zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João Roc

Apenas um homem inadequado

Peter Handke | O DESCONFORTO COMO MÉTODO

Nas profundezas arruinadas da Segunda Guerra nascia um dos artistas mais inquietantes do século XX, o austríaco Peter Handke, um dos grandes nomes da dramaturgia, da literatura alemã de sua geração. Estudou Direito na lendária Karl-Franzens-Universität Graz e viveu – sua infância - entre as ruínas de Berlim, nos anos de 1944 a 1948. Filho de um soldado alemão – que viria a conhecer tempos depois – e de mãe austríaca, Handke se diluiu pelos caminhos das artes e encontrou - na literatura - seu primeiro grande mergulho nas intrépidas provocações humanas.


Donata Wenders, Peter Handke, Chaville, 2009.jpg

Seu primeiro romance veio no ano de 1961, Die Hornissen (Os Vespões), período também que contribuiu para a revista literária “Manuskripte” ao lado de nomes como Wolfgang Bauer e Barbara Frischmuth. O romance foi publicado na renomada editora alemã Suhrkamp. Esta fundada por Peter Suhrkamp, o mesmo que havia trabalhado na lendária “Fischer Verlag” editora célebre que publicou entre outros, livros de Thomas Mann. O editor da revista Suhrkamp, Siegfried Unseld, falecido em 2002, também é apontado como fundamental para a ventilação e quiçá apoio financeiro a Peter Handke.

O romancista continuou produzindo alguns dos mais provocativos e desconstrutivos trabalhos da literatura alemã, como “Der kurze Brief zum langen Abschied” (Uma Breve Carta para um Longo Adeus) lançado em 1972. O romance acompanha uma viagem pelos desertos interiores, à procura de alguma razão medonha, pálida, da esposa ou de si mesmo. Ou da mãe, que se suicidou ainda na década de 50, provocando intensos dilemas e questões a serem resolvidas na mente do escritor.

Título extraído da peça “A Tempestade” de William Shakespeare - sua última peça - Peter Handke lança ainda em 1966 “O Pupilo quer ser Tutor” uma reflexão sobre as relações do poder, a simplicidade desoladora das relações humanas e a muda palavra que permeia cada diálogo. O oculto como parte visível da filosofia na mente obscura do mestre.

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No mesmo ano, Peter entra para o Gruppe 47. Este nasceu em 1947, nos bastidores da revista fundada por Alfred Andersch e Hans Werner Richter, a Der Ruf. O importante períodico, criado em 1945, almejava revitalizar a literatura alemã e impedir que fosse esmagada pela cultura americana e perdesse sua identidade, além de promover a entrada de jovens autores impetuosos, clamando por versos entre os escombros do pós-guerra. O grupo - que findou em 1977, foi considerado fundamental - para trazer evidência - à toda uma era de grandes autores para a segunda metade do século.

A década de sessenta foi bastante profícua para o indomável espírito crítico de Handke, culminando com o lançamento de sua peça mais ousada, polêmica e vanguardista – se assim podemos dizer - Publikumsbeschimpfung (Insultando o público) lançada em Frankfurt em junho de 1966. Rompendo a estética da maioria das obras da época e dialogando com o irlandês Samuel Beckett, Peter Handke parece ter colocado para fora toda sua fúria marginal, densa, kafkaniana em sentido múltiplo, futurista em sentido estrito. A peça contou com a direção de Claus Peymann.

Qual o efeito da linguagem? E se simplesmente todos os atores em cena não nos mostrassem exatamente uma história – tradicional e linear – e sim passassem a nos ofender abruptamente? Ouviríamos todas as misérias da história, tudo aquilo que nos atormenta em nosso interior vulcanizado pelo comodismo social sendo vomitado por desconhecidos em nome da arte. Peter Handke não se importava.

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O insulto faz parte da desconstrução de si mesmo e do mundo. As aparências febris da cólera na postura refinada - sendo desmantelada por jovens arrogantes sedentos em quebrar todos os protocolos – e como uma lança invisível – tocar às mais escondidas vísceras de nossas aflições – até então – intocáveis. Estas bifurcações se enraizavam na mente do jovem autor de apenas 24 anos.

“Publikumsbeschimpfung” colocou Peter Handke finalmente em evidência, quase uma celebridade, a contra gosto de suas próprias ambições. Um não teatro para alguns. Texturas de palavras e gestos eclipsando a cena e dobrando suas estruturas em prol de alguma catarse – talvez buscando as próprias raízes do teatro – e encontrando um público chocado pelo destino.

Escritor profundamente criativo. Ensaísta e autor ficcional, poeta, contista, como "Wunschloses Unglück" (Bem-aventurada Infelicidade) lançado em 1972. Texto apontado com certa dose autobiográfica. No conto, o autor remonta o suicídio de sua mãe. Provocador e apaixonante, causou grande controvérsia - ao mesmo tempo em que um delírio cinzento de prazer literário - foi crescendo entre seus fiéis leitores.

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O encontro com a pintura do mestre pós-impressionista francês Paul Cezanne foi bastante provocadora para Handke e destas divagações nasceriam as novelas Langsame Heimkehr (Slow homecoming) e Kindergeschichte, Die Lehre der Saint-Victoire (ensaio) e a peça Über die Dorfer (Sobre as aldeias).

Handke também enveredou pelos caminhos do cinema. Como roteirista e como diretor. Seu primeiro trabalho foi para a televisão, com “Chronik der laufenden Ereignisse” trabalho lançado em 1971, foi mais uma vez bastante ousado, longe dos clichês, um filme considerado experimental e radical em sua linguagem. O autor ainda faria mais três filmes: A mulher canhota (1977); Das Mal des Todes (1985) e A ausência (1993).

Ainda na linguagem cinematográfica, o cineasta Wim Wenders se aproxima de Peter Handke e estes começam uma criativa amizade que renderia roteiros e parcerias clássicas. Wenders estava consumido ainda pela peça Selbstbezichtigung (Autoacusação) de Handke. Esta parceria resulta no primeiro trabalho de ambos, uma adaptação do romance de Handke “O medo do goleiro diante do pênalti” lançado em 1970. Este seria ainda o primeiro filme do grande cineasta alemão Wim Wenders.

Outras parcerias ainda viriam como “Movimento em falso” e o clássico "Die Himmel über Berlin" de 1986. Do primeiro, um trabalho baseado em “Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister” de Goethe. O segundo, obra prima inspirada nas elegias de Rilk.

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Na década de noventa, entre contradições políticas e publicações diversas, Peter Handke já havia se consolidado como um dos mais importantes autores da Alemanha do século XX. Em 2008 lançou “Die morawische Nacht” (Noite da Morávia) mais um grande trabalho, todavia, mais desértico, solitário, como sua casa em Paris, provocativo em suas entrelinhas sensíveis. Como uma viagem reflexiva pelos meandros dos palcos do mundo, sem aglomerações, sem diálogos, sem texto.

Com diversos prêmios literários – alguns que ele rejeitou e outros que não cabiam mais para um rótulo intelectualizado – de livros comentados e estudados em universidades por toda a Alemanha. De alma inquieta, errante – como seus personagens – pronta a adentrar as armadilhas do tempo e desmontá- lo.

Peter Handke - mais do que um provocador - um insultador melancólico, um peregrino espreitador pronto a fazer de um abismo, sua própria história narrada – às vezes – não precisamos entender suas palavras, apenas seu silêncio, apenas os gestos de sua arte - nos dizendo algo desconfortável - que não ousamos reproduzir para não chocar a audiência de nossos fantasmas.


João Roc

Apenas um homem inadequado.
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