zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João Roc

Apenas um homem inadequado

WALKER EVANS E OS RETRATOS DE UMA ÉPOCA

Em 1935, Walker Evans aceitou um emprego no F.S.A - Farm Security Administration – Departamento criado pelo presidente Franklin Roosevelt - que tinha a missão de registrar a realidade da população nas zonas rurais americanas e fazia parte de um amplo plano de ajuda para a sociedade devastada pela “grande depressão” Todavia, se a intenção do governo era maquiar os registros a fim de usos propagandistas, este não esperava que a força da arte de Evans falaria mais forte e que seu trabalho - retratando para a posteridade a realidade cruel de uma época – o tornaria um dos maiores e mais influentes fotógrafos do Século XX.


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Mas antes, voltemos um pouco. Walker nasceu no estado de Missouri, mais precisamente em St. Louis, entretanto com a separação dos pais, foi morar com a mãe em Nova York até finalizar seus estudos. Sua paixão a princípio era a literatura.

Sonhava em ser um escritor e muito do seu trabalho posterior reiterava um olhar que versava - pelas entrelinhas das palavras invisíveis - um típico olhar de um poeta. Foi então que partiu para Paris, para ali, buscar as ferramentas necessárias para seu mergulho pelo mundo das letras. Na França frequentou a lendária faculdade de Sorbonne – como ouvinte – e conheceu os poetas simbolistas. Além da sua paixão por T.S Eliot, Joyce, Flaubert, Cummings, entre outros.

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Para ressaltar sua relação intrínseca com a literatura, Evens participou do livro do poeta modernista Hart Crane, livro este considerado um clássico da poesia americana, The Bridge. Hart se arremessou no mar tempos depois, mas sua literatura se tornou referência, para os poetas e amantes da literatura, pelo lirismo e ousadia em recriar a América em versos, tornando-se um dos pilares de inspiração para movimentos como o Beat e de poetas icônicos como Allen Ginsberg e seu “Uivo”.

Outro ponto determinante na carreira de Walker Evens foi sua ida a Cuba ao lado do jornalista Carleton Beals. Desta parceria surgiu o livro “The crime of Cuba” que retratava a vida de Cuba sob a batuta do presidente Gerardo Machado. Este trabalho de Evens foi antes do seu emprego no F.S.A e marcou definitivamente sua arte. A amizade com o escritor americano Ernest Hemingway, este que viveu por muitos anos nesse país, ajudou o jovem artista a moldar seu olhar, por vezes literário. De suas reverberações oníricas - através destas experiências e contatos - nasceria o livro “Walker Evans Cuba” que mostrava um país em sua simplicidade de província e a realidade entranhada de um sofrido cotidiano, para muitos, os primeiros passos de genialidade foram dados nesse período.

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Em 1938, o Museum of Modern Art (MoMA) em Nova York faria sua primeira exposição individual de fotografia com os trabalhos de Evens. Neste momento, um mito cresceria em torno de sua arte e seus registros. A exposição foi a primeira individual de fotografia da história do museu. Paralelo ao momento histórico da mostra, o fotógrafo lançaria um livro, um clássico atemporal que trazia - à luz - todo o seu singular olhar - de uma realidade inconfessável, de um lirismo visceral que se nutria de uma simplicidade perturbadora: "American Photographs"

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Boa parte do trabalho desta obra foi reunida no período que o fotógrafo trabalhou no Farm Security Administration. Nela, Walker colocaria para fora o transbordamento das suas impregnações - como oculto escritor - e cronista social mergulhado em rostos e realidades nascidas do colapso de Wall Street.

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Quando adentramos o universo retratado por este artista, não entendemos a crise e sim seus desdobramentos, suas consequências para gerações e futuras gerações. Velhos, crianças, paisagens empoeiradas - não pelo tempo e sim pela ausência deste - Carros abandonados, sujeitos vagando sujos e esquecidos nos longínquos arredores dos centros, um mundo clicado com sensibilidade e respeito.

Outra obra histórica e de grande relevância para o registro deste período e pela qualidade singular de Walker foi ao lado do escritor americano James Agee, "Let Us Now Praise Famous Men" foi lançado em 1941. O trabalho - considerado um dos grandes clássicos do século XX - a princípio, visava apenas reunir material de Agee para a revista de Henry Luce, a Fortune. Entretanto, com a presença de Walker Evens – que foi de carona no projeto pela New York Magazine e havia pedido licença do Ministério da Fazenda – as coisas tomaram outro rumo.

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James Agee e Walker Evens passaram algumas semanas com três famílias do Alabama - em uma relação próxima com estas - quase íntima que inspiraria ambos os artistas para o lançamento de um livro com mais de 500 páginas. Para muitos é a obra definitiva de Evens e um dos grandes trabalhos literários de James Agge – que viria a ganhar o prêmio Pulitzer postumamente - por ”A Death in the Family”. "Let Us Now Praise Famous Men" é um verdadeiro documento de uma época. Evens acabaria trabalhando para a Fortune até 1965.

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Walker Evens faria outro grande trabalho chamado “Many are called”. Este também mereceu uma exposição no Museu de Arte Moderna de NY. Com uma câmera na jaqueta em um metrô em Nova York, o artista retratou - com enquadramentos-versos - as longas viagens dos transeuntes, suas rotinas e a presença de fantasmas urbanos em seu anonimato transcendente. O trabalho - realizado no final dos anos quarenta - permaneceu inédito por mais de uma década, até ser lançado em 1966 com introdução de James Agee. Foi um dos períodos mais experimentais do fotógrafo que anos depois - em entrevista - ressaltou que não buscara retratar a vida no metrô e sim apenas mergulhar em sua poética.

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No início dos anos setenta, Walker Evens passou a ser professor da Universidade de Yale – Um dos seus alunos foi o grande fotógrafo Rodney Smith – e fez alguns trabalhos – Não profissionais – com a câmera Polaroid. Estas intervenções instantâneas duraram até 1973. Pouco antes da sua morte. Walker já estava aposentado desde 1965.

Foram décadas de um olhar profundo sobre pessoas e seu tempo. O fotógrafo que um dia sonhava arduamente em ser escritor - encontrou na arte do olhar - não uma compensação e sim um deslindamento das entrelinhas da página. Walker foi um escritor de imagens, um poeta de versos estáticos - pelas capturas da lentes - mas que se movimentavam nas páginas do imaginário real das vidas - ali sob à luz de seus sensíveis e desaconchegados flashs - sobre os poros de uma época.

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Suas imagens saltavam do espaço e recriavam – sem artifícios ou artificialidades – o seu tempo e a história. Pai da fotografia documental. Mestre de um realismo puro. Mestre de mestres como Robert Frank. Patrimônio histórico da sociedade americana – esta que foi tão bem tratada em seu pior momento – mas que avançou as cronologias de uma época e as fronteiras. Suas imagens-livros não inventaram qualquer fato e sim foram e são - para sua geração e para novos artistas - a própria história.

É a arte em profunda iluminação.


João Roc

Apenas um homem inadequado.
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