zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

A ELEGIA CINEMATOGRÁFICA DE Wim Wenders

"Quem se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens
Dos anjos? E dado mesmo que me tomasse
Um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria
Ante sua existência mais forte. Pois o belo não é
Senão o início do terrível, que já a custo suportamos,
E o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha
Destruir-nos. Cada anjo é terrível.
E assim me contenho pois, e reprimo o apelo."

Rainer Maria Rilke | PRIMEIRA ELEGIA


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Onde vivem os anjos? Para algumas religiões a figura do Anjo representa aquele patamar de perfeição alcançado por uma alma na hierarquia celestial. Sua condição seria uma adoração infindável a um ser. Sua missão - entre outras - seria de auxiliar, ajudar, guardar àqueles que ainda necessitam de proteção, conforto, não exatamente praticar os imperativos que nos cabem e sim consolar, aconselhar por caminhos que levarão à transcendência lírica do canto na atemporalidade. Para Wim Wenders, só as crianças são capazes de ver estes anjos.

Ernst Wilhelm Wenders nasceu na cidade alemã de Düsseldorf, 1945. Depois de ganhar sua primeira máquina fotográfica, sentiu a paixão pela arte aos poucos delimitar seus caminhos. Estudou filosofia e medicina – não necessariamente nesta ordem – mas logo viu que a intensidade artística era um chamado. Então, mudou-se para Paris e foi trabalhar com artes plásticas. Não demorou em voltar à Alemanha – ele já tomado pela profunda obsessão pelo cinema – e entrar para a Hochschule für Fernsehen und Film München (Universidade de Televisão e Filme de Munique) fundada em 1967.

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Para a ambientação desta obra, nada mais que Berlim. Uma cidade dividida, marcada por cicatrizes que até hoje latejam em imperceptíveis dilemas do passado. A câmera de Wenders percorre os corredores cinzentos, atravessam os muros ocidentais e orientais, os concretos da arte além daquilo que separa seus transeuntes. Há de se ressaltar que Berlim passou quase trinta anos dividida. De 13 de Agosto de 1961 a 09 de novembro de 1989, o povo alemão viveu algumas das mais ímpares, obscuras e truculentas histórias da humanidade.

Neste cenário marcado por intensas ideologias. Por uma política perversa e desumana, que o cineasta traz à tona sua poética. Um preto e branco salta entre as palavras. "Der Himmel über Berlin" (título original deste filme) busca a unificação tênue da sociedade alemã. Uma redenção enigmática. De um religiossísmo apenas oculto. Uma licença poética sem metafísica, sem dramatizar além do que deveria ser sentido.

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Como seria se parássemos de sentir? Se por algum momento, horas, dias, meses, por algum lapso cerebral medonho, alguma anomalia involuntária em nosso destino, deixássemos de nos emocionar? Simplesmente olharíamos tudo nulo, vazio, mas não com tristeza e sim com condição irrefutável?

Todos os eventos humanos estariam alheios a nós, todos, e viveríamos assim para sempre. Esta seria nossa eternidade sonhada em condições gélidas. Qual sentimento, qual sensação nos faria mais falta? O gosto de um café no final de uma tarde chuvosa. O sol pela manhã que não queima apenas afaga. O beijo sensitivo almejado há séculos. A felicidade após alguma pequena realização. A euforia perante um grande acontecimento. A lágrima esculpindo um rosto diante de uma perda irreparável. Este pequeno universo e outros múltiplos jamais seriam novamente sentidos, apenas observaríamos de longe os acontecimentos, como Damiel e Cassiel, os anjos cinematográficos de Wim Wenders nesta obra.

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Entre a biblioteca de Berlim. Entre os arranha-céus. Ao lado de jovens sonhadores e suas vãs sabedorias temporais, entre as ruas sujas escoltadas pela solidão trapezista do tempo. O cineasta – como um escultor de versos recheados de metáforas líquidas – vai desvendando às razões humanas. O olhar deles percorre cada gesto como que surpreendidos. Tomados pelos detalhes, por cada capricho, pelo olhar e o sorriso das crianças às declamações mais tortuosas de uma alma em escombros de si mesmas. A leitura atenta e imaginativa de um livro à contemplação longínqua antes de uma partida, ao final de alguma constatação que sonhávamos e torcíamos para que nunca chegasse. Ler - em trágica voz ao vento - o último poema antes do salto derradeiro e sem asas. No final do dia, ambos os anjos conversam sobre suas experiências – que para nós seria banal – e são para eles, a criação de históricos diários escritos nos versos dobrados da vida.

tumblr_n154mysaDH1tsqyvro7_1280.png Para a criação deste roteiro, Wenders trabalhou ao lado do escritor austríaco Peter Handke. Este escreveu algumas das obras mais controversas e polêmicas da literatura alemã da segunda metade do século, como Wunschloses Unglück (Bem-aventurada infelicidade) e “O medo do goleiro diante do pênalti” que viria a ser adaptado para o cinema pelo próprio Wim Wenders.

Nick Cave e a banda Bad Seeds também aparecem neste trabalho. A música reconecta para um estado meditativo, o canto transfigurado em intrínseco desequilíbrio e catarse - parece um convite - à perdição dos sentidos ao lado do brilhante trabalho do alemão Jurgen Knieper.

Outro memento intenso é a apresentação em um circo. Onde um dos anjos - Damiel (Bruno Ganz) - assiste à performance ao lado de várias crianças, estas riem e saltam e parecem saber que ele está ali, intacto, perplexo com tal manifestação de alegria. Outro ponto chave para a inspiração e concepção desta arte foi a obra de Rainer Maria Rilke. A poética angelical de Rilke encontra - na fotografia magistral do francês Henri Alekan - o casamento de rimas invisíveis sobre os seios – ou melhor – os umbigos das lentes do diretor alemão.

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Ainda sobre Rainer Maria Rilke – um dos maiores poetas da Alemanha de todos os tempos – O mesmo dialoga em muito de sua obra sobre anjos. Não anjos sacros, cheio de reluzentes viés supersticiosos na sua dimensão e harmonia. Os anjos de Rilk eram sujos, fediam às mais doentias mentalidades de que a humanidade poderia ser capaz. Seus versos retratavam o choque entre uma idealização humana de perfeição - na construção pálida de uma redoma de sensações que não poderiam mais emergir além de amargas inalações - ao encontro das raízes mais indeléveis do sentimento. Nossa natureza sentimental seria inevitável gerando as mais incompletas plenitudes e terríveis incomunicabilidades. Nas “Elegias de Duíno” deste poeta, estão às mais proféticas explicações para a densa recriação existencial de Wings of Desire.

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Wim Wenders nos entregou uma das grandes obras primas do cinema. Sua análise sobre o comportamento humano, suas paixões, desejos, anseios ocultos, inconfessáveis é o próprio retrato sérpico da vida. Nossa natureza busca a cada segundo aquilo que parece não poder alcançar. Um preenchimento, um bálsamo - quiçá religioso - poético, onírico, artístico ou simplesmente adequado às nossas insolucionáveis inadequações. A pergunta não seria em si, onde vivem os anjos – e sim – onde vive em nós o humano, o demasiadamente humano.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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