zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

IDA – O MUNDO AO REDOR É PRETO E BRANCO

"Ao entardecer as armas da morte
Ressoam nas florestas outonais, as planícies douradas
E os lagos azuis, por cima, o sol rola, sombrio;
A noite abraça os guerreiros moribundos,
O lamento selvagem de suas bocas quebradas.
Mas o sossego concentra nuvens vermelhas
Entre os salgueiros, onde mora um deus feroz,
O sangue derramado, a frescura lunar;
Todos os caminhos acabam em podridão."

'Grodek' By Georg Trakl


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Nascido em Varsóvia, Polônia, Paweł Pawlikowski foi embora ainda adolescente de seu país rumo à Alemanha, Itália e Inglaterra - onde neste último estudou literatura e filosofia na Universidade de Oxford. Pawlikowski acabou construindo uma boa carreira britânica como documentarista. Outra grande influência para o cineasta, foram os poemas expressionistas do austríaco Georg Trakl. Seu encadeamento de versos e metáforas ajudou a diluir a imagem em nossa percepção de IDA, 2013, primeiro trabalho do diretor polaco em sua terra natal.

Há de se ressaltar que, em 1939, a Polônia foi invadida tanto pela Alemanha nazista, como pelos soviéticos. Varsóvia foi arrasada. O trabalho de Paweł causou bastante controvérsia em alguns setores da sociedade, sobretudo com o personagem de Wanda, inspirado na figura de Helena Wolinska-Brus - acusada de mandar executar líderes anti-nazistas da Polônia. Todavia, muitos heróis poloneses garantiram a sobrevivência dos fugitivos judeus, os escondendo em suas casas ou em conventos. Ida não pretende ser um filme histórico - como tantos outros sobre o tema delicado do Holocausto. Sua ambientação lúdica é de tom universal, de memórias poluídas pelo distanciamento e que precisaram ser coladas pacientemente.

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O diretor parece ter reunido todos os elementos perdidos de sua infância, referências ocultas e histórias dramaticamente familiares em Ida. A beleza fotográfica no trabalho de Łukasz Zal e Ryszard Lenczewski garante um mergulho gélido e revelador em cada personagem – um embrenhamento – no qual as cenas permanecem intocáveis em seus cortes intemporais.

Há poucas palavras nesta película. Um silêncio sem cores - nos gestos contidos de Anna (Agata Trzebuchowska) - no inverno sub-religioso de cada fração de segundo. O olhar como emblemática construção daquilo que se espera dizer, mas não se consegue. Anna precisa firmar seus votos a fim de se tornar freira – um paralelo íntimo com Pawlikowski, um católico devoto – mas, para isso precisa passar um tempo com uma tia que jamais a viu e que nunca teve a intenção de visitá-la.

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O som da imagem segue construindo a cena com maestria: Trânsito, ruas sujas, o movimento em contraste ao universo vivido desde a infância por Anna, o ambiente é a República Popular da Polônia (Hoje apenas Polônia desde 1989) em 1962. Suas feridas ainda abertas, não sangram, mas coagulam lentamente.

Ao encontrar Wanda (Agata Kulesza), sua presença incomoda. O barulho permeia o não-diálogo. O encontro entre o pálido e o febril. O mundano e o improvável neste mundo esquecido por si mesmo. Nessas entrelinhas, Anna começa a desvendar um pouco de sua própria história. Primeiro a revelação que é Judia. Seus pais eram judeus e foram mortos com a ocupação nazista. O impacto e o ato. Ir procurar onde foram enterrados e entender um passado que lhe foi tirado invisivelmente.

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Em entrevista, Paweł Pawlikowski afirma que o filme é o retrato da Polônia que existe em sua cabeça. Penetrar nestas cinzentas memórias de um passado brutal é um terreno riscoso, porém, tratado com sensibilidade pelo diretor. São lembranças não apenas dele e sim de muitos que ali ainda permanecem. É o som desconfortável do tempo, a música transida do movimento rumo ao passado que vai tecendo o trabalho.

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Ao se deparar com Wanda – juíza e ex-procuradora da República – esbarramos com um antagonismo evidente. O niilismo embrutecido de Wanda. O sarcasmo melancólico. O cigarro como ponto de fuga em um labirinto agonizante. De Anna, uma inocência não menos solitária. Ambas parecem cravadas em um mundo desértico sussurrante.

Encontrar não só onde os pais e seu pequeno irmão - que Anna jamais conheceu - foram dramaticamente enterrados - como também desenterrar a si mesmas de seus próprios percursos até aqui. Estes parecem interpretar os anseios de Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz – que escreveu o roteiro ao lado do diretor. Tal procura irá determinar quem elas serão a partir de então.

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Esta volta – um abismo enraizado nas entranhas do tempo - faz Ida Lebenstein conhecer seu mundo ao redor. Sua história enterrada além das florestas da Polônia. Quando encontra o verdadeiro assassino de seus pais e este a leva a conhecer a cova onde os sepultou há tempos - entre lágrimas e vergonha retorcida - em uma das cenas mais fantásticas deste trabalho – Ida pergunta – “E eu, por que não estou aqui?”.

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O conhecimento - de suas reverberações antepassadas - se mistura entre os personagens e o cineasta. Ida passa a conhecer desde a música de Jonh Coltrane ao caos interior do viver em sociedade. Aquela paz antes vivida em um convento encontra os prazeres e desprazeres das relações humanas. Wanda se atira pela janela e Ida repensa seus votos. Embriaga-se, entrega-se ao jovem músico romântico e perdido, dança e sente o âmago do tempo e o tênue mundo em cores escuras.

“E então?” nos pergunta Paweł Pawlikowski.

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Esta odisseia nostálgica afaga nossas incertezas mundanas. Queremos o mundo e o todo. Queremos o nada como compensação. Queremos, ah como queremos tudo. O abraço, a oração desejável, o chão como promessa de segurança. Os cabelos escondidos dos pensamentos calmos. O querer, uma condição humana irrenunciável. O sentir, como tez deste todo. O caminho de volta a si mesmo como condição inevitável.

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Ida, um poema silencioso nas vísceras da história.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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