntimos invisíveis – até para ele mesmo – Família, amigos, o mundo, que mundo? A arte, que arte? Qual a verdadeira significância das coisas? Ou, é preciso haver respostas?

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As pessoas de hoje apenas querem consumir qualquer coisa que as façam menos infelizes ou são estimuladas a acreditar nisto? Iñárritu vai montando - suas teias contemporâneas - em pequenos tratados na confabulação da imagem, em túneis erguidos dentro de diálogos carregados de visceralidade e poética oculta em sua crueza. O mundo é selvagem. A mídia está sedenta, não por uma obra de arte, mas pela próxima foto na rede social. Não pela próxima catarse nos palcos da Broadway, mas pelo sangue escorrendo nas primeiras páginas. O espetáculo é mais importante que qualquer simbologia criacionista de algum artista.

Arte atemporal ou deslembrançada?

É nesse universo tenso que Riggan Thomson luta para deixar de ser Birdman – Por mais que o próprio título do filme exerça essa ironia – Luta para não ser mortificado em uma sociedade onde isto é parte do jogo. Por isso bebe, desarticula-se em quebra-quebras filosóficos consigo mesmo, com Birdman, com atores imaturos, românticos e rebeldes - Com causas ainda desconhecidas - E também com a ex-mulher, a ex-filha, a ex-amante e todos esses ao contrário.

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Alejandro González quer nos entregar seu espetáculo, seu próprio arrasa-quarteirão? Quer que as pessoas saiam do cinema bebendo seus refrigerantes envenenados e atravessem a rua com seus smartphones iluminados? O mundo não pára e qual o lugar da arte nesse cenário? Ah, tantas perscrutações cinematográficas amanam desta obra.

A inesperada virtude na ignorância é a ponta de esperança intrínseca nesta peculiar película perturbadora. Ao entrarmos num limbo de consumo e destruição progressiva de nossas relações humanas, talvez, em algum ponto do processo mutante da arte, encontraremos o segredo que nos liga a ela. Birdman quer a grandiloquência das celebridades, mas Riggan Thomson, na figura conotativa de um artista, quer provar a si mesmo que pode ir além.

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No fundo, os tempos dizem que ninguém se importa, o consumo é da velocidade de um clique e o efêmero é um texto sobre algum filme do século 21. Se as coisas são o que são e não o que alguém disse sobre elas - como sugere Iñárritu - então, a arte renasce dos escombros para ser consumida sim - e o que fazemos depois - não cabe mais ao artista saber.

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Birdman é arte. Retrato de nosso tempo, selvagem, feroz. Uma poesia escrita no meio do trânsito de uma grande cidade. Talvez depois - quando as buzinas cessarem e caso um meteoro inesperado não venha revelar nossa real dimensão -poderemos enfim ler - em voz alta - esta obra prima de Alejandro González Iñárritu.


João Roc

Apenas um homem inadequado.
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