zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

Mr.Nobody | A ESTRANHA EXPERIÊNCIA DE ESTAR VIVO

“Em sua definição científica, o Caos não significa desordem absoluta ou uma perda completa da forma. Ele significa que sistemas guiados por certos tipos de leis perfeitamente ordenadas são capazes de se comportar de uma maneira aleatória e, desta forma, completamente imprevisível no longo prazo, em um nível específico. Por outro lado este comportamento aleatório também apresenta um padrão ou ordem ‘escondida’ em um nível mais geral."

Ralph D. Stacey


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Como seria se resolvêssemos parar de ler este artigo e finalmente arrumar o quarto há semanas soterrado por objetos, neste meio tempo, encontrar àquela fotografia antiga, uma carta, um desenho feito à mão há décadas perdido e imergir em frágil sensibilidade. Ou ir comprar finalmente aquele livro e acabar encontrando velhos amigos e novas abordagens. Quem sabe, enviar aquele currículo que está há meses no rascunho? e obter a resposta inesperada, não obstante, esperada há tempos.

Todos os imperativos podem render novas conexões e estas escolhas podem determinar em muitos casos um destino final – ou melhor – uma porta de entrada para outras portas e/ou um recomeço, uma brecha. Estamos o tempo todo escolhendo e o que descartamos? Como seria? Para onde vai aquele universo de possibilidades? Partindo destas premissas - o belga Jaco Van Dormael - nos entregou sua epifania chamada, Mr. Nobody.

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Não procure encontrar às razões - dentro das respostas que por ventura irás fazer - observando a engenharia mosaica desta obra. Provavelmente elas tenderão à diluição a cada nova visão de nossas próprias escolhas. Reentrar neste alvoroço de sensações é quase um chamado.

Primeiro que Dormael não veio de fato para responder as dúvidas impregnadas de futurismo e montagens delirantes sobre os trilhos e construções erguidas no presente - também no passado, no agora e depois - Ou todos juntos. O cineasta veio dissertar sobre cálculos não lineares, sobre pequenos eventos causando grandes proporções ao nosso redor, eventos imperceptíveis, como uma borboleta – ou seria – como suas asas.

As referências oblíquas desta película conversam - entre outros - com as experiências científicas de Edward Lorenz, com os livros do jornalista Nova Iorquino James Gleick e os estudos do professor – nascido em Johannesburg - Ralph Stacey Douglas, autor -entre outras obras - de The Chaos Frontier, 1992.

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Mr. Nobody é simplesmente o último homem a morrer de velhice na terra. Uma celebridade, um acontecimento. Questionado sobre seu passado – ou presente – ele nos leva à estranhas conexões que nasceram de suas escolhas e o impacto delas.

No entanto, o mundo também orienta - em suas nuances - até os meandros daquilo que queremos. Como quando o personagem se apaixona - ainda na infância - ou os eventos que levaram seus pais a se conhecerem. A teoria do caos ou o efeito borboleta é contado com poesia, tênue em realidade imaginativa – não imaginária - Mr. Nobody não tem controle sobre os caminhos a partir do passo dado a este. Poderia ele voltar e refazer tudo, um Ctrl-Z cósmico que não abalaria a instituição tempo?

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Sobre este, o peso da irreversibilidade. Ao escolhermos – por frações de segundos – adentramos uma porta, um oceano de gravidades nos puxando para dentro. Diferente deste trabalho – na vida – não há como saber exatamente como seria. A partícula da vida é mutável. Optamos por nos casar com aquela ou aquele. Optamos por seguir por esta rua e não aquela. Optamos por este emprego ou um estilo de vida, este lado da cama, aquela ou aquele dizer, a precisa ou impulsiva palavra que desencadeia um leque de sonhos no limiar da realidade, para o nosso bem, ou não.

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Para entendermos as raízes oníricas e perturbadoras de Jaco Van Dormael temos que mergulhar um pouco em suas profundas percepções. O diretor nasceu em Ixelles na Bélgica em 1957. Antes de estudar fotografia – uma porta para a criação cinematográfica – foi palhaço e também fez teatro infantil.

Em algumas entrevistas, Jaco afirma que gostaria de juntar - nesta obra - um pouco de suas memórias da infância, sua paixão por contar histórias e seus filhos. Neste sentido, muito do que foi escrito em Mr. Nobody nasceu de rabiscos poéticos fragmentados em longos versos sendo modelados com paciência. Também períodos ouvindo música - ou simplesmente - tentando entender a engenharia complexa da vida – algo que reverbera por todo o filme e monta sua textura. Como se estivéssemos dentro da mente de um louco poeta embriagado pelas razões do existir.

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O cineasta possui poucos filmes. Seu primeiro foi dirigido ainda em 1992, “Totó el héroe” é também um delírio cinzento que dialoga sobre o envelhecimento de nossos sonhos. Escavando mais, encontraremos um pequeno curta no início da década de 80, chamado “È Pericoloso Sporgersi” e revelaremos que Jaco Van Dormael esculpia suas rimas ocultas sobre escolhas, desde sempre.

Para alguns, Mr. Nobody não passaria de um amontoado de montagens sem qualquer conexão com a realidade. O futuro, o passado, o presente embaralhados e jogados para o ar rumo à queda em suas próprias sensações inexplicáveis. Para outros, sua estrutura - entrecruzando os espaços - é a própria referência do cotidiano.

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Suas teias matemáticas jamais serão reveladas. A música de Pierre Van Dormael – irmão do cineasta – ajuda a montar os subterrâneos das palavras jamais proferidas. Músicas e lembranças abusam dos mesmos entrelaçamentos cerebrais - parece querer nos dizer Jaco - e nós vamos - aos poucos - nos acostumando à olhar a fluidez quase aleatória da vida – com naturalidade - não que já não façamos inconscientemente.

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Desplugamos nosso cérebro desta película, deste caleidoscópio atemporal sem saber ao certo o que de fato ocorreu. Dormael se preocupou em deixar tudo suspenso. Cada volta, cada olhar para trás, cada gota de alumbramento percorrendo nossos sentidos. Mergulhados ou não, nos afogamos naquilo que poderia ter sido, naquilo que foi, que é. No rosto, na mão, no contato, na paisagem cinzenta da cidade, nas tenras horas irresponsáveis da infância à beira das águas devolutas.

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Assim como o personagem, Nemo Nobody, assim como o próprio artista criador deste memorável trabalho, assim como nós. A experiência do viver – revela-se – como probabilidades poéticas irrenunciáveis. Muitas equações nos fizeram chegar até aqui. Tanto ao fim do texto, quanto neste cirúrgico fractal minuto de existência, quanto ao próximo percurso.

Cada escolha é um múltiplo universo a ser desvelado. Como esta arte, como a vida, como tudo.

O que você escolherá agora?


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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