zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

Amor, Cólera e Loucura em Marie Vieux Chauvet

Economicamente o Haiti ainda há de prosperar e um dia ser uma grande potência - em outras palavras - um país que superará suas mazelas. Encontrando finalmente sua vocação de um paraíso perdido no meio do caribe. Entretanto, nas artes, e falando agora especificamente na literatura, ele está entre um dos mais fundamentais celeiros do Século XX. Como a lendária escritora e ativista Marie Vieux Chauvet.


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Chauvet nasceu em Port-au-Prince. Filha de um senador – este depois teve que fugir para a República Dominicana por conta de perseguição política - e de uma nativa judaica das Ilhas Virgens. Desde cedo, a escritora logo entrou em contato com as raízes desiguais que desde sempre assolavam seu país. Fruto de anos travados contra imperialistas e cidadãos haitianos oportunistas que se aproveitavam do povo, apesar destes possuírem - no sangue de seus ancestrais - a força motora para a transcendente resistência.

Única escritora da sua geração nos círculos literários haitianos. Ela logo se tornaria – pela imensa qualidade do seu trabalho – em uma espécie de líder entre artistas comprometidos em denunciar as causas sensíveis do país, retratar uma realidade cotidiana inaceitável e dialogar com a rica cultura africana que permeava o ambiente criativo da nação.

Podemos citar entre as referências cruciais para a arte e o pensamento de Chauvet, a obra do poeta e ativista haitiano Jacques Roumain. Um dos fundadores do “Revue Indigène” periódico onde publicava poemas, escritos incendiários e manifestos políticos. O que lhe rendeu prisões e exílios - em vários países - por longos anos.

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Outro autor fulcral para a construção da obra da escritora Marie Vieux foi o mestre Jacques Stephen Alexis. Este romancista, ativista político, médico, lançou em 1933 o clássico “Le Nègre masqué, tranche de vie haïtianne”, um dos grandes trabalhos da literatura haitiana do século. De formação humanista, em 1942 fundou a revista “La Ruche” onde combatia o regime autoritário do presidente Elie Lescot. Jacques Stephen Alexis teve uma carreira como ativista em âmbito internacional. Apoiado por soviéticos, chineses e cubanos. Em meados de 1961, quando resolveu voltar ao Haiti – país então comandado pelo cruel ditador François Duvalier – foi dado como desaparecido. O governo jamais admitiu seu assassinato.

O talento de Marie Vieux Chauvet despontou ainda na infância. Há relatos de esboços literários e outras manifestações dramáticas, como sua peça mais famosa “La Légende Des Fleurs” lançada com o pseudônimo de Colibri ainda em 1946 - bastante elogiada. Neste período a escritora começaria a trabalhar em seus romances - estes que estão entre as grandes obras de arte da literatura. Sua obra conversava com as intensas temáticas presentes no dia a dia do povo, como mulheres sendo abusados, a opressão política, os rituais vodus, a pobreza, o colonialismo enraizado e as desigualdades sociais em desequilíbrio abismal.

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Sua primeira obra prima foi editada em 1954, em Paris, intitulada “Fille d'Haïti”. Para estudiosos, um dos mais importantes escritos da literatura francesa. “Fille d'Haïti” já trazia referência à resistência social, a crítica à classe burguesa e suas opressões entranhadas no cotidiano de Port-au-Prince.

Seu segundo trabalho “La danza sobre el volcán” foi lançado mais uma vez em Paris, 1957. O romance versa sobre a angústia, submissão, um mundo escuro engessado pela corrupção e a pobreza. Para a construção deste romance, a figura histórica de Jacques Vincent Ogé (1750-1791) foi fundamental.

líder mulato que lutou a favor dos direitos civis dos homens de cor, contra a escravização do povo haitiano e em prol de sua emancipação. Vincent Ogé foi medular para a fomentação da revolução Haitiana que culminaria com a independência.

Mas foi certamente com a trilogia “Amour, colère et folie” lançado em Paris em 1968, que Marie Vieux Chauvet entrou definitivamente para a história como uma das mais importantes romancistas da história. Há de se ressaltar que Marie pretendia lançar a trilogia no Haiti mesmo, não obstante, a sinistra ditadura de François Duvalier - conhecido como Papa Doc – tornava o ambiente perigoso para tal publicação. O livro - dividido em três partes - se embrenhava sobre ganância, abusos cometidos pelo estado, marginalização de artistas, humilhação das mulheres, violência sexual e as desigualdades sociais já tão marcantes em outras composições.

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Falando um pouco do período negro de François Duvalier entre 1957-1971, este foi mais um capítulo obscuro na história política do país e de sua tendência à ruptura democrática. Mesmo com boa educação – Duvalier se formou em medicina na Universidade do Haiti – e o conhecimento em saúde pública conquistado na Universidade de Michigan nos EUA e da triste realidade do povo, não o impediu de atrocidades – números apontam mais de 30 mil mortos políticos durante seu regime. Com todo este pano de fundo, Marie Vieux Chauvet termina a trilogia – mesmo sofrendo a resistência da família quanto a sua publicação e a envia para a escritora e filósofa Simone de Beauvoir - grande admiradora da arte de Chauvet – que imediatamente manda para publicação pela importante editora francesa Gallimard.

“Amour, col è re et folies” é reconhecidamente uma das obras mais ambiciosas e profundas de todos os tempos. Combatendo as injustiças sociais, a ditadura, a opressão, um manifesto em favor da liberdade, que para Marie Vieux Chauvet , era um poder íntimo. Íntimo e incalculável. Assim como a importância da escritora para toda uma geração de artistas haitianos e de todo o mundo. Críticos não apontam apenas as nuances políticas do romance, mas também, sua qualidade literária, de estrutura arrojada e não linear.

O trabalho posteriormente foi proibido pelo governo e alguns membros de sua família foram ameaçados. As impressões da Gallimard foram interrompidas – a pedido de Vieux – e esta foi impedida de voltar para o Haiti por questões de segurança.

Seu último refúgio foi na cidade de Nova York. Seu ex-marido - Pierre Chauvet - chegou a comprar todas as cópias ainda disponíveis da edição da Gallimard. E algumas permaneciam até 2005 – quando o livro foi republicado - como verdadeiras relíquias perdidas da literatura.

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Antes de seu falecimento, em 1973, em NY, a escritora deixaria uma última composição literária a ser publicada, intitulada, “Los depredadores” que veria a luz apenas em 1986. Nesta criação, Vieux Chauvet volta a denunciar os laços políticos do governo com forças estrangeiras empenhadas em sufocar qualquer tentativa de diminuir as desigualdades.

Chauvet escreveu alguns dos mais poderosos livros da história da literatura. A resistência em palavras e gestos. O clamor pelo âmago de um país oprimido. Uma artista atemporal, também do seu tempo, também ciente de seu papel. Uma literatura de vanguarda. Um interior vulcânico, gritando - para os quatro cantos - corrosivas palavras – a fim de desconstruir até as mais doentias desolações sociais e alavancar um país rumo à libertação.

Esta foi Marie Vieux Chauvet e este é o Haiti.


João da Rocha

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