zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

O UNIVERSO AMORAL DE 'Nightcrawler'

‘Considerando o papel que a mídia ocupa na política contemporânea, somos obrigados a perguntar: em que tipo de mundo e de sociedade queremos viver e, sobretudo, em que espécie de democracia estamos pensando quando desejamos que essa sociedade seja democrática?’| Mídia, Propaganda Política e Manipulação | Noam Chomsky.


nightcrawler.jpg

A influência que os meios de comunicação exercem não pode ser jamais ignorada. Para alguns este seria como um “quarto poder” para fazer frente, ou digamos, se contrapor ao Status Quo, isso em meados finais do século 19.

Buscando uma liberdade e uma imparcialidade que poderia trazer - para a sociedade - a certeza válida dos fatos expostos. Todavia, muitas décadas se passaram e se este dito - poder - almejava para si a intenção romântica de, de fato, regular às relações entre estado e cidadãos, isto acabou se tornando uma arma poderosa para quem planejava a manutenção de sua condição imperialista.

A temática não é necessariamente novidade em Hollywood. Oliver Stone em Natural Born Killers (1994 )mostrava impregnado em sua vertiginosa montagem, a banalização da violência e, sobretudo a cultura do status, o culto ao criminoso, o glamour que a imprensa despejava aos que por ventura faziam “espetaculares” roubos em escalas assombrosas em puro genocídio nonsense. O filme acabou sendo criticado por fazer justamente aquilo que julgava ser incongruente.

O-Abutre7.jpg

Ainda na década de noventa, o filme L.A. Confidential (1997) trazia uma mídia comprada. Jornalistas reféns do poder político, ao mesmo tempo em que costurando factoides, construindo imagens e desconstruindo as mesmas. Tudo à margem da moralidade, dentro do mundo selvagem das ruas, em busca de dinheiro e privilégios. O trabalho bastante elogiado na época, foi baseado no livro de James Ellroy com uma direção irretocável de Curtis Hanson.

602x0_1414519323.jpg

Finalmente estreando na direção, depois de construir uma carreira como roteirista, Dan Gilroy nos entregou sua visão sobre o assunto de forma ácida e absurdamente verossímil em Nightcrawler – Título em português ‘O Abutre’.

O mundo não precisou ser reinventado. O vemos todos os dias pelas ruas sujas das periferias, nos noticiários banhados de sangue, nos jornais impressos que estampam na capa, corpos decapitados, estatísticas perturbadoras, números de assassinatos no final de semana etc.

Para a construção deste universo cinzento temos um Jake Gyllenhaal magistral. Um quase repórter, um cinegrafista feroz, um rastreador amoral de assassinatos e tragédias, Louis Bloom. Gyllenhaal está talvez, em sua melhor atuação na carreira. O ambiente é uma Los Angeles tomada pelo caos da violência, pela luta entre policiais e traficantes, pelo assassinato de negros e da elite branca intocável. Bloom é um ladrão, um abutre pela sobrevivência nas avenidas desertas de oportunidades, um espreitador cotidiano em uma cidade voraz e alienante. Mas quando vê a oportunidade de trabalhar alimentado – através de imagens chocantes e sensacionalistas – às emissoras de televisão especializadas em casos policiais, ele garante sua renda matinal sem qualquer tipo de sentimentos morais ou tratados humanistas.

364117.jpg

O solitário personagem carrega em si algo de medonho. Temos a impressão de estarmos diante de algum tipo de psicopatia progressiva, mas ficamos no limite de saber se de fato isso era verdade. As ruas noturnas banhadas de perigosos becos e encontros fatais, as escuras ocorrências de um mundo impresso em cores quentes e tensão intrínseca parece não chocar mais ninguém. Daí a linha tênue que o noticiarista ultrapassa sem enternecimento.

Louis Bloom não se poupa em buscar enquadramentos viscerais, de romper códigos de éticas familiares, de violar cenas de crimes e até as alterar para um melhor ângulo. Tudo acaba virando um grande comercio, onde o vale-tudo faz jus à ânsia pela audiência, para fazer frente a um indomável mercado concorrênte.

105274.jpg

Dan Gilroy nos pergunta, qual o limite? E uma pergunta está implícita: Quem se alimenta da desgraça alheia? Quem consome? O personagem de Jake Gyllenhaal não parece se importar com questionamentos filosóficos.

Os conceitos amorais do personagem representam - de fato - a audiência a qualquer preço? A busca pelo crescimento profissional resulta em atitudes questionáveis, mas compreensíveis, dentro do contexto de cada indivíduo, portanto, validando suas ações ambiciosas?

Não parece ser a intenção deste magnífico trabalho de Dan Gilroy responder a todas as perguntas, estas que já duram alguns séculos. Seu triunfo foi trazer à tona, o debate. Tantos nos EUA, como no Brasil e na Europa - Vide Charlie Hebdo e afins – O trabalho de Gilroy trabalha na extrema ambientação cinematográfica, sem demagogias, sem também justificar e/ou tornar seu personagem icônico.

o-abutre-cena-2.jpg

‘Nightcrawler’ é o retrato matinal de nossas reverberações diárias. Lá fora, na selva de pedra global, abutres, rastreadores periféricos, vendedores de imagens desgraçadas em troca de um troco. Engravatados ou não, estão caçando fantasmas urbanos prestes a serem devorados por uma sociedade sedenta. Pelo instantâneo.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/cinema// @obvious, @obvioushp //João da Rocha